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quarta-feira, 20 de abril de 2011

O TROTE - FIM

Carolina - O porto (Foto - jjLeandro)







O banho no rio foi o nosso grande erro. Mas Cristal não teve culpa no que aconteceu depois, nem Sheila, como eu e Udinei, em extremo desespero, chegamos a cogitar. Fomos os quatro nus, apenas uns molambos ao ombro — para enxugar-nos depois. Crisóstomo, a cara lerda acusando ardis que o álcool não nos permitia decifrar, recusou-se; preferia as águas mornas do sexo, foi a justificativa que deu. Quase no breu, valendo-nos da fraca luz de uma lamparina, descemos o barranco pela lateral da casa. A embriaguez aumentava os riscos de queda e também a algazarra na descida. Cristal explicou-me que entre os ribeirinhos era costume o banho a qualquer hora, para mitigar o calor, pois as casas não tinham água encanada. Nos cabarés, era uma maneira de aliviar o excesso de álcool e de assear o corpo. Por lá ficamos quase uma hora. Agarrado aos sarãs na água rasa do barranco, conservei a cabeça o tempo todo acima da superfície líquida para evitar a friagem. Para mim, conhecer os segredos de uma mulher era aventura bastante para um único dia. Arriscar com o rio seria abuso imperdoável. Ao contrário, Cristal, Udinei e Sheila mostravam grande intimidade com o rio: nadavam, mergulhavam, riam e faziam chacota de meu temor. No escuro, suas vozes pareciam ecos de fantasmas fanfarrões querendo-me assustar. Pouco via à volta além do círculo assinalado pela luz tímida da lamparina sobre uma pedra. Longe, na outra margem sobre o barranco, as luzes de Filadélfia eram um rosário de pequenas contas faiscantes que nos vigiavam.

Já passava da meia-noite quando voltamos revigorados do rio. Era hora de pagar as meninas, acertar as bebidas, pôr roupa e ir embora. Fui vestir-me no quarto onde me diverti com Cristal, mas meu uniforme não estava lá. Quando saía do quarto, Udinei quase trombou comigo, também excitado.
— O meu uniforme sumiu — disse.
— O meu também.
Cristal e Sheila reviraram os quartos, uma tarefa simples e rápida na mobília exígua: nada.
— E agora? — choramingou Udinei.
Antes de responder, olhei para as meninas encostadas à janela, visivelmente constrangidas.
— Foram vocês? Cadê nossos uniformes?
— A gente tava no rio com vocês, esqueceram?
Arrancamos Crisóstomo da cama. Tínhamos certeza que resolveria o enigma. Mas ele negou veementemente que soubesse algo, que tivesse ouvido qualquer barulho, que alguém tivesse invadido a casa enquanto nos divertíamos no rio. Entre aquela gente era comum as portas só serem fechadas na hora de dormir. Ainda se deliciou com o nosso aperto:
— Como puderam ser assim tão patetas? Perderam para os moleques da rua, bem merecido. Não há dúvida que eles entraram e levaram os uniformes.
Ele falava, falava e falava. Aos poucos aliou a autoridade que a maior experiência lhe conferia ao nosso desespero para dobrar-nos mais e mais. Por fim concordamos que fôramos idiotas.
— E como vamos sair dessa enrascada? Como vamos embora? — pedimos ajuda.
A fulaninha que fornicara com ele a noite toda também queria ver-nos fodidos, sabíamos, mas se mantinha com fingida seriedade diante de nossa aflição. Rindo o quanto podia — e só ele ria —, Crisóstomo apontou uma saída, desesperando-nos mais ainda:
— Arruma lá dois vestidos para eles.
— O que disse? Prefiro ir pelado pra casa. — reagi, recebendo o irrestrito apoio do Udinei, de pouca serventia.
Crisóstomo divertia-se:
— Pois que seja, há mesmo pouca gente na rua agora. Eu já estou indo.
Belo companheiro era ele. Dava impressão de querer mesmo ver-nos em apuros. Caminhou para a porta. Suplicamos das meninas qualquer peça rota. Uma calça imprestável de algum cliente que ousara uma noitada sem dinheiro e a deixara penhorada. Uma calça para cada um era o bastante. Mas não havia uma sequer. A salvação veio com Cristal. Revirando um velho baú de seu pai, encontrou surrados gongós da lida garimpeira. Quase não acreditei ao tê-los nas mãos. Ficaram rodando em nossas cinturas, mas estávamos novamente vestidos.
Não desejei sequer camisa, queria afastar-me dali o mais depressa possível.
Verdade que a emergência da volta estava resolvida. Mas como explicar em casa o sumiço do uniforme? Tive sorte de encontrar meus avós em sono solto. Na manhã seguinte, sábado, acreditaram de bom grado que a prova fora difícil e o professor estenderá o horário. Mas a aflição não me abandonou um segundo sequer até o final da tarde de domingo.
Depois de voltar da missa do final do dia, encontrei sobre a mesa grande da sala um pacote com meu nome.
— Vó, quem deixou? — perguntei intrigado.
— Um menino.
Abri o volume e meu coração saltou aos pulos: estava salvo — o meu uniforme! Havia um bilhete junto, de ninguém menos que o Crisóstomo: “gostou do trote? O Samuel e o Rocha Filho me ajudaram muito.”
O sacana valeu-se de dois outros colegas para pregar-nos a peça.



jjLeandro





segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TROTE - parte VI

                                                         Barcos em Carolina - MA (Foto jjLeandro)





Não foi uma história fácil para Cristal contar. Percebi que reacendia fogos mortos ou reavivava os que ardiam brandamente em seu íntimo. Uma narrativa cheia de lacunas, pausas e suspiros que demonstravam sofrimento conforme avançava e o desejo de que tudo acontecesse diferente se isso fosse possível. Sempre esperamos que uma história contada incansáveis vezes uma hora tome um atalho que nos livre dos momentos difíceis, das agruras, das perdas, levando-nos aonde deseja o coração. Era esse o ingênuo propósito de Cristal, uma criança num corpo castigado de mulher. Quando um interlocutor se dispunha a ouvi-la, tinha a história no ponto — prova de constante exercício, nem que fosse após o cliente embebedar-se o suficiente para ser impossível a recusa. Não era o meu caso, embora a bebida colaborasse para fazer crescerem os espaços em branco na sua história. Cristal fora homenagem da mãe ao quartzo que tornara possível o seu encontro com Raimundo. Recordo que me disse: meu pai era garimpeiro, dos muitos analfabetos que queimavam o dinheiro ganho com o cristal nos cabarés de Carolina. E também o duro juízo que fazia da própria mãe: não sei como pôde se apaixonar por ele e engravidar; coisa de puta besta.
Caminhou até a janela aberta, procurou, olhando para baixo, o caudal invisível do rio. E nele buscou e encontrou, com a propriedade de quem conhecia bem as inclinações e as distâncias por ali, as luzes de sinalização das cabines dos pentas*. Havia um atracado no cais distante — as luzes bruxuleando como lamparinas —, embarcou nele seus pensamentos e buscou a fuga no nevoeiro feérico do rio. Abraçando-a por trás, impedi que me deixasse. Sacudi-a com forte abraço restaurador e o esforço dela para se libertar de mim lançou em meu rosto o cheiro forte de nicotina e álcool que impregnava seu hálito.
Para apaziguá-la, murmurei:
— Engravidaria de mim?
Ela respirou fundo o ar que vinha do rio carregado da umidade noturna. Balançou a cabeça, para afastar vozes desconhecidas que a tentavam. Acho que estou ficando bêbada, disse enquanto passava as mãos no rosto e nos cabelos. Está não, objetei. Você ouviu bem o que eu disse: engravidaria de mim? Você acabou de dizer que sua mãe foi burra ao engravidar do garimpeiro.
— Mas com você é diferente, qualquer mulher desejaria engravidar de você.
— Uma ova que qualquer mulher desejaria engravidar de um moleque como eu. Você está sendo rigorosa demais com sua mãe, isso sim. Não vê que também toparia uma gravidez maluca como fez sua mãe? Mas não a culpe. Ela apenas curtiu o amor que lhe foi possível.
— Mas precisava ser com um homem que batia nela, que vivia bêbado, que vinha a Carolina gastar o que ganhou no garimpo e dormir com outras putas? E para mim, sua filha, nem carinho nem conforto?
— Eu já lhe disse: talvez não tenha sido o amor desejado por ela; mas foi o amor possível.
Ela estava surpresa, estava claro que sua agitação e a voz quase sem pausa acusavam o seu desconforto diante de minha interlocução e meus esclarecimentos. Bem possível que em todas as oportunidades de expressar-se ocorrera um monólogo com um bêbado prostrado. Não ouvia um sim ou um não, podia falar, falar e falar ininterruptamente. E quando a história chegava ao fim, se não chorasse, o ronco do cliente ocuparia o silêncio opressor. Foi para fugir de uma situação que a obrigaria a reflexões, que a poderia levar a atalhos não desejados mas reais, uma vez mais negando-lhe o tão almejado final feliz, que fez o convite com um sorriso forçado.
— Vamos banhar no rio?
— A essa hora?
— Muita gente faz isso aqui — disse com uma desconcertante travessura na voz.
— Vamos procurar o Udinei e a... a...
— ... A Sheila para irem com a gente — completou.

 * Como eram chamados metonimicamente os barcos a motor em Carolina. A marca do motor utilizada nos barcos era a Volvo Penta.


jjLeandro

sábado, 16 de abril de 2011

O TROTE - parte V

Castelo - Rio Tocantins (Foto - jjLeandro)





Continuação....

                                           O TROTE          V


Relaxei daí em diante. Senti-me o dono do mundo. Tinha cerveja à vontade, uma mulher nua na cama — a beleza não importava —, no momento não importava sequer o amor a quem descobria o prazer carnal. Pegando por empréstimo a rasa filosofia do Udinei — sorri por dentro ao imaginar como ele se virava com a outra —, julgava fechado o círculo com a parte que faltava para o domínio da arte de amar. Um pensamento narcisista resumiu o meu estado de satisfação: impossível que me segurassem doravante. A cerveja tornara-me mais audaz e Cristal mais concessiva. Mas bastou que ela novamente colocasse o seu primoroso empirismo em ação para eu ser obrigado a rever, com extrema brevidade, meus princípios filosóficos a quem a euforia tão apressadamente consagrara solidez. Seus variados dotes na cama provaram-me que o sexo tem uma encruzilhada no meio que nos leva a caminhos de diferentes prazeres.   
O corpo lasso na cama, o pensamento voando longe, foi ocasião oportuna para Cristal aconchegar-se a meu lado, também extenuada. Não sem antes me ter servido mais bebida e distribuir-me pelo corpo uma quantidade enorme de beijos. Seguiu-se uma pausa, mas antes que o silêncio se expandisse sobre nossos corpos saciados como mortalha, ela atreveu-se quebrá-lo com a história de sua vida. Como não pedi que parasse, por conta própria pausou. Parecia pausa adestrada por acontecimentos passados. Num suspiro, que era um desabafo, revelou que os clientes não toleravam sentimentalidades.
— E o que dizem? — perguntei entre goles de bebida.
— Mandam eu parar imediatamente. Há deles que até me batem.
Fiz uma careta, misto de espanto e riso pela quantidade de cerveja ingerida.
— Quer um cigarro? — ofereceu-me enquanto acendia um Charm para queimar ilusões.
Peguei um dos longos cigarros, acendi-o no que ela já fumava, e enquanto executava a tarefa senti seu hálito próximo de meu rosto numa intimidade que não existira ao transarmos. Exalava-o aos trancos, nervosamente. Pilhéria uma mulher cheia de tretas sobressaltar-se diante de um adolescente. Sem entender o torvelinho de sentimentos que a agitava, num gesto imponderado, afaguei seus cabelos compridos. O meu gesto arrancou-lhe outro suspiro, longo agora — marcando o relaxamento de todos os seus músculos. Seus olhos fecharam-se por uma fração de tempo, para mim um átimo, mas que para ela pode ter representado uma eternidade.

Imaginei seu sofrimento naquela vida. Imaginei o último carinho que recebera se a sua profissão permitisse isso. Naturalmente experimentava por ela uma aproximação empática. Vivíamos situações semelhantes de descoberta e de ausência. Apertei-a contra meu corpo, o corpo dela tremeu como se agitavam os das colegas de aula tocados no escuro da boate Itapuã. Deixou-se conduzir como eu bem entendesse. Dera-me a primeira noite de sexo, eu estaria dando-lhe a primeira noite de amor? Era essa expectativa que tornava o seu fôlego asmático e transia seu corpo com frêmitos da sezão? A súbita afeição por ela impediu-me de continuar tratando-a como uma puta. Esses questionamentos sumiam no escuro do quarto junto com a espiral da fumaça de meu cigarro. Escondia, como qualquer mulher, sonhos inconfessos? Sua condição era obstáculo a uma revelação? Quis descobri-los sondando seus olhos. A penumbra era sua aliada na recusa. Mas não foi preciso maturidade, nem clarão de luzes, as lágrimas que boiavam em seus olhos revelavam tudo. Percebendo que eu flagrara o seu choro silencioso, cujos vestígios ela — mais que depressa — fez desaparecerem na colcha suja da cama, desejou não aparentar carência, mas revelou-a inteira:
— Puta é sempre assim, tem todos os homens e não tem nenhum.
Lancei círculos de fumaça no ar sumidos na escuridão. Enquanto via desaparecerem, desviei o fio da conversa para que não rompesse em prantos. Quis saber o porquê do seu nome, curiosidade que me roía desde a hora em que nos apresentamos. Era a primeira Cristal que conhecia.
— Cristal?
— Sim.
—Foi escolha de minha mãe. Era a dona desse cabaré quando a febre dos garimpos dominava a região e os homens vinham buscar dinheiro no banco daqui. Foi o tempo em que ela mais sorriu e também mais chorou.
— E por quê?

jjLeandro


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O TROTE - parte IV

                                                        Casarão na Praça Cândido Mendes - Carolina - MA







As duas vieram determinadas para cima de nós. Udinei, um pouco adiante de mim na sala, mais próximo do início do corredor, foi logo abraçado pela puta da frente. Talvez tivesse ela os nossos mesmos dezessete anos. A que deu dois passos a mais e me beijou no rosto não tinha mais que vinte e cinco anos, mas passaria ali fácil, fácil, consoante a regra, por uma mulher de mais de trinta.

Sentaram-se descaradamente em nossos colos. A minha agitou a vasta cabeleira lisa, jogando a cabeça para trás, enquanto dizia:
— Cristal, e você?
— Júnior.
— É a primeira vez?
Que indiscrição, pensei. Por isso resolvi-me pela desfaçatez, pregando-lhe uma nada convincente mentira saída após pigarros e vacilos na voz:
— Aqui sim, a primeira vez.

Udinei, ao lado, era só quem falava. Na realidade cochichava no ouvido da sua puta, que escutava com atenção. Presumi estar sendo mais ovidiano que Ovídio na Arte de Amar, procurando castidade no amor libertino. Enlevada em seu colo, ela bebia as palavras que o baixinho dizia. Que poltrão, será que teria sucesso na cama? Tagarelar sem parar era estratégia para não permitir brecha a um convite para a ação. Ali não havia mulher para derrubar na lábia, não estávamos na boate Itapuã com as colegas de aula, conversa ali era pura perda de tempo. Para mudar drasticamente o rumo da arenga interminável, com risco de pedir namoro à donzela conventual, quase aos berros, propus: cerveja para todos! Udinei saiu do transe verborrágico com uma objeção fruto de seu medo de alterar o quadro: e aqui tem isso? Tinha sim, a noite fora bem planejada por Crisóstomo. Viveríamos ali o céu e o inferno numa noite só. Ah, velhaco! Cristal foi lá dentro, sumindo no corredor escuro para retornar pouco depois com copos e cerveja gelada. Inicialmente sorvi grandes goles, levando Cristal a suplicar que lhe desse mais atenção: calma, menino, lá dentro tem mais. Abortou com um beijo o sorriso que ameaçou aflorar em meus lábios quando virei o rosto para olhá-la. E ela decidiu trabalhar sem mais demora, pondo fim a minha lerdeza. Agarrou minha mão, arrastando-me para um dos quartos enquanto dizia baixinho com despudorado profissionalismo: com puta num carece pedir licença. Em boa hora ela desfizera o nó que me mantinha paralisado: não saber iniciar a ação. Em consequência, a excitação que já era grande deu um salto que quase extrapolou meu corpo. Eu flutuava, sim, flutuava; meus passos não mais repercutiam no soalho gasto e frágil. Perdera os cuidados com o precipício sob nossos pés. Andava sobre nuvens. Com o ânimo em polvorosa, desculpem-me os que me leem agora, não observei o novo ambiente, portanto não posso descrevê-lo. Só posso dizer que o quarto era uma extensão da miséria da sala. Perfeitamente claro, pois, que a miséria ali era metástase que não se contentava com um único cômodo da casa.

Em pouco tempo perderam-se na distância os gritos e gemidos da fulaninha do Crisóstomo. As conferências do Udinei não eram mais que algaravia varrida para os confins do cérebro pelo desejo que me agitava o sangue, tornando-se imediatamente, até a extinção, suave rumor incompreensível. Livre de interferências externas, corpo relaxado pelo toque de mãos habilidosas que jogaram no chão o uniforme do colégio e o roçar lascivo de outro corpo, consegui a sintonia de todos os sentidos para o sublime exercício da primeira vez. Em meus braços, o amor transpareceu cristalino; cristalizou-se livre dos véus que a angústia da espera só aumentava. Cessada a grande agitação na velha cama que nos deixou escorrendo suor pelas pernas e braços, Cristal, nua, levantou-se e finalmente abriu a janela. Uma súbita lufada de brisa fresca vinda do rio arrepiou meu corpo também em pelo. Acolhi com um sorriso de prazer a primeira sensação corporal após o inaugural orgasmo em comum. Representou um batismo. O batismo que me tornava homem. E foi com voz de homem, espreguiçando-me na cama, olhos fixos na noite benfazeja que invadia o quarto pela moldura da janela, um turbilhão de sensações na cabeça, que quis comemorar tudo aquilo com mais cerveja.  


jjLeandro



quinta-feira, 14 de abril de 2011

O TROTE - parte III

— É aqui — disse Crisóstomo estacando de repente.
— Aqui? — eu e Udinei não contivemos a surpresa.
Ele ria, sabíamos que ele ria no breu da noite. A sua voz, quando saiu, denunciou-o. 
— Queriam o quê? Um palacete? Isso só lá no centro da cidade. E as mulheres que moram lá não são putas.
A casa era quase uma ruína. De costas para o rio, segurava-se milagrosamente no barranco.
Cedemos e entramos com ele. A sala da frente parecia no último grau de miséria. Tamboretes com couro rasgado eram a mobília. E sobre um deles a luz fraca da lamparina fazia pouco caso de iluminar cenário tão pobre. O soalho de madeira, estragado pelo tempo, rangia aos nossos passos. Imaginei logo o tamanho da queda barranco abaixo até o rio. Sobreviveria à queda? Ao menos que não seja antes de uma boa trepada, supliquei aos céus. Como bom cristão procuraria fazer a minha parte: busquei a impossível flutuação com passos suaves que mal tocassem o chão. O teto alto, invisível na penumbra, com certeza escondia telhas escuras e teias de aranha centenárias no madeiramento roliço. Já tivera fausto aquela casa, já fora morada de opulentos fazendeiros um século antes, cujos descendentes nas primeiras décadas do século XX tornaram-se os ricos comerciantes do rio, monopolistas da comunicação fluvial com Belém do Pará. Inquestionável que a riqueza é como as pessoas, migra de lugar e muitas vezes foge de quem a possui.
Sem qualquer aviso de nossa presença, de um corredor que levava aos demais cômodos da casa, apareceu uma mulher. Enquanto a pouca luz escondia suas feições, permitindo ver apenas a massa de sua silhueta, parecia apetecível. Ao chegar risonha e beijar Crisóstomo na boca, a luz da lamparina revelou sua feiúra.
— São eles? — perguntou agarrada em seu pescoço.
— Sim, não disse que os traria?
Incomodei-me ao ser despido pelos olhos dela. Senti-me uma besta em exposição. Cochichou algo ao ouvido de Crisóstomo, olharam para nós — plantados ao meio da sala —, riram e senti-me ainda mais ridículo.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, antecipando-se a Crisóstomo que sentara em um dos tamboretes com ela ao colo. — As meninas tão chegando já, já.
Sabia que o cochicho dela tinha sido sobre a nossa primeira vez com mulheres num cabaré. Senti-me desconfortável como se num passe de mágica alguém tivesse retirado a minha virilidade.
— E onde elas estão? — Udinei abandonou o mutismo.
— Nos fundos, arrumando-se. A noite hoje é especial — e deu uma sonora gargalhada.
Num piscar de olhos Crisóstomo sumiu de nossa frente, metendo-se com a mulher em um dos cômodos. Em seguida começaram os escandalosos gritos e gemidos da fulaninha. Olhei para Udinei em busca de socorro, ele — mais que depressa — jogou o comando das ações em meu colo. Decidi então não me esquivar à responsabilidade.
— Elas estão demorando — disse eu, tamborilando os dedos na coxa.
— E se forem tão feias quanto a do Crisóstomo? Valerão a pena?
— Não seja covarde, vai desistir?
Os gemidos da fulaninha do Crisóstomo eram verruma abrindo buracos em nossa coragem. Mas não capitulei.
— Bonita ou feia, vou pra cama.
— Também eu.





jjLeandro 


Casarão abandonado - Carolina - MA (Foto: jjLeandro)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O TROTE - parte II

A continuação...


II

À noite, descemos a ladeira do rio em vez de ir ao colégio. Não houve como evitar os uniformes; deixamos os livros em casa, alegando dia de prova. Crisóstomo, com rigores de professor que cobra entendimento dos alunos nas matérias, ia explicando o que deveríamos fazer no cabaré; a intervalos nos interrogava para ver o nível de assimilação das lições. O resultado de tanto sermão foi aumentar o nosso nervosismo. Porra, pensei, será que uma trepada é tão trabalhosa assim? Esconjuro! A sua última recomendação e os lances seguintes daquela noite por muito tempo zoaram-me na cabeça. Depois de escolado nos cabarés da cidade, ria daquela primeira peleja e da sua derradeira recomendação — na verdade uma piada, os fatos comprovariam — antes de pisar na soleira do puteiro: “Que o único vexame dado aqui seja elas verem que somos colegiais fugidos da escola”. 


Atravessamos a pequena ponte de madeira sem corrimão sobre a grota que escoava a cloaca da cidade no rio Tocantins. Uma quadra antes mergulhamos na escuridão das ruas miseráveis da beira-rio. O Tocantins, invisível, corria à direita, largo, cálido, pulsante como  corpo de mulher. Não o dominara ainda, não sabia nadar. Era cerimonioso com ele como tinha sido até o momento com as mulheres. Partia agora para conquistá-las, depois seria a vez dele. Mentalmente, sentindo no costado a volúpia de seu hálito úmido me atrair, que a noite fazia subir o barranco misturado à acidez dos peixes, conjeturei: primeiro as mulheres, me aguarde; depois domino você. Ouvi Crisóstomo me chamar na escuridão: “Ê, poeta, tá aí parado esperando o quê? Vais desistir agora?” 
Acelerei o passo, acompanhando os colegas que já subiam a rua depois da ponte. 
— Tá longe? — Udinei perguntou.
— Chegando — respondeu Crisóstomo.


Na rua sem iluminação, as pessoas que cruzavam conosco eram borrões escuros, silenciosos. Passavam como sombras, inexpressivas. Vez ou outra um grito escandaloso de uma puta vazava as paredes das velhas casas de taipa, chegando à rua. Instintivamente eu virava o rosto a procura de localizá-la e o meu olhar batia contra a parede da imensidão da noite. Mas ela era vazada por pontos alaranjados das lamparinas a querosene sobre janelas abertas — referência de onde a luxúria se abrigava. E por ali parecia um céu estrelado. Sorri nervoso e a friagem pegajosa da noite aproveitou a fragilidade do momento para tocar os meus ossos. Não conseguia imaginar tanta puta em Carolina — invisíveis à luz do dia nas ruas da cidade; ou seriam os meus olhos incapazes de joeirá-las de entre as outras mulheres? 





jjLeandro




Amanhã tem mais.....




A velha ponte - Carolina - MA (foto - jjLeandro)

terça-feira, 12 de abril de 2011

O TROTE - parte I

Vou postar a partir de hoje o conto O TROTE, em capítulos. Cada dia um capítulo. O conto está começado e o seu desenvolvimento acontecerá aqui, dia a dia.



                                         Carolina - MA (cidade sul maranhense) - foto: jjLeandro

I

Saí do banco radiante. Enfim chegara a ordem de pagamento da minha mesada. Podia agora realizar o sonho acalentado desde que estudava em Carolina: ir a um cabaré. Tudo já estava planejado com Crisóstomo e Udinei, faltava tão somente o dinheiro. Crisóstomo, que já conhecia as putas da beira do rio, fora lá umas duas vezes — confessara em excitantes papos sobre o assunto —, riu quando eu, num dos muitos encontros de planejamento, querendo antecipar a visita mesmo sem dinheiro, insisti:
— Você é conhecido por lá, elas não aceitam que a gente pague depois?
Após demorada risada, ele pulverizou meus resquícios de esperança:
— Mesmo que elas confiassem, achas que seria teu avalista? Tu comerias a puta e depois eu é que me foderia pagando.
— Pô, você é ou não é meu amigo?
—Tanto sou que te levarei lá junto com o Udinei. Mas devem aprender uma coisa: puta nenhuma trepa no crediário.
Sorri ao relembrar minha ingenuidade na conversa. Mas só sorri porque agora tinha dinheiro, aliás, dinheiro suficiente para várias idas à beira do rio. Do banco fui direito ao trabalho dele, o escritório da empresa aérea que voava do Rio de Janeiro para Belém, com escala em Carolina. Da porta, sob as árvores da rua, fiz sinal, chamando-o. Pediu com um gesto de mão, por trás do vidro do guichê, que esperasse um momento — estava ao telefone —, provavelmente falando com o aeroporto do Ticoncá. Eu não queria tratar do assunto lá dentro, duas mulheres trabalhavam com ele. E as duas conheciam minha avó com quem eu morava na cidade.
Desligou o aparelho, arrumou algo mais no guichê e saiu à rua.
— O que foi? — perguntou.
Entusiasmado, mostrei-lhe o tufo de dinheiro.
— Para as putas do rio.
—Estás louco, guarda isso! — e pôs a mão sobre a minha, forçando-a em direção a meu bolso. — Tens aí dinheiro suficiente para muitas idas ao cabaré. Chega-se lá com pouco dinheiro, umas notinhas amassadas no bolso, sovinas, caso contrário na volta se está mais pelado que frango que vai à panela.
Tranquilizou-se ao ver que eu guardava o dinheiro.
— E o Udinei, tá pronto? — quis saber.
Sacudi a cabeça afirmativamente.
— Ele vendeu a bicicleta para arranjar o dinheiro...
A gargalhada de Crisóstomo me interrompeu.
— Porra, são dois otários, isso que vocês são — e completou ao ver minha cara perplexa: — Bem feito, ele agora vai a pé toda noite para o colégio.
Eu procurei justificativa para o ato desesperado do amigo:
— Você diz isso porque já esteve por lá. Nós vamos pela primeira vez.
Comovido com minha virgindade, Crisóstomo mudou de assunto. Despachou-me para acertar tudo com Udinei na casa dele. Vai lá, reforçou. Se tudo estiver certo com ele, quero dizer, se ele estiver com dinheiro, é para hoje à noite.
Esfreguei as mãos de contentamento e saí como um foguete. Entrei na casa do baixinho metido a filósofo na disparada, com a mesma pressa de quem foge de um cão raivoso. Na grande sala da frente quase atropelei a velha mãe dele. Ela abandonou o bordado que fazia para seguir meu trajeto com cara de quem já perdera as esperanças de entender adolescentes que dançavam sem tocar nas garotas. Não havia dúvida que era a mesma cara de quando surpreendia e reprovava os nossos papos sobre as noitadas com as meninas na boate Itapuã. Amante de boleros e valsas, não entendia os movimentos lúbricos da dance music. Não lhe dei a importância das outras vezes em que por trás da minha atenção sempre existia o inconfessável objetivo de chegar aos seus cuscuzes com café. Deixa pra outra vez, há coisa melhor a fazer agora, e tentei vencer o delicioso gosto dos cuscuzes que o cérebro me cobrava a satisfação insistentemente com outro prazer que ainda só podia imaginar.
  Udinei estava no quarto estudando matemática.
— Baixinho, sabe pra que é isso? — disse eu da porta, agitando na mão um leque de notas de dinheiro.
Ele se levantou num estalo da cadeira, abandonando na mesa sob a janela alta, que recebia a claridade da rua, os livros e cadernos. Veio em minha direção com o dedo em riste. Deixa eu ver se adivinho, disse antes de me dar um abraço de contentamento quando confirmei:
— Para as putas do rio.
Ele socou o ar com o punho e deu um grande grito: Hip hurra!
Sua mãe chegou correndo no quarto a fim de saber o motivo da gritaria. Nada, mãe, disse, pondo-a para fora do quarto e fechando a porta.


jjLeandro