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terça-feira, 12 de julho de 2011

DELFINS E SEREIAS


DELFINS E SEREIAS

Sou do mundo das águas.
Em Carolina,
Do útero ao túmulo elas
Transportam os homens.
E os transmutam ao contato
Mágico do Tocantins
Em seres que nascem humanos
E se tornam iguais a mim.
E que só se afogam
No leito nupcial das sereias,
Porque ao seu canto
Rendemo-nos todos,
Tão propriamente chamados delfins.


jjLeandro

Foto: Rio Tocantins - jjLeandro (2008)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MEU CONTO EM 'O BULE'

Meu conto MEU QUARTO DE HOTEL está na edição desta sexta-feira de O BULE (http://www.o-bule.com/)

Visitem.

domingo, 5 de junho de 2011

O ÉDEN URUGUAIO

A cidadezinha uruguaia perdida nos confins dos Pampas, embora insulada, orgulhava-se de ser exemplo mundial, apontada em todos os índices pesquisados por organizações internacionais como expoente cisplatino e americano de desenvolvimento humano.
Incensada, coube ao rotundo alcaide receber o mundo curioso com tal sucesso. Entre delegações e organismos internacionais que visitaram Edenburgo, ele agora explanava com o dedo gordo e liso numa lousa na sede do município, para uma delegação latinoamericana, por que sua pequena cidade justificava o nome, sendo a primeira em tudo: o maior PIB per capita, o maior IDH, a cidade mais habitável e verde das Américas. Com tantas aprovações, orgulhava-se até mesmo de exibir um único menos entre tantos mais: a menos corrupta das Américas.
Pois bem, quando falou-se do último item, a delegação latinoamericana passou a ouvir tudo com o habitual ceticismo — a maioria brasileira entre os delegados era a mais arredia —, desejando descobrir um senão que invalidasse o discurso do velho gordo que em seu paletó negro parecia um antigo general da independência cisplatina sufocado na armadura ao expor a seus comandados a tática de batalha.
E ele dizia num discurso político sincero que as pesquisas internacionais chancelavam: ‘somos a joia das Américas, senhores; nossa população estabilizou-se há décadas; dinheiro sobra nos cofres da cidade (houve uma inquietação na delegação, como se molestada por pó de mico; mas eram os delegados procurando a direção do cofre); nem mais hospitais e escolas construímos, só pintamos e modernizamos os já existentes, pois a demanda é a mesma há trinta anos. A nossa grande preocupação, senhores, é saber o que fazer com o ativo acumulado nos cofres municipais (novo frisson na sala). Estamos estudando dividi-lo igualmente entre a população, pois dinheiro precisa circular para gerar mais riqueza, assim entendem os papas da economia.’
O gordo alcaide empolgara-se diante de uma assistência que lhe invejava os recursos disponíveis e desprezava-lhe a honradez. Os delegados xeretavam disfarçadamente o tapete para ver se debaixo dele não havia lixo acumulado — nada; os cinzeiros de areia ao pé das poltronas para descobri-los transbordando de pitocos de cigarros — eram apenas alegoria; poeira nos móveis — impolutos; paredes com pintura descascando — ainda recendiam ao frescor da tinta. Poltronas e cadeiras desconjuntadas — eram fortes e vistosas. Desanimavam com o que viam para onde deslocassem as vistas. Imaginavam com um calafrio na espinha: a honradez e a transparência repugnam como cadáver decompondo. Sufocavam-se com a aura pacata que impregnava o ar, desejavam rapidamente encerrar a visitar e voltar quando ouviram um charivari vindo da rua. Ao ser humano qualquer coisa que insinua familiaridade produz imediatamente confiança e conforto. E assim se sentiram os delegados: transportados às facilidades da terra natal. Estavam assim enlevados quando irrompeu sala adentro, em completo transe, que muito deixou a delegação alegre porque quebrava a insossa fala do alcaide, um homem escandalizado, que pensaram buscar salvação de mãos assassinas. Era o secretário de obras públicas e desenvolvimento social de Edenburgo. Não fugia de um homicida, era de algo pior: vinha comunicar ao alcaide que na rua principal da cidade, a bem tratada e florida calle Independência, a população estuporava-se diante de uma desgraça: um buraco no asfalto!
O alcaide, explanando as excelências da pequena Edenburgo diante dos ilustres visitantes, foi ao outro mundo e voltou. Parecia agora um general vencido, a sudorese que lhe manchava o paletó era como marcas do gládio inimigo.  Só ele e o secretário tinham as faces congestionadas, imóveis pela gravidade da notícia; a delegação inteira abria um sorriso de contentamento maior que o sol estival. E os delegados precipitaram-se num tropel escada abaixo para a rua. O alcaide e o secretário secundaram-nos. Na rua a comoção popular era grande. Era justo avaliar: caíra ali no centro da rua um meteoro. Mas não, era algo ainda mais terrível para os padrões da dignidade  edenburgueana: um buraco no asfalto! Os homens e mulheres da delegação frustraram-se diante do que viram: um único, um único e minúsculo buraco no asfalto. Para mensurar com exatidão a polêmica: era meio arredondado e não tinha raio maior que dez centímetros.
Diante do buraco, o alcaide rápido recuperou o sangue-frio e o controle da situação. Com um discurso vibrante para munícipes que confiavam em seu comando, foi contundente: ‘amigos de Edenburgo, é chegada a hora de uma providência saneadora, vamos remover este velho asfalto e colocar um novo em seu lugar em toda a extensão da calle.’
Foi aplaudido demoradamente.
Após o discurso, um delegado brasileiro puxou-o pela manga do paletó para aconselhá-lo com os princípios de excelência da nossa administração pública:
— Alcaide, por que não faz como nós no Brasil? Lá somos mais rápidos e eficientes, com menos transtornos para a população.
O alcaide, sem nunca ter saído de Edenburgo, interessou-se:
— Mesmo? E como fazem?
— Operação Tapa-buraco na rua, na sua calle, e Arromba-cofre no tesouro municipal.
— ????
E ele escancarou-se porque pensava falar a um igual:
—Isso mesmo, alcaide. Tapamos o buraco, dizemos que asfaltamos a rua toda e compramos propriedades com o restante da verba desviada.
Diante do cenho franzido de indignação do alcaide, ele se defendeu:
— O senhor sabe, temos pouco tempo, são apenas quatro anos de mandato.


jjLeandro

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ORELHA DE BELÉM









Meu tio paterno caçula chegou de Belém. Meu pai recebeu-o como a um filho pródigo, os olhos verdes brilhantes revelavam o carinho que tinha pelo irmão mais moço deixado sob seus cuidados anos antes pelo meu avô Joãozinho numa viagem do agreste pernambucano a Carolina em visita ao mais velho dos filhos. Para os sobrinhos, recebíamos um herói. E tudo porque nos dias anteriores a sua chegada ouvíamos pelos cantos da casa fiapos de conversas segredadas entre meus pais, revelando lances cinematográficos da vida atribulada dele na capital paraense onde era radiotelegrafista de uma empresa aérea.
Os telegramas dando conta de sua volta mudaram o clima em casa. Meus pais tornaram-se pressurosos, embora nada dissessem aos filhos além da frase que lhes abria um sorriso forçado: ‘seu tio vai chegar’. A solicitação de maiores detalhes transformava ligeiro o difícil sorriso em careta apreensiva que antecipava a negativa: ‘Só isso basta’.
Especialmente para mim, pelos cochichos e pela tensão que meus pais tentavam disfarçar, o retorno dele não obedecia a plano algum pré-estabelecido. Inseria-se no rol das emergências. E por quê? Não era assunto que interessasse a crianças diziam-nos constantemente.
No dia em que chegou a casa amanheceu em polvorosa, minha mãe no comando das empregadas ultimava os preparativos do que parecia ser a recepção a um soldado que voltava são e salvo da guerra. A tensa expectativa dos últimos dias cedia lugar à felicidade incontida. Flores enfeitavam a casa desde a mesinha de centro na sala à grande e pesada mesa da cozinha. Os quartos foram arejados e fumigados com alfazema. Para mim, que seguia os passos de minha mãe e das empregadas no preparo da casa, iam receber o bispo.
Na hora de ir ao aeroporto do Ticoncá, pegamos um táxi na praça. O voo de Belém era para o final da manhã, mas a ansiedade foi aguilhão que nos tocou cedo para lá. E ninguém reclamou a espera de duas horas. Fiquei o tempo todo com um olho na pista e o outro nos velhos caças da FAB, sobreviventes da guerra mundial repassados pelos americanos ao Brasil após o conflito, que constantemente faziam escala na cidade em suas andanças de Belém ao Rio de Janeiro. Achava-os soberbos espetando o céu com o nariz petulante. As proezas da guerra autorizavam, sem deixar margem a questionamentos, a imponência que ainda exibiam os velhos aviões.
Por fim o barulho da aproximação do avião de Belém agitou o saguão do aeroporto e fez-me esquecer os velhos caças. O tio chegava. Minha mãe obrigou-nos a uma postura quase marcial para recepcioná-lo que chamava atenção das outras pessoas. Algumas queriam rir, outras admiravam nossa obediência. Ele passaria a tropa em revista. Eram cinco sobrinhos crescidinhos e outros dois de colo. Uma altiva guarda de honra esperava-o perfilada.
Ele desceu do avião e foi reconhecido ainda à distância na pista entre os outros passageiros. Meu pai apontou-o. A guarda de honra dissolveu-se em tumulto. Corremos a seu encontro desrespeitando as regras do militarismo familiar. Ele não teve braços para tantos abraços simultâneos. Rendeu-se imóvel preso entre os sobrinhos. Ávidas mãos procuravam seus dedos para segurar, disputando-os com alças de malas e sacolas. Fomos até meus pais como uma gigantesca e desajeitada aranha cujo corpo era meu tio e os sobrinhos as patas.
Em casa, a tietagem continuou e meu tio mantinha-nos permanentemente excitados a sua volta como um enxame de abelhas. A intervalos regulares, com gestos automáticos enquanto conversava com os adultos, retirava de um bolso lateral da calça, de um bolso traseiro, ou do bolso do blusão de aviador que ainda vestia sobre a camisa Volta ao Mundo de cor berrante, balas, pirulitos e chocolates. A nossa agitação quase tornava impossível a conversa familiar. Enquanto não vinha nova rodada de guloseimas, entretínhamo-nos com as outras novidades da capital. Um sobrinho puxava curioso a pulseira sanfonada de aço do relógio em seu pulso, outro brincava com o isqueiro de metal, imitando-o no ritual de abrir a tampa e correr o polegar sobre a pedra para acender o cigarro. Fechar o velho Zippo provocava um ‘clic’ da tampa que nos alegrava. Eu não parava de esgaravatar os seus bolsos a procura de mais balas e chocolates. Procurando no bolso interno do blusão de couro, saí em cima da razão de sua volta precipitada a Carolina: a foto de uma orelha decepada. Não era dele com certeza, pois as suas duas estavam certinhas em seus lugares.
Meus pais, óbvio, sabiam o que aquilo representava. Tomaram-na de minha mão e puseram-me de castigo. Os outros irmãos, livres de punição, foram mandados para a sala com as empregadas.

Só muito tempo depois eu conheci a história da foto.
Nas muitas andanças pelo centro comercial de Belém atrás de prostitutas, jovens como meu tio brigavam comumente. Aos vinte e dois anos ele se meteu numa briga com outros frequentadores de bordéis. No tumulto da briga, os colegas abandonaram-no à própria sorte cercado pelo grupo rival. Valer-se dos resistentes dentes que quebravam rapaduras no agreste pernambucano foi a maneira que encontrou de livrar-se de tremenda sova ou coisa pior. Resoluto, procurou a orelha mais próxima no bolo de cabeças que tinha sobre si, abocanhando-a por inteiro. A forte mordida tensionou os músculos do queixo a ponto de doerem. O gosto ferruginoso que lhe encheu a boca e o grito lancinante do oponente desfizeram o tumulto num instante. O rapaz perdera a orelha. Os colegas afastaram-se dele horrorizados. Após um segundo de hesitação, recolheram o ferido e abandonaram o ringue.
Meu tio correu desesperado. Perturbado, fugiu cerca de dois quilômetros por galerias pluviais e bueiros sem se dar conta de que a orelha continuava na boca. Ao parar estafado, a respiração ofegante, lembrou-se dela. Cuspiu-a na mão com grande nojo, mas como chegara até ali com ela, enrolou-a no lenço, guardando-a no bolso da jaqueta como um sinistro troféu. Tinha em casa uma Leica alemã, com ela fez uma chapa fotográfica da orelha. Depois jogou-a no vaso sanitário. Por medo de ser descoberto, só revelou a fotografia na véspera da viagem a Carolina.
Chegou com ela no meio dos pertences como souvenir. Ou como sinal de alerta a lembrá-lo dos lugares que poderia frequentar com isenção de riscos.
Foi assim entre pirulitos, balas e chocolates que encontrei a orelha de Belém. 


jjLeandro

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O DELÍRIO DAS CINCO DA TARDE

A morena misteriosa passava diante de mim, à frente da casa de minha avó, todos os dias. Inicialmente, tive dúvida se não ficava diante do relógio esperando as cinco da tarde para sair à rua. Nunca soube ao certo, mas passei a imaginar que era inteligente o suficiente para fugir do sol escaldante do início e meio da tarde em suas incursões exibicionistas na rua das mangueiras.
Ela invadiu minha vida, depois os meus sonhos. A tal ponto que alguns meses depois não sabia se a vira na rua ou sonhara; outras vezes sonhava jurando tê-la visto na rua. E como eram habituais os sonhos e as aparições reais, sentia uma sensação de atordoamento dominar-me quando sonhava com ela à noite e à tarde ela se apresentava na rua com a mesma roupa. Inúmeras vezes assim coincidiram realidade e sonho. Além disso, ficava a sensação de os dias sucederem atropeladamente aos pares ou então a confusa impressão de sonhar um sonho duas vezes na mesma noite.
Certo é que a morena me enlouquecia, eu entrava em parafuso a cada aparição sua. Como não dava vazão ao sentimento novo que experimentava — o amor, sim, eu me apaixonara platonicamente por ela —, vivia um verdadeiro inferno de práticas onanistas.
Lembro como foi duro, terrível mesmo, consumir-me na expectativa da aparição dela naquela quarta-feira de agosto. Desejava ardentemente uma vez mais a coincidência de realidade e sonho. De antemão um esclarecimento para melhor dimensionar o absurdo de meus propósitos: o neófito no amor, tampouco o adolescente apaixonado deveriam acreditar no que eu esperava acontecer, porque a experiência de vida aos dezessete anos é suficiente para assegurar que aquilo era delírio. Mas vamos lá, a soalheira dos trópicos às vezes deforma mentes sadias, quiça ela tivesse sido afetada. No fundo, acho que minhas magras esperanças se resumiam a isto.
Ao levantar na quarta-feira de uma noite estrebuchada entre sonhos lascivos, amarguei a humilhação de sentir o calção úmido, manchado. Agora mais essa! Já não tinha mais vontade própria, a morena era senhora de mim, sim, movimentava a seu bel-prazer meus cordões de marionete. A polução noturna era prova cabal do domínio que exercia sobre mim. Quase caí em desespero. Que ninguém levasse ao pé da letra as sandices que imaginei, verdadeiras explosões de raiva impotente que me doeram a cabeça: ‘amputem-me as mãos —  como aos ladrões nos países muçulmanos — já que não preciso mais delas’.
A ducha matinal recompôs-me a paz, ganhando função extra além de lavar-me do ranço dos suores noturnos.
No café da manhã fui espartano, a morena como se apresentara no sonho parecia desfilar sua beleza na borda da xícara, inibindo meu apetite. Deitava o corpão no guardanapo de mesa, lançava-me beijos sentada no pires de pernas cruzadas.
Ixe!, minha avó, também à mesa, comentou o óbvio:
— Levantou, mas continua dormindo.
Meu avô defendeu-me, intervalando as palavras com pigarros asmáticos:
— Deixa o menino, nessa idade a cabeça anda nas nuvens.
Passei a manhã esperando as cinco da tarde. Procurei entreter-me além do comum, para que o tempo viajasse de trem-bala.
Como estudava à noite, quando não havia prova obrigando-me a me debruçar sobre os livros na mesa da sala grande ao lado do caramanchão de buganvílias, corria de uma ponta a outra do balcão da loja de tecidos de meus avós. Ali sim o tempo espichava que nem os elásticos que vendia para as mulheres; um dia valia dois.
Driblei-os, pois, alegando prova à noite.
—Fica aí na sala — disse minha avó, levantando-me da mesa na companhia do marido.
Um suspiro de contentamento deu-me a certeza que conseguiria encurtar o tempo; as cinco da tarde chegariam velozes naquele dia.
Decide esperar a hora de forma melodiosa, que tal música?
Ainda não apresentei a morena anatomicamente, ficar repetindo ‘morena morena’ faz cada um, a seu talante, criar um ícone que traduz suas mais íntimas taras e perversões. Felizmente representado individualmente na mente de cada um, ufa! O que seria do mundo se todos saíssem por aí escrevendo como um verdadeiro Marques de Sade? Excogitei essa possibilidade, que todos se sujeitassem ao que também me escravizava. Bem, enquanto Sergio Endrigo me levava a crer que sua Roberta era a minha morena, desejei o déjà vu uma vez mais. Há sonhos que são desejos realizáveis; há sonhos que são deambulações extravagantes da mente, lícito dizer: delírios. A música incitava-me a acreditar no último tipo.
Mas a morena? Bela, sem dúvida. Nunca a descrevi senão a partir do ponto que mais me atraía: as coxas. Grossas, dois pilares roliços, tesos. A cintura de vespa realçava as ancas nervosas de adolescente. A barriga, tão exuberante quanto o resto do corpo, parecia ofuscada pelos seios que, petulantes, saltavam à frente. O cabelo negro, liso, aparado à altura das orelhas, deixava à mostra a nuca alabastrina. Boca, nariz e olhos, sedutoramente desenhados, tinham o poder paralisante de Medusa sobre quem a olhasse de frente.
O toc-toc da agulha do toca-discos arranhando o vinil ao fim da última faixa do LP me fez saber que o tempo voava. A música me lançara aos braços uma plêiade de mulheres de um excitante harém imaginário. Os eunucos que me trouxeram Teresa, Roberta, Manuela, Emmanuelle, Lara e Aline eram ninguém menos que Endrigo, Iglesias, Conniff e Christophe. Ah, seriam elas como a minha morena? Assim se passou a manhã e eu enfrentei o almoço sem tirar as cinco da tarde da cabeça.
A aproximação da hora do desfile da morena deixou-me ainda mais excitado e apreensivo. Ela se apresentaria como no sonho? Deixaria que a beleza radiante de seu corpo me cegasse a ponto de eu alcançar o orgasmo involuntário? Eram dúvidas que me consumiam.
Quinze minutos para as cinco da tarde o telefone tocou. Não era possível um estraga-prazeres na hora H. Corri, atendi. Fone no ouvido, olhos colados na veneziana da janela vigiando a rua por um retalho de fresta. Convite para sair à noite. Não queria papo, veríamos depois, tchau!
Novamente à porta, a esquina da praça — por onde ela apareceria — debaixo da minha mira. Viria, como tantas vezes, o sonho antecipar a realidade? Por um momento envaideci-me ao suspeitar ter poder sobre a subconsciência dela, manipulando suas decisões. Era a única maneira de justificar tanta coincidência. À lembrança, tentei contato uma vez mais. Ainda daria tempo de transformar meu delírio em realidade?
O sol escondeu-se atrás da massa escura das mangueiras da praça, lançando longas sombras no meio da rua. As mães já haviam chamado as crianças para o banho antes do jantar. Não havia mais qualquer delas na rua. As sombras das mangueiras no meio da rua formavam um tapete escuro para o seu desfile radiante.
Ela vem já! Ela vem já!, exultava consultando o relógio.
E ela veio.
Inacreditável!
As coincidências anteriores não passaram de meras coincidências. Ela não apareceu esplendidamente nua como no meu sonho.

jjLeandro

quinta-feira, 28 de abril de 2011

RASCUNHOS DE AUTORRETRATO - jjLeandro

Etapa 1 - Contorno

Etapa 2 - Cabelo, olhos, nariz e boca

Etapa 3 - Definição de contornos

Etapa 4 - Início sombreamento

Etapa 5 - Final  (Desenhos - jjLeandro)

sábado, 23 de abril de 2011

RIO TOCANTINS - PESQUISADORES, AVENTUREIROS E COMÉRCIO

Porto de Alcobaça - atual Tucuruí (PA) por volta de 1926 - Foto do livro "Viagem ao Tocantins", 2ª edição, 1983, Editora Grafisa, Belém - PA, autor desconhecido, página 63. O livro descreve a viagem do Dr. Deodoro Machado de Mendonça a Marabá, por ocasião da grande enchente do Tocantins em 1926. Quem sabe ele mesmo não o escreveu de forma anônima?
 Barracão de Dias & Cia Ltd., com pessoal carregando castanha - Marabá - PA . Idem, página 63.
 A bordo do general Jardim. General Jardim era um vapor que fazia linha até Alcobaça, atual Tucuruí (PA), pelo rio Tocantins - Do livro Viagem à Itaboca e ao Itacaiúna, Henri Coudreau, Ed. Itatiaia, SP, 1980, página 16. A viagem e as fotos são de 1897. Coudreau é o senhor na espreguiçadeira.
 Motor Pedrina, de propriedade de Alfredo Monção, o primeiro motor que subiu o alto Tocantins. Foto: Viagem ao Tocantins, página 57.
 Porto Nacional por volta de 1935. Foto do livro Viagem ao Tocantins, Júlio Paternostro, 1945, Companhia Editora Nacional, RJ, página222.
Porto Nacional por volta de 1935. Foto do livro Viagem ao Tocantins, Júlio Paternostro, 1945, Companhia Editora Nacional, RJ, página222. À direita, Igreja N. Sra. das Mercês.
Transporte de bagagem em Arrependido. Do livro Viagem à Itaboca e ao Itacaiúnas, Henri Coudreau, Ed. Itatiaia, SP, 1980, página 25. Arrependido fazia parte do complexo das cachoeiras do Itaboca. Para a navegação do local, fazia-se necessária a baldeação de passageiros e mercadorias no tráfego do rio Tocantins, próximo a Alcobaça, atual Tucuruí (PA).




jjLeandro

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O SYNDICATO CONDOR EM CAROLINA (Aviação)

 Imagem: http://ex-ogma.blogspot.com/2008/12/servio-aero-condor.html
No endereço acima, de um blog português, há registro da história do Syndicato Condor, pioneiro na aviação comercial no interior do Brasil. Após a metade da década de 1930, o Syndicato passou a fazer escala em Carolina.
Foto: Arquivo de Gilberto Santa Rosa. Esse avião aí, em pouso ou decolagem no rio Tocantins em Alcobaça (PA), agora Tucuruí, fazia escala em Carolina nos idos da década de 1930.

MEU PAI

José Leandro, meu pai, conhecido por Pajeú, de Carnaíba - PE







Difícil falar de meu pai como sempre achei difícil falar de anjos. Deixo claro que meu pai não era anjo, mas a sua candura habilitava-o a ser uma dessas entidades se elas existissem. Reside aí a minha dificuldade de descrevê-lo: como falar de alguém que a gente imagina perfeito quando a própria perfeição é uma medida da qual se desconfia por não sabê-la verdadeira.
Mas vamos lá, meu pai existia sim, aliás, foi muito presente na minha infância apesar da discrição com que conduzia os negócios e a família. O seu emblemático bigode negro estava ali ao meu lado constantemente. Usava este ícone nordestino — nunca abandonado, apenas viu esmaecer a cor até quase nevar na velhice —, creio, como uma forma de equilibrar candura e respeito.
Eu achava a paz de seus olhos verdes no rosto de nariz afilado, só ardentes com os filhos e mesmo assim com parcimônia, em permanente descompasso com o seu interior em ebulição. Não podia um homem daquele, de alma migratória, ser tão plácido no rosto e em ações com tantos passos atrás de si.
Pouco depois de abandonar sua casa no agreste pernambucano, a mãe desesperada pela viagem dele ao Piauí — e depois para Goiás — e de outros dois filhos a São Paulo cometeu suicídio. Enlouquecida, imaginava-os devorado por onça em Goiás e sendo roubados e mortos em São Paulo. Era demais para aguentar. Mas a tragédia familiar não abalou a inaudita paz de espírito dele. E não era insensível, a força e a rapidez com que se entregava a uma tarefa contrariavam qualquer prognóstico neste sentido. Desde solteiro sempre fora uma locomotiva no trabalho, costurando numa só noite em Floriano, durante sua passagem pelo Piauí, quatro centenas de sacos para colocar o sal que grandes atacadistas faziam chegar à cidade pelo rio Parnaíba. Ou então o paletó, também feito numa noite, para o chefe político tomar posse como prefeito. A máquina de costura não parava na alfaiataria com que ganhava dinheiro para custear as suas andanças na migração. Só ele não temia aceitar esses desafios. E quando alguém, preso a dificuldades de última hora o procurava, era com prazer que aceitava a tarefa quase impossível. Rápido o giz e a régua à mão constituíam-se afirmação eloquente. Em sua estada em Floriano corriqueiramente os alfaiates diziam quando uma proposta desafiadora surgia em seus ateliês: “só o Zé Leandro é capaz de resolver esse problema enquanto o diabo esfrega um olho”. E resolvia mesmo!
Foi assim, de déu em déu, que chegou em Carolina em cima de uma carga alta de caminhão, enfrentando chuva e os atoleiros de areia na estrada de Balsas. Roupas amarrotadas e sujas de lama não derrotaram sua obstinação. Desceu do carro e pôs bagagem e maquinário da alfaiataria a um canto da pequena pensão assobiando uma cantiga do sertão. Estabeleceu-se por lá numa das últimas etapas no roteiro para Goiás, e da noite para o dia, como nas outras cidades, saiu do anonimato com a realização de tarefas hercúleas. Mas em Carolina a coisa foi diferente. Sentiu sem opor resistência pela primeira vez a ameaça de embaraçar-se pelo caminho. É que enquanto costurava não tirava um olho do avanço da linha sobre o tecido e o outro da moça esbelta, queixo fino, doces e sonhadores olhos castanhos, o recato expresso em cada sorriso contido, que todo dia cedo, ainda com o cheiro da madrugada no ar, o surpreendia com a alfaiataria aberta no caminho para o colégio. Talvez imaginasse impressionada: ‘esse homem não dorme nunca’. Tão logo a filha do comerciante Félix Bringel passava, ele saltava da máquina, recompunha apressado o colete sobre a camisa de algodão,  corria à porta, dava passos desorientados na calçada, cofiava o bigode negro e implorava com os olhos grudados nas espáduas bem desenhadas da menina que ela girasse a cabeça para vê-lo. Parecendo ouvir suas súplicas, Tereza voltava levemente a cabeça e os olhos dos dois se encontravam. Era o suficiente para o coração dele galopar. Sentia-se sobre o cavalo correndo nas vaquejadas do sertão para derrubar o novilho na zona de pontuação sob a ovação pública. Ou então em doidos galopes na caatinga seca, driblando a morte em cada moita de imbuzeiro, quixabeira ou imburana.  Ansiado, tomava sôfregos goles do café frio do bule, pulava na máquina com disposição febril e pedalava até sentir câimbras na panturrilha. Os olhos ardiam da febre do amor e do serão a que se obrigava. Tereza seguia para o colégio das freiras, o olhar casto mirando o chão e sofrendo no íntimo a retaliação à ousadia do gesto. Com outras moças de família aprendia francês, a língua estrangeira dos amantes, completamente inútil para aplacar o íntimo tempestuoso do migrante pernambucano; lia a bíblia sob orientação das irmãs religiosas, mas a via prenhe de sofrimentos e estéril de sonhos românticos. Só a língua portuguesa lhe era receptiva e adivinhava nela a serventia para as cartas com juras de amor.
Com a mesma pressa com que cortava e costurava um tecido, José Leandro armou o bote para conquistar a filha do comerciante. Bastaram umas poucas trocas de olhares, um sorriso envergonhado dela, uns olhos dele que acariciavam e despiam com igual intensidade e pressa, para ele, ligeiro como o sedento se entrega à fonte no deserto, ir enfrentar o homem moreno e baixo, pai da moça. Típico mascate cigano ou judeu, rendido às necessidades de uma família numerosa e da asma que quase o tornou inválido, enfim abandonou as incômodas andanças pelo interior do Maranhão para ver de detrás do balcão os filhos multiplicarem a descendência. Enfrentar o major, como Félix Bringel era chamado na cidade, não foi obstáculo para quem vinha de uma terra onde os homens caminham entre balas durante o dia e orientam-se por seus rastros luminosos à noite.
A família e os vizinhos admiraram o topete do alfaiate recém-chegado indo à casa comercial de Félix Bringel falar namoro a uma de suas filhas. Não seria brincadeira de mau gosto ou uma aposta com colegas gaiatos?, quis saber o comerciante com cara azeda. Não, não e não!, protestou. Ele era homem sério, sem tempo para perda com piadas. Ademais tinha já trinta anos e nem antes nem agora se daria ao trabalho de perder tempo com gabolice. A alfaiataria regurgitava de serviço, nem rede tinha para dormir que o trabalho não deixava, até um ajudante contratara em poucos dias na cidade. Melhor gastar tempo com o ofício que lhe remunerava bem que sair dando uma de doido em casa de família.

Falou claro e convincente. Diante de tanta determinação o velho olhou à esposa, que deu de ombros passando-lhe procuração; olhou à filha aflita, os dedos apertados nos braços cruzados atrás do corpo, as vistas abaixadas à espera do veredito. No meio do salão comercial, José Leandro esperava. Como já botara o nervosismo para fora junto com o pedido, esperava pacientemente a resposta.
Cochichos entre os interessados e a decisão:
— Ela disse que quer, então vocês podem começar a se conhecer. Mas há uma condição — e Félix Bringel criou suspense enquanto expelia a tosse seca da asma. — Os encontros têm que ser aqui em casa, uma noite por semana.
O alfaiate saiu radiante, querendo abraçar as pessoas que via pela rua. Enfurnou-se na oficina por toda a noite, batendo pedal até o dia amanhecer.


jjLeandro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

VELHO CASARÃO - CAROLINA (MA)

 Dia
Noite  (Desenhos - jjLeandro)


Representação artística de casarão na ladeira para o rio Tocantins em Carolina, minha cidade.

jjLeandro

O TROTE - FIM

Carolina - O porto (Foto - jjLeandro)







O banho no rio foi o nosso grande erro. Mas Cristal não teve culpa no que aconteceu depois, nem Sheila, como eu e Udinei, em extremo desespero, chegamos a cogitar. Fomos os quatro nus, apenas uns molambos ao ombro — para enxugar-nos depois. Crisóstomo, a cara lerda acusando ardis que o álcool não nos permitia decifrar, recusou-se; preferia as águas mornas do sexo, foi a justificativa que deu. Quase no breu, valendo-nos da fraca luz de uma lamparina, descemos o barranco pela lateral da casa. A embriaguez aumentava os riscos de queda e também a algazarra na descida. Cristal explicou-me que entre os ribeirinhos era costume o banho a qualquer hora, para mitigar o calor, pois as casas não tinham água encanada. Nos cabarés, era uma maneira de aliviar o excesso de álcool e de assear o corpo. Por lá ficamos quase uma hora. Agarrado aos sarãs na água rasa do barranco, conservei a cabeça o tempo todo acima da superfície líquida para evitar a friagem. Para mim, conhecer os segredos de uma mulher era aventura bastante para um único dia. Arriscar com o rio seria abuso imperdoável. Ao contrário, Cristal, Udinei e Sheila mostravam grande intimidade com o rio: nadavam, mergulhavam, riam e faziam chacota de meu temor. No escuro, suas vozes pareciam ecos de fantasmas fanfarrões querendo-me assustar. Pouco via à volta além do círculo assinalado pela luz tímida da lamparina sobre uma pedra. Longe, na outra margem sobre o barranco, as luzes de Filadélfia eram um rosário de pequenas contas faiscantes que nos vigiavam.

Já passava da meia-noite quando voltamos revigorados do rio. Era hora de pagar as meninas, acertar as bebidas, pôr roupa e ir embora. Fui vestir-me no quarto onde me diverti com Cristal, mas meu uniforme não estava lá. Quando saía do quarto, Udinei quase trombou comigo, também excitado.
— O meu uniforme sumiu — disse.
— O meu também.
Cristal e Sheila reviraram os quartos, uma tarefa simples e rápida na mobília exígua: nada.
— E agora? — choramingou Udinei.
Antes de responder, olhei para as meninas encostadas à janela, visivelmente constrangidas.
— Foram vocês? Cadê nossos uniformes?
— A gente tava no rio com vocês, esqueceram?
Arrancamos Crisóstomo da cama. Tínhamos certeza que resolveria o enigma. Mas ele negou veementemente que soubesse algo, que tivesse ouvido qualquer barulho, que alguém tivesse invadido a casa enquanto nos divertíamos no rio. Entre aquela gente era comum as portas só serem fechadas na hora de dormir. Ainda se deliciou com o nosso aperto:
— Como puderam ser assim tão patetas? Perderam para os moleques da rua, bem merecido. Não há dúvida que eles entraram e levaram os uniformes.
Ele falava, falava e falava. Aos poucos aliou a autoridade que a maior experiência lhe conferia ao nosso desespero para dobrar-nos mais e mais. Por fim concordamos que fôramos idiotas.
— E como vamos sair dessa enrascada? Como vamos embora? — pedimos ajuda.
A fulaninha que fornicara com ele a noite toda também queria ver-nos fodidos, sabíamos, mas se mantinha com fingida seriedade diante de nossa aflição. Rindo o quanto podia — e só ele ria —, Crisóstomo apontou uma saída, desesperando-nos mais ainda:
— Arruma lá dois vestidos para eles.
— O que disse? Prefiro ir pelado pra casa. — reagi, recebendo o irrestrito apoio do Udinei, de pouca serventia.
Crisóstomo divertia-se:
— Pois que seja, há mesmo pouca gente na rua agora. Eu já estou indo.
Belo companheiro era ele. Dava impressão de querer mesmo ver-nos em apuros. Caminhou para a porta. Suplicamos das meninas qualquer peça rota. Uma calça imprestável de algum cliente que ousara uma noitada sem dinheiro e a deixara penhorada. Uma calça para cada um era o bastante. Mas não havia uma sequer. A salvação veio com Cristal. Revirando um velho baú de seu pai, encontrou surrados gongós da lida garimpeira. Quase não acreditei ao tê-los nas mãos. Ficaram rodando em nossas cinturas, mas estávamos novamente vestidos.
Não desejei sequer camisa, queria afastar-me dali o mais depressa possível.
Verdade que a emergência da volta estava resolvida. Mas como explicar em casa o sumiço do uniforme? Tive sorte de encontrar meus avós em sono solto. Na manhã seguinte, sábado, acreditaram de bom grado que a prova fora difícil e o professor estenderá o horário. Mas a aflição não me abandonou um segundo sequer até o final da tarde de domingo.
Depois de voltar da missa do final do dia, encontrei sobre a mesa grande da sala um pacote com meu nome.
— Vó, quem deixou? — perguntei intrigado.
— Um menino.
Abri o volume e meu coração saltou aos pulos: estava salvo — o meu uniforme! Havia um bilhete junto, de ninguém menos que o Crisóstomo: “gostou do trote? O Samuel e o Rocha Filho me ajudaram muito.”
O sacana valeu-se de dois outros colegas para pregar-nos a peça.



jjLeandro





segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TROTE - parte VI

                                                         Barcos em Carolina - MA (Foto jjLeandro)





Não foi uma história fácil para Cristal contar. Percebi que reacendia fogos mortos ou reavivava os que ardiam brandamente em seu íntimo. Uma narrativa cheia de lacunas, pausas e suspiros que demonstravam sofrimento conforme avançava e o desejo de que tudo acontecesse diferente se isso fosse possível. Sempre esperamos que uma história contada incansáveis vezes uma hora tome um atalho que nos livre dos momentos difíceis, das agruras, das perdas, levando-nos aonde deseja o coração. Era esse o ingênuo propósito de Cristal, uma criança num corpo castigado de mulher. Quando um interlocutor se dispunha a ouvi-la, tinha a história no ponto — prova de constante exercício, nem que fosse após o cliente embebedar-se o suficiente para ser impossível a recusa. Não era o meu caso, embora a bebida colaborasse para fazer crescerem os espaços em branco na sua história. Cristal fora homenagem da mãe ao quartzo que tornara possível o seu encontro com Raimundo. Recordo que me disse: meu pai era garimpeiro, dos muitos analfabetos que queimavam o dinheiro ganho com o cristal nos cabarés de Carolina. E também o duro juízo que fazia da própria mãe: não sei como pôde se apaixonar por ele e engravidar; coisa de puta besta.
Caminhou até a janela aberta, procurou, olhando para baixo, o caudal invisível do rio. E nele buscou e encontrou, com a propriedade de quem conhecia bem as inclinações e as distâncias por ali, as luzes de sinalização das cabines dos pentas*. Havia um atracado no cais distante — as luzes bruxuleando como lamparinas —, embarcou nele seus pensamentos e buscou a fuga no nevoeiro feérico do rio. Abraçando-a por trás, impedi que me deixasse. Sacudi-a com forte abraço restaurador e o esforço dela para se libertar de mim lançou em meu rosto o cheiro forte de nicotina e álcool que impregnava seu hálito.
Para apaziguá-la, murmurei:
— Engravidaria de mim?
Ela respirou fundo o ar que vinha do rio carregado da umidade noturna. Balançou a cabeça, para afastar vozes desconhecidas que a tentavam. Acho que estou ficando bêbada, disse enquanto passava as mãos no rosto e nos cabelos. Está não, objetei. Você ouviu bem o que eu disse: engravidaria de mim? Você acabou de dizer que sua mãe foi burra ao engravidar do garimpeiro.
— Mas com você é diferente, qualquer mulher desejaria engravidar de você.
— Uma ova que qualquer mulher desejaria engravidar de um moleque como eu. Você está sendo rigorosa demais com sua mãe, isso sim. Não vê que também toparia uma gravidez maluca como fez sua mãe? Mas não a culpe. Ela apenas curtiu o amor que lhe foi possível.
— Mas precisava ser com um homem que batia nela, que vivia bêbado, que vinha a Carolina gastar o que ganhou no garimpo e dormir com outras putas? E para mim, sua filha, nem carinho nem conforto?
— Eu já lhe disse: talvez não tenha sido o amor desejado por ela; mas foi o amor possível.
Ela estava surpresa, estava claro que sua agitação e a voz quase sem pausa acusavam o seu desconforto diante de minha interlocução e meus esclarecimentos. Bem possível que em todas as oportunidades de expressar-se ocorrera um monólogo com um bêbado prostrado. Não ouvia um sim ou um não, podia falar, falar e falar ininterruptamente. E quando a história chegava ao fim, se não chorasse, o ronco do cliente ocuparia o silêncio opressor. Foi para fugir de uma situação que a obrigaria a reflexões, que a poderia levar a atalhos não desejados mas reais, uma vez mais negando-lhe o tão almejado final feliz, que fez o convite com um sorriso forçado.
— Vamos banhar no rio?
— A essa hora?
— Muita gente faz isso aqui — disse com uma desconcertante travessura na voz.
— Vamos procurar o Udinei e a... a...
— ... A Sheila para irem com a gente — completou.

 * Como eram chamados metonimicamente os barcos a motor em Carolina. A marca do motor utilizada nos barcos era a Volvo Penta.


jjLeandro

sábado, 16 de abril de 2011

O TROTE - parte V

Castelo - Rio Tocantins (Foto - jjLeandro)





Continuação....

                                           O TROTE          V


Relaxei daí em diante. Senti-me o dono do mundo. Tinha cerveja à vontade, uma mulher nua na cama — a beleza não importava —, no momento não importava sequer o amor a quem descobria o prazer carnal. Pegando por empréstimo a rasa filosofia do Udinei — sorri por dentro ao imaginar como ele se virava com a outra —, julgava fechado o círculo com a parte que faltava para o domínio da arte de amar. Um pensamento narcisista resumiu o meu estado de satisfação: impossível que me segurassem doravante. A cerveja tornara-me mais audaz e Cristal mais concessiva. Mas bastou que ela novamente colocasse o seu primoroso empirismo em ação para eu ser obrigado a rever, com extrema brevidade, meus princípios filosóficos a quem a euforia tão apressadamente consagrara solidez. Seus variados dotes na cama provaram-me que o sexo tem uma encruzilhada no meio que nos leva a caminhos de diferentes prazeres.   
O corpo lasso na cama, o pensamento voando longe, foi ocasião oportuna para Cristal aconchegar-se a meu lado, também extenuada. Não sem antes me ter servido mais bebida e distribuir-me pelo corpo uma quantidade enorme de beijos. Seguiu-se uma pausa, mas antes que o silêncio se expandisse sobre nossos corpos saciados como mortalha, ela atreveu-se quebrá-lo com a história de sua vida. Como não pedi que parasse, por conta própria pausou. Parecia pausa adestrada por acontecimentos passados. Num suspiro, que era um desabafo, revelou que os clientes não toleravam sentimentalidades.
— E o que dizem? — perguntei entre goles de bebida.
— Mandam eu parar imediatamente. Há deles que até me batem.
Fiz uma careta, misto de espanto e riso pela quantidade de cerveja ingerida.
— Quer um cigarro? — ofereceu-me enquanto acendia um Charm para queimar ilusões.
Peguei um dos longos cigarros, acendi-o no que ela já fumava, e enquanto executava a tarefa senti seu hálito próximo de meu rosto numa intimidade que não existira ao transarmos. Exalava-o aos trancos, nervosamente. Pilhéria uma mulher cheia de tretas sobressaltar-se diante de um adolescente. Sem entender o torvelinho de sentimentos que a agitava, num gesto imponderado, afaguei seus cabelos compridos. O meu gesto arrancou-lhe outro suspiro, longo agora — marcando o relaxamento de todos os seus músculos. Seus olhos fecharam-se por uma fração de tempo, para mim um átimo, mas que para ela pode ter representado uma eternidade.

Imaginei seu sofrimento naquela vida. Imaginei o último carinho que recebera se a sua profissão permitisse isso. Naturalmente experimentava por ela uma aproximação empática. Vivíamos situações semelhantes de descoberta e de ausência. Apertei-a contra meu corpo, o corpo dela tremeu como se agitavam os das colegas de aula tocados no escuro da boate Itapuã. Deixou-se conduzir como eu bem entendesse. Dera-me a primeira noite de sexo, eu estaria dando-lhe a primeira noite de amor? Era essa expectativa que tornava o seu fôlego asmático e transia seu corpo com frêmitos da sezão? A súbita afeição por ela impediu-me de continuar tratando-a como uma puta. Esses questionamentos sumiam no escuro do quarto junto com a espiral da fumaça de meu cigarro. Escondia, como qualquer mulher, sonhos inconfessos? Sua condição era obstáculo a uma revelação? Quis descobri-los sondando seus olhos. A penumbra era sua aliada na recusa. Mas não foi preciso maturidade, nem clarão de luzes, as lágrimas que boiavam em seus olhos revelavam tudo. Percebendo que eu flagrara o seu choro silencioso, cujos vestígios ela — mais que depressa — fez desaparecerem na colcha suja da cama, desejou não aparentar carência, mas revelou-a inteira:
— Puta é sempre assim, tem todos os homens e não tem nenhum.
Lancei círculos de fumaça no ar sumidos na escuridão. Enquanto via desaparecerem, desviei o fio da conversa para que não rompesse em prantos. Quis saber o porquê do seu nome, curiosidade que me roía desde a hora em que nos apresentamos. Era a primeira Cristal que conhecia.
— Cristal?
— Sim.
—Foi escolha de minha mãe. Era a dona desse cabaré quando a febre dos garimpos dominava a região e os homens vinham buscar dinheiro no banco daqui. Foi o tempo em que ela mais sorriu e também mais chorou.
— E por quê?

jjLeandro


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O TROTE - parte IV

                                                        Casarão na Praça Cândido Mendes - Carolina - MA







As duas vieram determinadas para cima de nós. Udinei, um pouco adiante de mim na sala, mais próximo do início do corredor, foi logo abraçado pela puta da frente. Talvez tivesse ela os nossos mesmos dezessete anos. A que deu dois passos a mais e me beijou no rosto não tinha mais que vinte e cinco anos, mas passaria ali fácil, fácil, consoante a regra, por uma mulher de mais de trinta.

Sentaram-se descaradamente em nossos colos. A minha agitou a vasta cabeleira lisa, jogando a cabeça para trás, enquanto dizia:
— Cristal, e você?
— Júnior.
— É a primeira vez?
Que indiscrição, pensei. Por isso resolvi-me pela desfaçatez, pregando-lhe uma nada convincente mentira saída após pigarros e vacilos na voz:
— Aqui sim, a primeira vez.

Udinei, ao lado, era só quem falava. Na realidade cochichava no ouvido da sua puta, que escutava com atenção. Presumi estar sendo mais ovidiano que Ovídio na Arte de Amar, procurando castidade no amor libertino. Enlevada em seu colo, ela bebia as palavras que o baixinho dizia. Que poltrão, será que teria sucesso na cama? Tagarelar sem parar era estratégia para não permitir brecha a um convite para a ação. Ali não havia mulher para derrubar na lábia, não estávamos na boate Itapuã com as colegas de aula, conversa ali era pura perda de tempo. Para mudar drasticamente o rumo da arenga interminável, com risco de pedir namoro à donzela conventual, quase aos berros, propus: cerveja para todos! Udinei saiu do transe verborrágico com uma objeção fruto de seu medo de alterar o quadro: e aqui tem isso? Tinha sim, a noite fora bem planejada por Crisóstomo. Viveríamos ali o céu e o inferno numa noite só. Ah, velhaco! Cristal foi lá dentro, sumindo no corredor escuro para retornar pouco depois com copos e cerveja gelada. Inicialmente sorvi grandes goles, levando Cristal a suplicar que lhe desse mais atenção: calma, menino, lá dentro tem mais. Abortou com um beijo o sorriso que ameaçou aflorar em meus lábios quando virei o rosto para olhá-la. E ela decidiu trabalhar sem mais demora, pondo fim a minha lerdeza. Agarrou minha mão, arrastando-me para um dos quartos enquanto dizia baixinho com despudorado profissionalismo: com puta num carece pedir licença. Em boa hora ela desfizera o nó que me mantinha paralisado: não saber iniciar a ação. Em consequência, a excitação que já era grande deu um salto que quase extrapolou meu corpo. Eu flutuava, sim, flutuava; meus passos não mais repercutiam no soalho gasto e frágil. Perdera os cuidados com o precipício sob nossos pés. Andava sobre nuvens. Com o ânimo em polvorosa, desculpem-me os que me leem agora, não observei o novo ambiente, portanto não posso descrevê-lo. Só posso dizer que o quarto era uma extensão da miséria da sala. Perfeitamente claro, pois, que a miséria ali era metástase que não se contentava com um único cômodo da casa.

Em pouco tempo perderam-se na distância os gritos e gemidos da fulaninha do Crisóstomo. As conferências do Udinei não eram mais que algaravia varrida para os confins do cérebro pelo desejo que me agitava o sangue, tornando-se imediatamente, até a extinção, suave rumor incompreensível. Livre de interferências externas, corpo relaxado pelo toque de mãos habilidosas que jogaram no chão o uniforme do colégio e o roçar lascivo de outro corpo, consegui a sintonia de todos os sentidos para o sublime exercício da primeira vez. Em meus braços, o amor transpareceu cristalino; cristalizou-se livre dos véus que a angústia da espera só aumentava. Cessada a grande agitação na velha cama que nos deixou escorrendo suor pelas pernas e braços, Cristal, nua, levantou-se e finalmente abriu a janela. Uma súbita lufada de brisa fresca vinda do rio arrepiou meu corpo também em pelo. Acolhi com um sorriso de prazer a primeira sensação corporal após o inaugural orgasmo em comum. Representou um batismo. O batismo que me tornava homem. E foi com voz de homem, espreguiçando-me na cama, olhos fixos na noite benfazeja que invadia o quarto pela moldura da janela, um turbilhão de sensações na cabeça, que quis comemorar tudo aquilo com mais cerveja.  


jjLeandro



quinta-feira, 14 de abril de 2011

O TROTE - parte III

— É aqui — disse Crisóstomo estacando de repente.
— Aqui? — eu e Udinei não contivemos a surpresa.
Ele ria, sabíamos que ele ria no breu da noite. A sua voz, quando saiu, denunciou-o. 
— Queriam o quê? Um palacete? Isso só lá no centro da cidade. E as mulheres que moram lá não são putas.
A casa era quase uma ruína. De costas para o rio, segurava-se milagrosamente no barranco.
Cedemos e entramos com ele. A sala da frente parecia no último grau de miséria. Tamboretes com couro rasgado eram a mobília. E sobre um deles a luz fraca da lamparina fazia pouco caso de iluminar cenário tão pobre. O soalho de madeira, estragado pelo tempo, rangia aos nossos passos. Imaginei logo o tamanho da queda barranco abaixo até o rio. Sobreviveria à queda? Ao menos que não seja antes de uma boa trepada, supliquei aos céus. Como bom cristão procuraria fazer a minha parte: busquei a impossível flutuação com passos suaves que mal tocassem o chão. O teto alto, invisível na penumbra, com certeza escondia telhas escuras e teias de aranha centenárias no madeiramento roliço. Já tivera fausto aquela casa, já fora morada de opulentos fazendeiros um século antes, cujos descendentes nas primeiras décadas do século XX tornaram-se os ricos comerciantes do rio, monopolistas da comunicação fluvial com Belém do Pará. Inquestionável que a riqueza é como as pessoas, migra de lugar e muitas vezes foge de quem a possui.
Sem qualquer aviso de nossa presença, de um corredor que levava aos demais cômodos da casa, apareceu uma mulher. Enquanto a pouca luz escondia suas feições, permitindo ver apenas a massa de sua silhueta, parecia apetecível. Ao chegar risonha e beijar Crisóstomo na boca, a luz da lamparina revelou sua feiúra.
— São eles? — perguntou agarrada em seu pescoço.
— Sim, não disse que os traria?
Incomodei-me ao ser despido pelos olhos dela. Senti-me uma besta em exposição. Cochichou algo ao ouvido de Crisóstomo, olharam para nós — plantados ao meio da sala —, riram e senti-me ainda mais ridículo.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, antecipando-se a Crisóstomo que sentara em um dos tamboretes com ela ao colo. — As meninas tão chegando já, já.
Sabia que o cochicho dela tinha sido sobre a nossa primeira vez com mulheres num cabaré. Senti-me desconfortável como se num passe de mágica alguém tivesse retirado a minha virilidade.
— E onde elas estão? — Udinei abandonou o mutismo.
— Nos fundos, arrumando-se. A noite hoje é especial — e deu uma sonora gargalhada.
Num piscar de olhos Crisóstomo sumiu de nossa frente, metendo-se com a mulher em um dos cômodos. Em seguida começaram os escandalosos gritos e gemidos da fulaninha. Olhei para Udinei em busca de socorro, ele — mais que depressa — jogou o comando das ações em meu colo. Decidi então não me esquivar à responsabilidade.
— Elas estão demorando — disse eu, tamborilando os dedos na coxa.
— E se forem tão feias quanto a do Crisóstomo? Valerão a pena?
— Não seja covarde, vai desistir?
Os gemidos da fulaninha do Crisóstomo eram verruma abrindo buracos em nossa coragem. Mas não capitulei.
— Bonita ou feia, vou pra cama.
— Também eu.





jjLeandro 


Casarão abandonado - Carolina - MA (Foto: jjLeandro)