sábado, 30 de abril de 2011

VEXAME CÍVICO

Neste sábado, 30 de abril, a bandeira do estado do Tocantins estava invertida (de cabeça para baixo) na agência do Banco do Brasil, na rua 13 de maio, centro de Araguaina.
Não se espantem. Isso é corriqueiro na cidade, vejo constantemente. Só que agora voltei em casa, peguei a digital e registrei a cena. Dizer, por dizer, poderia ser questionado. As provas estão aí.
Se uma imagem fala mais que mil palavras, desnecessário argumentar mais.
Para os 'analfabetos' que hasteiam bandeiras, melhor seria que a bandeira tivesse aquela seta das embalagens com produtos frágeis, dizendo assim: 'ESTE LADO PARA CIMA'.

Ninguém erraria jamais. Epa, peraí! Eles saberiam ler?

Fotos: jjLeandro


jjLeandro

quinta-feira, 28 de abril de 2011

RASCUNHOS DE AUTORRETRATO - jjLeandro

Etapa 1 - Contorno

Etapa 2 - Cabelo, olhos, nariz e boca

Etapa 3 - Definição de contornos

Etapa 4 - Início sombreamento

Etapa 5 - Final  (Desenhos - jjLeandro)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

PAUSA CULTURAL NA UFT

LITERATURA, MÚSICA, CINEMA E ARTES PLÁSTICAS

POSSE DA ACALANTO


Todos os amantes da Literatura estão convidados para o evento.

domingo, 24 de abril de 2011

PANORÂMICA EM CASEARA - TO

 Final de tarde com arco-íris (Fotos: jjLeandro)
Nascer do dia

sábado, 23 de abril de 2011

RIO TOCANTINS - PESQUISADORES, AVENTUREIROS E COMÉRCIO

Porto de Alcobaça - atual Tucuruí (PA) por volta de 1926 - Foto do livro "Viagem ao Tocantins", 2ª edição, 1983, Editora Grafisa, Belém - PA, autor desconhecido, página 63. O livro descreve a viagem do Dr. Deodoro Machado de Mendonça a Marabá, por ocasião da grande enchente do Tocantins em 1926. Quem sabe ele mesmo não o escreveu de forma anônima?
 Barracão de Dias & Cia Ltd., com pessoal carregando castanha - Marabá - PA . Idem, página 63.
 A bordo do general Jardim. General Jardim era um vapor que fazia linha até Alcobaça, atual Tucuruí (PA), pelo rio Tocantins - Do livro Viagem à Itaboca e ao Itacaiúna, Henri Coudreau, Ed. Itatiaia, SP, 1980, página 16. A viagem e as fotos são de 1897. Coudreau é o senhor na espreguiçadeira.
 Motor Pedrina, de propriedade de Alfredo Monção, o primeiro motor que subiu o alto Tocantins. Foto: Viagem ao Tocantins, página 57.
 Porto Nacional por volta de 1935. Foto do livro Viagem ao Tocantins, Júlio Paternostro, 1945, Companhia Editora Nacional, RJ, página222.
Porto Nacional por volta de 1935. Foto do livro Viagem ao Tocantins, Júlio Paternostro, 1945, Companhia Editora Nacional, RJ, página222. À direita, Igreja N. Sra. das Mercês.
Transporte de bagagem em Arrependido. Do livro Viagem à Itaboca e ao Itacaiúnas, Henri Coudreau, Ed. Itatiaia, SP, 1980, página 25. Arrependido fazia parte do complexo das cachoeiras do Itaboca. Para a navegação do local, fazia-se necessária a baldeação de passageiros e mercadorias no tráfego do rio Tocantins, próximo a Alcobaça, atual Tucuruí (PA).




jjLeandro

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O SYNDICATO CONDOR EM CAROLINA (Aviação)

 Imagem: http://ex-ogma.blogspot.com/2008/12/servio-aero-condor.html
No endereço acima, de um blog português, há registro da história do Syndicato Condor, pioneiro na aviação comercial no interior do Brasil. Após a metade da década de 1930, o Syndicato passou a fazer escala em Carolina.
Foto: Arquivo de Gilberto Santa Rosa. Esse avião aí, em pouso ou decolagem no rio Tocantins em Alcobaça (PA), agora Tucuruí, fazia escala em Carolina nos idos da década de 1930.

MEU PAI

José Leandro, meu pai, conhecido por Pajeú, de Carnaíba - PE







Difícil falar de meu pai como sempre achei difícil falar de anjos. Deixo claro que meu pai não era anjo, mas a sua candura habilitava-o a ser uma dessas entidades se elas existissem. Reside aí a minha dificuldade de descrevê-lo: como falar de alguém que a gente imagina perfeito quando a própria perfeição é uma medida da qual se desconfia por não sabê-la verdadeira.
Mas vamos lá, meu pai existia sim, aliás, foi muito presente na minha infância apesar da discrição com que conduzia os negócios e a família. O seu emblemático bigode negro estava ali ao meu lado constantemente. Usava este ícone nordestino — nunca abandonado, apenas viu esmaecer a cor até quase nevar na velhice —, creio, como uma forma de equilibrar candura e respeito.
Eu achava a paz de seus olhos verdes no rosto de nariz afilado, só ardentes com os filhos e mesmo assim com parcimônia, em permanente descompasso com o seu interior em ebulição. Não podia um homem daquele, de alma migratória, ser tão plácido no rosto e em ações com tantos passos atrás de si.
Pouco depois de abandonar sua casa no agreste pernambucano, a mãe desesperada pela viagem dele ao Piauí — e depois para Goiás — e de outros dois filhos a São Paulo cometeu suicídio. Enlouquecida, imaginava-os devorado por onça em Goiás e sendo roubados e mortos em São Paulo. Era demais para aguentar. Mas a tragédia familiar não abalou a inaudita paz de espírito dele. E não era insensível, a força e a rapidez com que se entregava a uma tarefa contrariavam qualquer prognóstico neste sentido. Desde solteiro sempre fora uma locomotiva no trabalho, costurando numa só noite em Floriano, durante sua passagem pelo Piauí, quatro centenas de sacos para colocar o sal que grandes atacadistas faziam chegar à cidade pelo rio Parnaíba. Ou então o paletó, também feito numa noite, para o chefe político tomar posse como prefeito. A máquina de costura não parava na alfaiataria com que ganhava dinheiro para custear as suas andanças na migração. Só ele não temia aceitar esses desafios. E quando alguém, preso a dificuldades de última hora o procurava, era com prazer que aceitava a tarefa quase impossível. Rápido o giz e a régua à mão constituíam-se afirmação eloquente. Em sua estada em Floriano corriqueiramente os alfaiates diziam quando uma proposta desafiadora surgia em seus ateliês: “só o Zé Leandro é capaz de resolver esse problema enquanto o diabo esfrega um olho”. E resolvia mesmo!
Foi assim, de déu em déu, que chegou em Carolina em cima de uma carga alta de caminhão, enfrentando chuva e os atoleiros de areia na estrada de Balsas. Roupas amarrotadas e sujas de lama não derrotaram sua obstinação. Desceu do carro e pôs bagagem e maquinário da alfaiataria a um canto da pequena pensão assobiando uma cantiga do sertão. Estabeleceu-se por lá numa das últimas etapas no roteiro para Goiás, e da noite para o dia, como nas outras cidades, saiu do anonimato com a realização de tarefas hercúleas. Mas em Carolina a coisa foi diferente. Sentiu sem opor resistência pela primeira vez a ameaça de embaraçar-se pelo caminho. É que enquanto costurava não tirava um olho do avanço da linha sobre o tecido e o outro da moça esbelta, queixo fino, doces e sonhadores olhos castanhos, o recato expresso em cada sorriso contido, que todo dia cedo, ainda com o cheiro da madrugada no ar, o surpreendia com a alfaiataria aberta no caminho para o colégio. Talvez imaginasse impressionada: ‘esse homem não dorme nunca’. Tão logo a filha do comerciante Félix Bringel passava, ele saltava da máquina, recompunha apressado o colete sobre a camisa de algodão,  corria à porta, dava passos desorientados na calçada, cofiava o bigode negro e implorava com os olhos grudados nas espáduas bem desenhadas da menina que ela girasse a cabeça para vê-lo. Parecendo ouvir suas súplicas, Tereza voltava levemente a cabeça e os olhos dos dois se encontravam. Era o suficiente para o coração dele galopar. Sentia-se sobre o cavalo correndo nas vaquejadas do sertão para derrubar o novilho na zona de pontuação sob a ovação pública. Ou então em doidos galopes na caatinga seca, driblando a morte em cada moita de imbuzeiro, quixabeira ou imburana.  Ansiado, tomava sôfregos goles do café frio do bule, pulava na máquina com disposição febril e pedalava até sentir câimbras na panturrilha. Os olhos ardiam da febre do amor e do serão a que se obrigava. Tereza seguia para o colégio das freiras, o olhar casto mirando o chão e sofrendo no íntimo a retaliação à ousadia do gesto. Com outras moças de família aprendia francês, a língua estrangeira dos amantes, completamente inútil para aplacar o íntimo tempestuoso do migrante pernambucano; lia a bíblia sob orientação das irmãs religiosas, mas a via prenhe de sofrimentos e estéril de sonhos românticos. Só a língua portuguesa lhe era receptiva e adivinhava nela a serventia para as cartas com juras de amor.
Com a mesma pressa com que cortava e costurava um tecido, José Leandro armou o bote para conquistar a filha do comerciante. Bastaram umas poucas trocas de olhares, um sorriso envergonhado dela, uns olhos dele que acariciavam e despiam com igual intensidade e pressa, para ele, ligeiro como o sedento se entrega à fonte no deserto, ir enfrentar o homem moreno e baixo, pai da moça. Típico mascate cigano ou judeu, rendido às necessidades de uma família numerosa e da asma que quase o tornou inválido, enfim abandonou as incômodas andanças pelo interior do Maranhão para ver de detrás do balcão os filhos multiplicarem a descendência. Enfrentar o major, como Félix Bringel era chamado na cidade, não foi obstáculo para quem vinha de uma terra onde os homens caminham entre balas durante o dia e orientam-se por seus rastros luminosos à noite.
A família e os vizinhos admiraram o topete do alfaiate recém-chegado indo à casa comercial de Félix Bringel falar namoro a uma de suas filhas. Não seria brincadeira de mau gosto ou uma aposta com colegas gaiatos?, quis saber o comerciante com cara azeda. Não, não e não!, protestou. Ele era homem sério, sem tempo para perda com piadas. Ademais tinha já trinta anos e nem antes nem agora se daria ao trabalho de perder tempo com gabolice. A alfaiataria regurgitava de serviço, nem rede tinha para dormir que o trabalho não deixava, até um ajudante contratara em poucos dias na cidade. Melhor gastar tempo com o ofício que lhe remunerava bem que sair dando uma de doido em casa de família.

Falou claro e convincente. Diante de tanta determinação o velho olhou à esposa, que deu de ombros passando-lhe procuração; olhou à filha aflita, os dedos apertados nos braços cruzados atrás do corpo, as vistas abaixadas à espera do veredito. No meio do salão comercial, José Leandro esperava. Como já botara o nervosismo para fora junto com o pedido, esperava pacientemente a resposta.
Cochichos entre os interessados e a decisão:
— Ela disse que quer, então vocês podem começar a se conhecer. Mas há uma condição — e Félix Bringel criou suspense enquanto expelia a tosse seca da asma. — Os encontros têm que ser aqui em casa, uma noite por semana.
O alfaiate saiu radiante, querendo abraçar as pessoas que via pela rua. Enfurnou-se na oficina por toda a noite, batendo pedal até o dia amanhecer.


jjLeandro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

VELHO CASARÃO - CAROLINA (MA)

 Dia
Noite  (Desenhos - jjLeandro)


Representação artística de casarão na ladeira para o rio Tocantins em Carolina, minha cidade.

jjLeandro

O TROTE - FIM

Carolina - O porto (Foto - jjLeandro)







O banho no rio foi o nosso grande erro. Mas Cristal não teve culpa no que aconteceu depois, nem Sheila, como eu e Udinei, em extremo desespero, chegamos a cogitar. Fomos os quatro nus, apenas uns molambos ao ombro — para enxugar-nos depois. Crisóstomo, a cara lerda acusando ardis que o álcool não nos permitia decifrar, recusou-se; preferia as águas mornas do sexo, foi a justificativa que deu. Quase no breu, valendo-nos da fraca luz de uma lamparina, descemos o barranco pela lateral da casa. A embriaguez aumentava os riscos de queda e também a algazarra na descida. Cristal explicou-me que entre os ribeirinhos era costume o banho a qualquer hora, para mitigar o calor, pois as casas não tinham água encanada. Nos cabarés, era uma maneira de aliviar o excesso de álcool e de assear o corpo. Por lá ficamos quase uma hora. Agarrado aos sarãs na água rasa do barranco, conservei a cabeça o tempo todo acima da superfície líquida para evitar a friagem. Para mim, conhecer os segredos de uma mulher era aventura bastante para um único dia. Arriscar com o rio seria abuso imperdoável. Ao contrário, Cristal, Udinei e Sheila mostravam grande intimidade com o rio: nadavam, mergulhavam, riam e faziam chacota de meu temor. No escuro, suas vozes pareciam ecos de fantasmas fanfarrões querendo-me assustar. Pouco via à volta além do círculo assinalado pela luz tímida da lamparina sobre uma pedra. Longe, na outra margem sobre o barranco, as luzes de Filadélfia eram um rosário de pequenas contas faiscantes que nos vigiavam.

Já passava da meia-noite quando voltamos revigorados do rio. Era hora de pagar as meninas, acertar as bebidas, pôr roupa e ir embora. Fui vestir-me no quarto onde me diverti com Cristal, mas meu uniforme não estava lá. Quando saía do quarto, Udinei quase trombou comigo, também excitado.
— O meu uniforme sumiu — disse.
— O meu também.
Cristal e Sheila reviraram os quartos, uma tarefa simples e rápida na mobília exígua: nada.
— E agora? — choramingou Udinei.
Antes de responder, olhei para as meninas encostadas à janela, visivelmente constrangidas.
— Foram vocês? Cadê nossos uniformes?
— A gente tava no rio com vocês, esqueceram?
Arrancamos Crisóstomo da cama. Tínhamos certeza que resolveria o enigma. Mas ele negou veementemente que soubesse algo, que tivesse ouvido qualquer barulho, que alguém tivesse invadido a casa enquanto nos divertíamos no rio. Entre aquela gente era comum as portas só serem fechadas na hora de dormir. Ainda se deliciou com o nosso aperto:
— Como puderam ser assim tão patetas? Perderam para os moleques da rua, bem merecido. Não há dúvida que eles entraram e levaram os uniformes.
Ele falava, falava e falava. Aos poucos aliou a autoridade que a maior experiência lhe conferia ao nosso desespero para dobrar-nos mais e mais. Por fim concordamos que fôramos idiotas.
— E como vamos sair dessa enrascada? Como vamos embora? — pedimos ajuda.
A fulaninha que fornicara com ele a noite toda também queria ver-nos fodidos, sabíamos, mas se mantinha com fingida seriedade diante de nossa aflição. Rindo o quanto podia — e só ele ria —, Crisóstomo apontou uma saída, desesperando-nos mais ainda:
— Arruma lá dois vestidos para eles.
— O que disse? Prefiro ir pelado pra casa. — reagi, recebendo o irrestrito apoio do Udinei, de pouca serventia.
Crisóstomo divertia-se:
— Pois que seja, há mesmo pouca gente na rua agora. Eu já estou indo.
Belo companheiro era ele. Dava impressão de querer mesmo ver-nos em apuros. Caminhou para a porta. Suplicamos das meninas qualquer peça rota. Uma calça imprestável de algum cliente que ousara uma noitada sem dinheiro e a deixara penhorada. Uma calça para cada um era o bastante. Mas não havia uma sequer. A salvação veio com Cristal. Revirando um velho baú de seu pai, encontrou surrados gongós da lida garimpeira. Quase não acreditei ao tê-los nas mãos. Ficaram rodando em nossas cinturas, mas estávamos novamente vestidos.
Não desejei sequer camisa, queria afastar-me dali o mais depressa possível.
Verdade que a emergência da volta estava resolvida. Mas como explicar em casa o sumiço do uniforme? Tive sorte de encontrar meus avós em sono solto. Na manhã seguinte, sábado, acreditaram de bom grado que a prova fora difícil e o professor estenderá o horário. Mas a aflição não me abandonou um segundo sequer até o final da tarde de domingo.
Depois de voltar da missa do final do dia, encontrei sobre a mesa grande da sala um pacote com meu nome.
— Vó, quem deixou? — perguntei intrigado.
— Um menino.
Abri o volume e meu coração saltou aos pulos: estava salvo — o meu uniforme! Havia um bilhete junto, de ninguém menos que o Crisóstomo: “gostou do trote? O Samuel e o Rocha Filho me ajudaram muito.”
O sacana valeu-se de dois outros colegas para pregar-nos a peça.



jjLeandro





segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TROTE - parte VI

                                                         Barcos em Carolina - MA (Foto jjLeandro)





Não foi uma história fácil para Cristal contar. Percebi que reacendia fogos mortos ou reavivava os que ardiam brandamente em seu íntimo. Uma narrativa cheia de lacunas, pausas e suspiros que demonstravam sofrimento conforme avançava e o desejo de que tudo acontecesse diferente se isso fosse possível. Sempre esperamos que uma história contada incansáveis vezes uma hora tome um atalho que nos livre dos momentos difíceis, das agruras, das perdas, levando-nos aonde deseja o coração. Era esse o ingênuo propósito de Cristal, uma criança num corpo castigado de mulher. Quando um interlocutor se dispunha a ouvi-la, tinha a história no ponto — prova de constante exercício, nem que fosse após o cliente embebedar-se o suficiente para ser impossível a recusa. Não era o meu caso, embora a bebida colaborasse para fazer crescerem os espaços em branco na sua história. Cristal fora homenagem da mãe ao quartzo que tornara possível o seu encontro com Raimundo. Recordo que me disse: meu pai era garimpeiro, dos muitos analfabetos que queimavam o dinheiro ganho com o cristal nos cabarés de Carolina. E também o duro juízo que fazia da própria mãe: não sei como pôde se apaixonar por ele e engravidar; coisa de puta besta.
Caminhou até a janela aberta, procurou, olhando para baixo, o caudal invisível do rio. E nele buscou e encontrou, com a propriedade de quem conhecia bem as inclinações e as distâncias por ali, as luzes de sinalização das cabines dos pentas*. Havia um atracado no cais distante — as luzes bruxuleando como lamparinas —, embarcou nele seus pensamentos e buscou a fuga no nevoeiro feérico do rio. Abraçando-a por trás, impedi que me deixasse. Sacudi-a com forte abraço restaurador e o esforço dela para se libertar de mim lançou em meu rosto o cheiro forte de nicotina e álcool que impregnava seu hálito.
Para apaziguá-la, murmurei:
— Engravidaria de mim?
Ela respirou fundo o ar que vinha do rio carregado da umidade noturna. Balançou a cabeça, para afastar vozes desconhecidas que a tentavam. Acho que estou ficando bêbada, disse enquanto passava as mãos no rosto e nos cabelos. Está não, objetei. Você ouviu bem o que eu disse: engravidaria de mim? Você acabou de dizer que sua mãe foi burra ao engravidar do garimpeiro.
— Mas com você é diferente, qualquer mulher desejaria engravidar de você.
— Uma ova que qualquer mulher desejaria engravidar de um moleque como eu. Você está sendo rigorosa demais com sua mãe, isso sim. Não vê que também toparia uma gravidez maluca como fez sua mãe? Mas não a culpe. Ela apenas curtiu o amor que lhe foi possível.
— Mas precisava ser com um homem que batia nela, que vivia bêbado, que vinha a Carolina gastar o que ganhou no garimpo e dormir com outras putas? E para mim, sua filha, nem carinho nem conforto?
— Eu já lhe disse: talvez não tenha sido o amor desejado por ela; mas foi o amor possível.
Ela estava surpresa, estava claro que sua agitação e a voz quase sem pausa acusavam o seu desconforto diante de minha interlocução e meus esclarecimentos. Bem possível que em todas as oportunidades de expressar-se ocorrera um monólogo com um bêbado prostrado. Não ouvia um sim ou um não, podia falar, falar e falar ininterruptamente. E quando a história chegava ao fim, se não chorasse, o ronco do cliente ocuparia o silêncio opressor. Foi para fugir de uma situação que a obrigaria a reflexões, que a poderia levar a atalhos não desejados mas reais, uma vez mais negando-lhe o tão almejado final feliz, que fez o convite com um sorriso forçado.
— Vamos banhar no rio?
— A essa hora?
— Muita gente faz isso aqui — disse com uma desconcertante travessura na voz.
— Vamos procurar o Udinei e a... a...
— ... A Sheila para irem com a gente — completou.

 * Como eram chamados metonimicamente os barcos a motor em Carolina. A marca do motor utilizada nos barcos era a Volvo Penta.


jjLeandro

sábado, 16 de abril de 2011

O TROTE - parte V

Castelo - Rio Tocantins (Foto - jjLeandro)





Continuação....

                                           O TROTE          V


Relaxei daí em diante. Senti-me o dono do mundo. Tinha cerveja à vontade, uma mulher nua na cama — a beleza não importava —, no momento não importava sequer o amor a quem descobria o prazer carnal. Pegando por empréstimo a rasa filosofia do Udinei — sorri por dentro ao imaginar como ele se virava com a outra —, julgava fechado o círculo com a parte que faltava para o domínio da arte de amar. Um pensamento narcisista resumiu o meu estado de satisfação: impossível que me segurassem doravante. A cerveja tornara-me mais audaz e Cristal mais concessiva. Mas bastou que ela novamente colocasse o seu primoroso empirismo em ação para eu ser obrigado a rever, com extrema brevidade, meus princípios filosóficos a quem a euforia tão apressadamente consagrara solidez. Seus variados dotes na cama provaram-me que o sexo tem uma encruzilhada no meio que nos leva a caminhos de diferentes prazeres.   
O corpo lasso na cama, o pensamento voando longe, foi ocasião oportuna para Cristal aconchegar-se a meu lado, também extenuada. Não sem antes me ter servido mais bebida e distribuir-me pelo corpo uma quantidade enorme de beijos. Seguiu-se uma pausa, mas antes que o silêncio se expandisse sobre nossos corpos saciados como mortalha, ela atreveu-se quebrá-lo com a história de sua vida. Como não pedi que parasse, por conta própria pausou. Parecia pausa adestrada por acontecimentos passados. Num suspiro, que era um desabafo, revelou que os clientes não toleravam sentimentalidades.
— E o que dizem? — perguntei entre goles de bebida.
— Mandam eu parar imediatamente. Há deles que até me batem.
Fiz uma careta, misto de espanto e riso pela quantidade de cerveja ingerida.
— Quer um cigarro? — ofereceu-me enquanto acendia um Charm para queimar ilusões.
Peguei um dos longos cigarros, acendi-o no que ela já fumava, e enquanto executava a tarefa senti seu hálito próximo de meu rosto numa intimidade que não existira ao transarmos. Exalava-o aos trancos, nervosamente. Pilhéria uma mulher cheia de tretas sobressaltar-se diante de um adolescente. Sem entender o torvelinho de sentimentos que a agitava, num gesto imponderado, afaguei seus cabelos compridos. O meu gesto arrancou-lhe outro suspiro, longo agora — marcando o relaxamento de todos os seus músculos. Seus olhos fecharam-se por uma fração de tempo, para mim um átimo, mas que para ela pode ter representado uma eternidade.

Imaginei seu sofrimento naquela vida. Imaginei o último carinho que recebera se a sua profissão permitisse isso. Naturalmente experimentava por ela uma aproximação empática. Vivíamos situações semelhantes de descoberta e de ausência. Apertei-a contra meu corpo, o corpo dela tremeu como se agitavam os das colegas de aula tocados no escuro da boate Itapuã. Deixou-se conduzir como eu bem entendesse. Dera-me a primeira noite de sexo, eu estaria dando-lhe a primeira noite de amor? Era essa expectativa que tornava o seu fôlego asmático e transia seu corpo com frêmitos da sezão? A súbita afeição por ela impediu-me de continuar tratando-a como uma puta. Esses questionamentos sumiam no escuro do quarto junto com a espiral da fumaça de meu cigarro. Escondia, como qualquer mulher, sonhos inconfessos? Sua condição era obstáculo a uma revelação? Quis descobri-los sondando seus olhos. A penumbra era sua aliada na recusa. Mas não foi preciso maturidade, nem clarão de luzes, as lágrimas que boiavam em seus olhos revelavam tudo. Percebendo que eu flagrara o seu choro silencioso, cujos vestígios ela — mais que depressa — fez desaparecerem na colcha suja da cama, desejou não aparentar carência, mas revelou-a inteira:
— Puta é sempre assim, tem todos os homens e não tem nenhum.
Lancei círculos de fumaça no ar sumidos na escuridão. Enquanto via desaparecerem, desviei o fio da conversa para que não rompesse em prantos. Quis saber o porquê do seu nome, curiosidade que me roía desde a hora em que nos apresentamos. Era a primeira Cristal que conhecia.
— Cristal?
— Sim.
—Foi escolha de minha mãe. Era a dona desse cabaré quando a febre dos garimpos dominava a região e os homens vinham buscar dinheiro no banco daqui. Foi o tempo em que ela mais sorriu e também mais chorou.
— E por quê?

jjLeandro


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O TROTE - parte IV

                                                        Casarão na Praça Cândido Mendes - Carolina - MA







As duas vieram determinadas para cima de nós. Udinei, um pouco adiante de mim na sala, mais próximo do início do corredor, foi logo abraçado pela puta da frente. Talvez tivesse ela os nossos mesmos dezessete anos. A que deu dois passos a mais e me beijou no rosto não tinha mais que vinte e cinco anos, mas passaria ali fácil, fácil, consoante a regra, por uma mulher de mais de trinta.

Sentaram-se descaradamente em nossos colos. A minha agitou a vasta cabeleira lisa, jogando a cabeça para trás, enquanto dizia:
— Cristal, e você?
— Júnior.
— É a primeira vez?
Que indiscrição, pensei. Por isso resolvi-me pela desfaçatez, pregando-lhe uma nada convincente mentira saída após pigarros e vacilos na voz:
— Aqui sim, a primeira vez.

Udinei, ao lado, era só quem falava. Na realidade cochichava no ouvido da sua puta, que escutava com atenção. Presumi estar sendo mais ovidiano que Ovídio na Arte de Amar, procurando castidade no amor libertino. Enlevada em seu colo, ela bebia as palavras que o baixinho dizia. Que poltrão, será que teria sucesso na cama? Tagarelar sem parar era estratégia para não permitir brecha a um convite para a ação. Ali não havia mulher para derrubar na lábia, não estávamos na boate Itapuã com as colegas de aula, conversa ali era pura perda de tempo. Para mudar drasticamente o rumo da arenga interminável, com risco de pedir namoro à donzela conventual, quase aos berros, propus: cerveja para todos! Udinei saiu do transe verborrágico com uma objeção fruto de seu medo de alterar o quadro: e aqui tem isso? Tinha sim, a noite fora bem planejada por Crisóstomo. Viveríamos ali o céu e o inferno numa noite só. Ah, velhaco! Cristal foi lá dentro, sumindo no corredor escuro para retornar pouco depois com copos e cerveja gelada. Inicialmente sorvi grandes goles, levando Cristal a suplicar que lhe desse mais atenção: calma, menino, lá dentro tem mais. Abortou com um beijo o sorriso que ameaçou aflorar em meus lábios quando virei o rosto para olhá-la. E ela decidiu trabalhar sem mais demora, pondo fim a minha lerdeza. Agarrou minha mão, arrastando-me para um dos quartos enquanto dizia baixinho com despudorado profissionalismo: com puta num carece pedir licença. Em boa hora ela desfizera o nó que me mantinha paralisado: não saber iniciar a ação. Em consequência, a excitação que já era grande deu um salto que quase extrapolou meu corpo. Eu flutuava, sim, flutuava; meus passos não mais repercutiam no soalho gasto e frágil. Perdera os cuidados com o precipício sob nossos pés. Andava sobre nuvens. Com o ânimo em polvorosa, desculpem-me os que me leem agora, não observei o novo ambiente, portanto não posso descrevê-lo. Só posso dizer que o quarto era uma extensão da miséria da sala. Perfeitamente claro, pois, que a miséria ali era metástase que não se contentava com um único cômodo da casa.

Em pouco tempo perderam-se na distância os gritos e gemidos da fulaninha do Crisóstomo. As conferências do Udinei não eram mais que algaravia varrida para os confins do cérebro pelo desejo que me agitava o sangue, tornando-se imediatamente, até a extinção, suave rumor incompreensível. Livre de interferências externas, corpo relaxado pelo toque de mãos habilidosas que jogaram no chão o uniforme do colégio e o roçar lascivo de outro corpo, consegui a sintonia de todos os sentidos para o sublime exercício da primeira vez. Em meus braços, o amor transpareceu cristalino; cristalizou-se livre dos véus que a angústia da espera só aumentava. Cessada a grande agitação na velha cama que nos deixou escorrendo suor pelas pernas e braços, Cristal, nua, levantou-se e finalmente abriu a janela. Uma súbita lufada de brisa fresca vinda do rio arrepiou meu corpo também em pelo. Acolhi com um sorriso de prazer a primeira sensação corporal após o inaugural orgasmo em comum. Representou um batismo. O batismo que me tornava homem. E foi com voz de homem, espreguiçando-me na cama, olhos fixos na noite benfazeja que invadia o quarto pela moldura da janela, um turbilhão de sensações na cabeça, que quis comemorar tudo aquilo com mais cerveja.  


jjLeandro



quinta-feira, 14 de abril de 2011

O TROTE - parte III

— É aqui — disse Crisóstomo estacando de repente.
— Aqui? — eu e Udinei não contivemos a surpresa.
Ele ria, sabíamos que ele ria no breu da noite. A sua voz, quando saiu, denunciou-o. 
— Queriam o quê? Um palacete? Isso só lá no centro da cidade. E as mulheres que moram lá não são putas.
A casa era quase uma ruína. De costas para o rio, segurava-se milagrosamente no barranco.
Cedemos e entramos com ele. A sala da frente parecia no último grau de miséria. Tamboretes com couro rasgado eram a mobília. E sobre um deles a luz fraca da lamparina fazia pouco caso de iluminar cenário tão pobre. O soalho de madeira, estragado pelo tempo, rangia aos nossos passos. Imaginei logo o tamanho da queda barranco abaixo até o rio. Sobreviveria à queda? Ao menos que não seja antes de uma boa trepada, supliquei aos céus. Como bom cristão procuraria fazer a minha parte: busquei a impossível flutuação com passos suaves que mal tocassem o chão. O teto alto, invisível na penumbra, com certeza escondia telhas escuras e teias de aranha centenárias no madeiramento roliço. Já tivera fausto aquela casa, já fora morada de opulentos fazendeiros um século antes, cujos descendentes nas primeiras décadas do século XX tornaram-se os ricos comerciantes do rio, monopolistas da comunicação fluvial com Belém do Pará. Inquestionável que a riqueza é como as pessoas, migra de lugar e muitas vezes foge de quem a possui.
Sem qualquer aviso de nossa presença, de um corredor que levava aos demais cômodos da casa, apareceu uma mulher. Enquanto a pouca luz escondia suas feições, permitindo ver apenas a massa de sua silhueta, parecia apetecível. Ao chegar risonha e beijar Crisóstomo na boca, a luz da lamparina revelou sua feiúra.
— São eles? — perguntou agarrada em seu pescoço.
— Sim, não disse que os traria?
Incomodei-me ao ser despido pelos olhos dela. Senti-me uma besta em exposição. Cochichou algo ao ouvido de Crisóstomo, olharam para nós — plantados ao meio da sala —, riram e senti-me ainda mais ridículo.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, antecipando-se a Crisóstomo que sentara em um dos tamboretes com ela ao colo. — As meninas tão chegando já, já.
Sabia que o cochicho dela tinha sido sobre a nossa primeira vez com mulheres num cabaré. Senti-me desconfortável como se num passe de mágica alguém tivesse retirado a minha virilidade.
— E onde elas estão? — Udinei abandonou o mutismo.
— Nos fundos, arrumando-se. A noite hoje é especial — e deu uma sonora gargalhada.
Num piscar de olhos Crisóstomo sumiu de nossa frente, metendo-se com a mulher em um dos cômodos. Em seguida começaram os escandalosos gritos e gemidos da fulaninha. Olhei para Udinei em busca de socorro, ele — mais que depressa — jogou o comando das ações em meu colo. Decidi então não me esquivar à responsabilidade.
— Elas estão demorando — disse eu, tamborilando os dedos na coxa.
— E se forem tão feias quanto a do Crisóstomo? Valerão a pena?
— Não seja covarde, vai desistir?
Os gemidos da fulaninha do Crisóstomo eram verruma abrindo buracos em nossa coragem. Mas não capitulei.
— Bonita ou feia, vou pra cama.
— Também eu.





jjLeandro 


Casarão abandonado - Carolina - MA (Foto: jjLeandro)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O TROTE - parte II

A continuação...


II

À noite, descemos a ladeira do rio em vez de ir ao colégio. Não houve como evitar os uniformes; deixamos os livros em casa, alegando dia de prova. Crisóstomo, com rigores de professor que cobra entendimento dos alunos nas matérias, ia explicando o que deveríamos fazer no cabaré; a intervalos nos interrogava para ver o nível de assimilação das lições. O resultado de tanto sermão foi aumentar o nosso nervosismo. Porra, pensei, será que uma trepada é tão trabalhosa assim? Esconjuro! A sua última recomendação e os lances seguintes daquela noite por muito tempo zoaram-me na cabeça. Depois de escolado nos cabarés da cidade, ria daquela primeira peleja e da sua derradeira recomendação — na verdade uma piada, os fatos comprovariam — antes de pisar na soleira do puteiro: “Que o único vexame dado aqui seja elas verem que somos colegiais fugidos da escola”. 


Atravessamos a pequena ponte de madeira sem corrimão sobre a grota que escoava a cloaca da cidade no rio Tocantins. Uma quadra antes mergulhamos na escuridão das ruas miseráveis da beira-rio. O Tocantins, invisível, corria à direita, largo, cálido, pulsante como  corpo de mulher. Não o dominara ainda, não sabia nadar. Era cerimonioso com ele como tinha sido até o momento com as mulheres. Partia agora para conquistá-las, depois seria a vez dele. Mentalmente, sentindo no costado a volúpia de seu hálito úmido me atrair, que a noite fazia subir o barranco misturado à acidez dos peixes, conjeturei: primeiro as mulheres, me aguarde; depois domino você. Ouvi Crisóstomo me chamar na escuridão: “Ê, poeta, tá aí parado esperando o quê? Vais desistir agora?” 
Acelerei o passo, acompanhando os colegas que já subiam a rua depois da ponte. 
— Tá longe? — Udinei perguntou.
— Chegando — respondeu Crisóstomo.


Na rua sem iluminação, as pessoas que cruzavam conosco eram borrões escuros, silenciosos. Passavam como sombras, inexpressivas. Vez ou outra um grito escandaloso de uma puta vazava as paredes das velhas casas de taipa, chegando à rua. Instintivamente eu virava o rosto a procura de localizá-la e o meu olhar batia contra a parede da imensidão da noite. Mas ela era vazada por pontos alaranjados das lamparinas a querosene sobre janelas abertas — referência de onde a luxúria se abrigava. E por ali parecia um céu estrelado. Sorri nervoso e a friagem pegajosa da noite aproveitou a fragilidade do momento para tocar os meus ossos. Não conseguia imaginar tanta puta em Carolina — invisíveis à luz do dia nas ruas da cidade; ou seriam os meus olhos incapazes de joeirá-las de entre as outras mulheres? 





jjLeandro




Amanhã tem mais.....




A velha ponte - Carolina - MA (foto - jjLeandro)

terça-feira, 12 de abril de 2011

O TROTE - parte I

Vou postar a partir de hoje o conto O TROTE, em capítulos. Cada dia um capítulo. O conto está começado e o seu desenvolvimento acontecerá aqui, dia a dia.



                                         Carolina - MA (cidade sul maranhense) - foto: jjLeandro

I

Saí do banco radiante. Enfim chegara a ordem de pagamento da minha mesada. Podia agora realizar o sonho acalentado desde que estudava em Carolina: ir a um cabaré. Tudo já estava planejado com Crisóstomo e Udinei, faltava tão somente o dinheiro. Crisóstomo, que já conhecia as putas da beira do rio, fora lá umas duas vezes — confessara em excitantes papos sobre o assunto —, riu quando eu, num dos muitos encontros de planejamento, querendo antecipar a visita mesmo sem dinheiro, insisti:
— Você é conhecido por lá, elas não aceitam que a gente pague depois?
Após demorada risada, ele pulverizou meus resquícios de esperança:
— Mesmo que elas confiassem, achas que seria teu avalista? Tu comerias a puta e depois eu é que me foderia pagando.
— Pô, você é ou não é meu amigo?
—Tanto sou que te levarei lá junto com o Udinei. Mas devem aprender uma coisa: puta nenhuma trepa no crediário.
Sorri ao relembrar minha ingenuidade na conversa. Mas só sorri porque agora tinha dinheiro, aliás, dinheiro suficiente para várias idas à beira do rio. Do banco fui direito ao trabalho dele, o escritório da empresa aérea que voava do Rio de Janeiro para Belém, com escala em Carolina. Da porta, sob as árvores da rua, fiz sinal, chamando-o. Pediu com um gesto de mão, por trás do vidro do guichê, que esperasse um momento — estava ao telefone —, provavelmente falando com o aeroporto do Ticoncá. Eu não queria tratar do assunto lá dentro, duas mulheres trabalhavam com ele. E as duas conheciam minha avó com quem eu morava na cidade.
Desligou o aparelho, arrumou algo mais no guichê e saiu à rua.
— O que foi? — perguntou.
Entusiasmado, mostrei-lhe o tufo de dinheiro.
— Para as putas do rio.
—Estás louco, guarda isso! — e pôs a mão sobre a minha, forçando-a em direção a meu bolso. — Tens aí dinheiro suficiente para muitas idas ao cabaré. Chega-se lá com pouco dinheiro, umas notinhas amassadas no bolso, sovinas, caso contrário na volta se está mais pelado que frango que vai à panela.
Tranquilizou-se ao ver que eu guardava o dinheiro.
— E o Udinei, tá pronto? — quis saber.
Sacudi a cabeça afirmativamente.
— Ele vendeu a bicicleta para arranjar o dinheiro...
A gargalhada de Crisóstomo me interrompeu.
— Porra, são dois otários, isso que vocês são — e completou ao ver minha cara perplexa: — Bem feito, ele agora vai a pé toda noite para o colégio.
Eu procurei justificativa para o ato desesperado do amigo:
— Você diz isso porque já esteve por lá. Nós vamos pela primeira vez.
Comovido com minha virgindade, Crisóstomo mudou de assunto. Despachou-me para acertar tudo com Udinei na casa dele. Vai lá, reforçou. Se tudo estiver certo com ele, quero dizer, se ele estiver com dinheiro, é para hoje à noite.
Esfreguei as mãos de contentamento e saí como um foguete. Entrei na casa do baixinho metido a filósofo na disparada, com a mesma pressa de quem foge de um cão raivoso. Na grande sala da frente quase atropelei a velha mãe dele. Ela abandonou o bordado que fazia para seguir meu trajeto com cara de quem já perdera as esperanças de entender adolescentes que dançavam sem tocar nas garotas. Não havia dúvida que era a mesma cara de quando surpreendia e reprovava os nossos papos sobre as noitadas com as meninas na boate Itapuã. Amante de boleros e valsas, não entendia os movimentos lúbricos da dance music. Não lhe dei a importância das outras vezes em que por trás da minha atenção sempre existia o inconfessável objetivo de chegar aos seus cuscuzes com café. Deixa pra outra vez, há coisa melhor a fazer agora, e tentei vencer o delicioso gosto dos cuscuzes que o cérebro me cobrava a satisfação insistentemente com outro prazer que ainda só podia imaginar.
  Udinei estava no quarto estudando matemática.
— Baixinho, sabe pra que é isso? — disse eu da porta, agitando na mão um leque de notas de dinheiro.
Ele se levantou num estalo da cadeira, abandonando na mesa sob a janela alta, que recebia a claridade da rua, os livros e cadernos. Veio em minha direção com o dedo em riste. Deixa eu ver se adivinho, disse antes de me dar um abraço de contentamento quando confirmei:
— Para as putas do rio.
Ele socou o ar com o punho e deu um grande grito: Hip hurra!
Sua mãe chegou correndo no quarto a fim de saber o motivo da gritaria. Nada, mãe, disse, pondo-a para fora do quarto e fechando a porta.


jjLeandro  

domingo, 10 de abril de 2011

ACALANTO ELEGE GALLO NOVO PRESIDENTE

Edson Gallo é o novo presidente da Academia de Letras de Araguaina e Norte Tocantinense, Acalanto, para o triênio 2011/13. A eleição aconteceu neste domingo, 10, na AABB, com a participação de 24 dos 30 membros da academia. 
Três candidatos disputaram a eleição, sendo que Gallo recebeu 16 votos, Zequinha Decoles, 7, e Luiz Aparecido, 1. Segundo José Francisco Concesso, presidente em exercício, este foi o pleito de maior participação tanto em número de candidatos (três) quanto em comparecimento e deverá assinalar um novo marco na história da entidade. “Sentimos o interesse participativo de todos e a disposição de, em colaboração com a nova diretoria, alavancar a literatura regional”, disse.
Para Gallo, que tomará posse em solenidade no dia 30 de abril, na sua gestão na Acalanto novos projetos vão impulsionar a literatura na região norte do Estado, tendo inclusive viagem programada a Brasília para captação de recursos junto ao Ministério da Cultura . “Teremos pela frente muito trabalho. O nosso compromisso com a entidade é trabalhar projetos que aumentem a produção literária dos acadêmicos e os aproximem dos leitores”, defende.

 Com informações da Ascom - Acalanto 

Edson Gallo - (Divulgação)

sábado, 9 de abril de 2011

ORQUÍDEAS








Fotos: jjLeandro
Estive hoje com um amigo, Murilo Brandão Vilela, alagoano de boa cepa, em Tocantinópolis. Além da boa prosa do médico e escritor, há que se destacar a recepção sempre gentil dele e da esposa Conceição. Maravilharam-me ainda as orquídeas do casal. Natureza integrada à vida, o aspecto da sua residência é o de uma chácara, tal a quantidade circundante de flora e fauna.


Plantas por toda parte, e árvores frutíferas e umbrosas. Os pássaros são livres, diga-se, atraídos pela acolhedora sombra e farto alimento das frutíferas. Um paraíso. Ouvir o som canoro dos pássaros é mais aprazível que os muitos decibéis do barulho de motores de veículos. Alguém discorda?


jjLeandro

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O SEGREDO DOS HAMSTERS DO NAZISTA

Cresci ouvindo todo mundo dizer que o alemão da nossa rua era nazista. Mas só anos depois descobri toda carga de ódio histórico que a palavra carrega. Antes disso o via com olhos indulgentes. Era solitário, e não parecia opção sua. Só isto bastava para eu me encher de pena. Diziam que se isolava porque seus segredos eram tantos e tamanhos que vivia com medo de cometer inconfidências durante o sono que o prejudicassem irremediavelmente. Por isso, diziam também, nem mulher arranjara desde a chegada ao Brasil.

Era criança e pensava na implicância das pessoas como puro despeito por ele viver num belo sobrado ao pé da ladeira entre casas humildes de empregados da fábrica de tecidos que logo cedo acordava o bairro com um apito estridente, descoroçoando os galos nos quintais. Com chuva ou neblina, frio ou calor, os trabalhadores beijavam mulheres e crianças e dirigiam-se pontualmente ao serviço. Ele, no entanto, nunca seguia para trabalho algum. Sua exclusiva ocupação visível era postar-se ao amanhecer no portão de casa qual esfinge, olhos cravados na rua, e uma expressão grave de quem remoía o passado. Ele continuava ali enquanto não passavam todos os trabalhadores de semblantes pesados e soturnos. Em pouco mais de meia hora, o sol mal dissipando a madrugada, a rua voltava ao silêncio. Um ou outro cachorro farejava o magro lixo da gente pobre em busca da primeira refeição do dia. Como não havia mais atrativo ali, o homem voltava a fechar a porta de casa, isolando-se do mundo. Só a abriria novamente quando o apito da fábrica anunciasse o final da jornada. E ficaria à porta, umas vezes sentado em cadeira, outras em pé mesmo, novamente esfinge, não raro sem camisa, os peitos flácidos, a barriga gorda caída sobre o cós da calça escondendo o cinto até quando o último trabalhador passasse. Não permanecia observando o movimento da nova seara de gente que invadia a rua com grande barulho: os estudantes. Durante a movimentação na rua ele não cumprimentava ninguém. Também não reclamava que a contrapartida fosse a indiferença. Tratavam-no como se não existisse, como se fosse a sombra de uma árvore que se alguém acenasse para ela poderia passar por louco.

À porta de casa ou à janela, eu vigiava a sua movimentação, ou melhor, a sua imobilidade com grande interesse. A luz acesa dia e noite no quarto da frente do andar superior também me intrigava. O que tanto fazia trancado naquele ambiente? Achava-o estranho, hábitos misantrópicos em descompasso com a vizinhança acessível e tagarela. Estariam as conversas quase cochichadas dos adultos influenciando meu juízo a seu respeito? Naquele tempo seus hábitos incutiam-me a certeza de que nazista era o mesmo que se enclausurar, esconder-se de tudo e de todos. Certa vez minha mãe criticou a timidez excessiva de minha irmã mais velha, que a mantinha reclusa em casa como uma monja no claustro, e não tive dúvida em vingar-me dela na primeira oportunidade em que me passou raiva: nazista! Levei uma sova e promessas de outras tantas se voltasse a repetir palavrão tão feio.

O nazista saía furtivamente de casa, pude observar, sempre metido no mesmo paletó de tweed xadrez, chapéu de feltro na cabeça e olhares desconfiados escrutinando calçadas, becos, cruzamentos das ruas. Não fosse a excessiva desconfiança passaria por um bom velhinho aposentado em roupa comum. O destino de suas saídas era previsível: o banco, o armazém e, com mais frequência, o vendedor de hamsters, que atendia num aviário. Este último destino era o que mais chamava atenção nas redondezas. Inicialmente, o próprio dono do aviário era indiscreto a respeito das visitas do nazista. Falava com português duro de Lisboa que o homem lhe comprava muitos hamsters. E a história da preferência do nazista pelos ratinhos correu a rua de ponta a ponta. Quando ouvi sobre os hamsters do nazista, visitei o desbocado Manuel. E ele não se fez de rogado, vasculhou um livro de vendas e contou os animaizinhos adquiridos pelo homem no último mês: cinquenta, ó miúdo, disse alisando o vasto bigode negro. Mas nem o Manuel, familiarizado no Sudeste Asiático com quem comia cobra e cachorro, sabia o destino dos hamsters do nazista. Disse com pragmatismo sobre a excentricidade: interessa-me que é bom cliente, paga à vista pelos bichinhos e nunca reclama do preço. Que posso querer mais, pá? Virou-me as costas, como a querer reparar o tempo perdido com criança, e pôs muita atenção no desnecessário trabalho de arrumar as já arrumadas gaiolas dos pássaros. Eu voltei intrigado para casa. O que fazia o nazista com tantos hamsters? Um só, dois, vá lá, serviriam de companhia, distração para um homem solitário. Mas um monte deles!? Pior de tudo que o sobrado era um fortim inexpugnável. Outro dia meus pais se deram conta, surpresos, que em dez anos jamais viram vivalma entrar lá. Já que ninguém tinha acesso ao fortim, restou como desforra apelidá-lo de bunker. O segredo dos hamsters era, portanto, indevassável.

Assim a imaginação popular deu asas, ou patas, à fantasia. Havia quem garantisse serem os hamsters o alimento predileto do nazista. Ao ouvir à mesa de refeição meu pai relatar o absurdo que se espalhava pela rua, minha mãe correu ao banheiro aos engulhos. Voltou ainda lívida e furibunda: nunca mais diga coisa tão nojenta à mesa. Ele encolheu os ombros defendendo-se: é o que o povo diz. Meu irmão caçula sublimou a versão nojenta com uma hilária. Para a criançada do colégio, o nazista queria dar continuidade ao desejo megalomaníaco de Hitler de dominar o mundo. Treinava secretamente um exército de hamsters brancos para conquistar países, começando pelo Brasil.

A dificuldade no estabelecimento da verdade e as conjeturas incendiavam as mentes. O mistério em torno dos hamsters crescia como uma bola de neve e naturalmente buscavam-se estratégias para desvendá-lo.

Mas havia os que se negavam a cooperar. O Manuel, arredio afinal, era um deles. Com receio de perder o bom cliente, não se aventurava à mínima especulação junto ao nazista sobre o destino deles. E muitos tinham sido os apelos por ajuda. Defendia-se com a esfarrapada desculpa de que o velhinho e ele trocavam raras palavras. O homem, num português sofrível, que maltratava o clássico ouvido manuelino, mal expressava a quantidade de ratinhos que queria a cada visita; e isso, claro, após sucessivas tentativas mal sucedidas: deiza, quinça, vintuna, e por aí afora.

Mas como o desfecho de toda história tem a sua hora, a do nazista também chegou. Ninguém o vira viajar, no banco havia dias que não aparecia, no armazém não comprara alimentos nos últimos dias, no Manuel, aonde ia dia sim, dia não, já eram três dias de ausência. Inconformado, o português punha olhos acusadores sobre a clientela: espantaram-me o melhor freguês.

Mas ele não estava com a razão.

Numa manhã em que mais uma vez não abrira a porta para acompanhar o taciturno desfile dos empregados da fábrica de tecidos, a vizinha ao lado, incomodada com o mau cheiro exalado do bunker, acionou os bombeiros. Até eu corri para a massa de gente que rápido se aglomerou diante do sobrado. Antes de escapulir, pus todos em casa em polvorosa: os bombeiros vão arrombar a casa do nazista. Minha mãe gritou da cozinha: Meu Deus é a guerra! Mas eu já estava longe demais para ouvir o que dissera depois, talvez a proibição de ir até lá. Frustração geral. Os bombeiros impediram a aproximação de curiosos. O espanto cresceu quando chegou o rabecão, deu ré e posicionou a traseira colada à porta principal. Por ali retiraram o corpo do velhinho. Bombeiros e rabecão foram embora como chegaram: rápido e com absoluta discrição. Uma coisa era certa: o alemão morrera. E isso virou notícia no bairro.

A tarde reservava mais surpresas. Com a polícia, os repórteres invadiram o bunker em completo alvoroço. Flashs pipocaram na frente da casa, dentro, no quintal, nada escapou às lentes atentas dos fotógrafos. O que havia ali de tão especial a ponto de deixar a imprensa ávida? Havia mais de três décadas que a guerra acabara, os nazistas criminosos, quase sem exceção, haviam sido capturados e julgados, a maioria já estava inclusive morta. Não havia mais peixe graúdo escondido. Não, não havia sido descoberto um nazista importante em minha rua. Os repórteres também se foram menosprezando a ralé operária. Um mais atencioso cifrou resposta a minha súplica: leia amanhã a Tribuna.

No dia seguinte o nazista, de fato, era manchete principal em todos os jornais da cidade. O legista antecipara ataque cardíaco como a causa da morte. Fotos dele jovem com o uniforme da SS e velhinho como o conhecíamos na rua encimavam o seu nome alemão: Hans Grüber. Então despertei para o fato de a rua toda conhecê-lo só por nazista. Um estigma pessoal com que nunca se incomodara. Nem quando surpreendia um resto de conversa à sua aproximação: lá vem o nazista.

Fora guarda no campo de concentração de Treblinka. Mas não pesava sobre ele qualquer acusação de crime de guerra. A página interna, inteirinha, trazia com detalhes o motivo de tanto estardalhaço sobre o homem.

Grüber montara em casa, no grande quarto da frente do andar superior, o mesmo que tinha as luzes constantemente acesas e me chamavam atenção, uma réplica diminuta do campo de concentração de Treblinka. Havia até tabuleta com nome pintado. Em minudências, nada faltava: a locomotiva a pilha que percorria o quarto para deixar as vítimas no campo; os grandes alojamentos como galpões de fábrica; a câmara de gás que, cheia de vítimas, recebia dose letal de monóxido de carbono. Em estrutura paralela, o forno crematório. As anotações de Grüber em livro caixa repetiam a meticulosa organização nazista: nos últimos 10 anos sacrificara mais de cinco mil vítimas. As vítimas, algumas delas libertadas pelos bombeiros raquíticas pela privação de alimentos, pasmem, eram os inofensivos hamsters.


jjLeandro