quinta-feira, 14 de abril de 2011

O TROTE - parte III

— É aqui — disse Crisóstomo estacando de repente.
— Aqui? — eu e Udinei não contivemos a surpresa.
Ele ria, sabíamos que ele ria no breu da noite. A sua voz, quando saiu, denunciou-o. 
— Queriam o quê? Um palacete? Isso só lá no centro da cidade. E as mulheres que moram lá não são putas.
A casa era quase uma ruína. De costas para o rio, segurava-se milagrosamente no barranco.
Cedemos e entramos com ele. A sala da frente parecia no último grau de miséria. Tamboretes com couro rasgado eram a mobília. E sobre um deles a luz fraca da lamparina fazia pouco caso de iluminar cenário tão pobre. O soalho de madeira, estragado pelo tempo, rangia aos nossos passos. Imaginei logo o tamanho da queda barranco abaixo até o rio. Sobreviveria à queda? Ao menos que não seja antes de uma boa trepada, supliquei aos céus. Como bom cristão procuraria fazer a minha parte: busquei a impossível flutuação com passos suaves que mal tocassem o chão. O teto alto, invisível na penumbra, com certeza escondia telhas escuras e teias de aranha centenárias no madeiramento roliço. Já tivera fausto aquela casa, já fora morada de opulentos fazendeiros um século antes, cujos descendentes nas primeiras décadas do século XX tornaram-se os ricos comerciantes do rio, monopolistas da comunicação fluvial com Belém do Pará. Inquestionável que a riqueza é como as pessoas, migra de lugar e muitas vezes foge de quem a possui.
Sem qualquer aviso de nossa presença, de um corredor que levava aos demais cômodos da casa, apareceu uma mulher. Enquanto a pouca luz escondia suas feições, permitindo ver apenas a massa de sua silhueta, parecia apetecível. Ao chegar risonha e beijar Crisóstomo na boca, a luz da lamparina revelou sua feiúra.
— São eles? — perguntou agarrada em seu pescoço.
— Sim, não disse que os traria?
Incomodei-me ao ser despido pelos olhos dela. Senti-me uma besta em exposição. Cochichou algo ao ouvido de Crisóstomo, olharam para nós — plantados ao meio da sala —, riram e senti-me ainda mais ridículo.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, antecipando-se a Crisóstomo que sentara em um dos tamboretes com ela ao colo. — As meninas tão chegando já, já.
Sabia que o cochicho dela tinha sido sobre a nossa primeira vez com mulheres num cabaré. Senti-me desconfortável como se num passe de mágica alguém tivesse retirado a minha virilidade.
— E onde elas estão? — Udinei abandonou o mutismo.
— Nos fundos, arrumando-se. A noite hoje é especial — e deu uma sonora gargalhada.
Num piscar de olhos Crisóstomo sumiu de nossa frente, metendo-se com a mulher em um dos cômodos. Em seguida começaram os escandalosos gritos e gemidos da fulaninha. Olhei para Udinei em busca de socorro, ele — mais que depressa — jogou o comando das ações em meu colo. Decidi então não me esquivar à responsabilidade.
— Elas estão demorando — disse eu, tamborilando os dedos na coxa.
— E se forem tão feias quanto a do Crisóstomo? Valerão a pena?
— Não seja covarde, vai desistir?
Os gemidos da fulaninha do Crisóstomo eram verruma abrindo buracos em nossa coragem. Mas não capitulei.
— Bonita ou feia, vou pra cama.
— Também eu.





jjLeandro 


Casarão abandonado - Carolina - MA (Foto: jjLeandro)

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