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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

GRADAÇÕES DO SOL NASCENTE

O Sol ainda não nasceu. Borra o horizonte com as cores lilás e rosa. (Foto- jjLeandro)

O Sol já se insinua na linha do horizonte. As cores agora são amarelo e laranja. (Foto - jjLeandro)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MEU CONTO EM 'O BULE'

Meu conto MEU QUARTO DE HOTEL está na edição desta sexta-feira de O BULE (http://www.o-bule.com/)

Visitem.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ORELHA DE BELÉM









Meu tio paterno caçula chegou de Belém. Meu pai recebeu-o como a um filho pródigo, os olhos verdes brilhantes revelavam o carinho que tinha pelo irmão mais moço deixado sob seus cuidados anos antes pelo meu avô Joãozinho numa viagem do agreste pernambucano a Carolina em visita ao mais velho dos filhos. Para os sobrinhos, recebíamos um herói. E tudo porque nos dias anteriores a sua chegada ouvíamos pelos cantos da casa fiapos de conversas segredadas entre meus pais, revelando lances cinematográficos da vida atribulada dele na capital paraense onde era radiotelegrafista de uma empresa aérea.
Os telegramas dando conta de sua volta mudaram o clima em casa. Meus pais tornaram-se pressurosos, embora nada dissessem aos filhos além da frase que lhes abria um sorriso forçado: ‘seu tio vai chegar’. A solicitação de maiores detalhes transformava ligeiro o difícil sorriso em careta apreensiva que antecipava a negativa: ‘Só isso basta’.
Especialmente para mim, pelos cochichos e pela tensão que meus pais tentavam disfarçar, o retorno dele não obedecia a plano algum pré-estabelecido. Inseria-se no rol das emergências. E por quê? Não era assunto que interessasse a crianças diziam-nos constantemente.
No dia em que chegou a casa amanheceu em polvorosa, minha mãe no comando das empregadas ultimava os preparativos do que parecia ser a recepção a um soldado que voltava são e salvo da guerra. A tensa expectativa dos últimos dias cedia lugar à felicidade incontida. Flores enfeitavam a casa desde a mesinha de centro na sala à grande e pesada mesa da cozinha. Os quartos foram arejados e fumigados com alfazema. Para mim, que seguia os passos de minha mãe e das empregadas no preparo da casa, iam receber o bispo.
Na hora de ir ao aeroporto do Ticoncá, pegamos um táxi na praça. O voo de Belém era para o final da manhã, mas a ansiedade foi aguilhão que nos tocou cedo para lá. E ninguém reclamou a espera de duas horas. Fiquei o tempo todo com um olho na pista e o outro nos velhos caças da FAB, sobreviventes da guerra mundial repassados pelos americanos ao Brasil após o conflito, que constantemente faziam escala na cidade em suas andanças de Belém ao Rio de Janeiro. Achava-os soberbos espetando o céu com o nariz petulante. As proezas da guerra autorizavam, sem deixar margem a questionamentos, a imponência que ainda exibiam os velhos aviões.
Por fim o barulho da aproximação do avião de Belém agitou o saguão do aeroporto e fez-me esquecer os velhos caças. O tio chegava. Minha mãe obrigou-nos a uma postura quase marcial para recepcioná-lo que chamava atenção das outras pessoas. Algumas queriam rir, outras admiravam nossa obediência. Ele passaria a tropa em revista. Eram cinco sobrinhos crescidinhos e outros dois de colo. Uma altiva guarda de honra esperava-o perfilada.
Ele desceu do avião e foi reconhecido ainda à distância na pista entre os outros passageiros. Meu pai apontou-o. A guarda de honra dissolveu-se em tumulto. Corremos a seu encontro desrespeitando as regras do militarismo familiar. Ele não teve braços para tantos abraços simultâneos. Rendeu-se imóvel preso entre os sobrinhos. Ávidas mãos procuravam seus dedos para segurar, disputando-os com alças de malas e sacolas. Fomos até meus pais como uma gigantesca e desajeitada aranha cujo corpo era meu tio e os sobrinhos as patas.
Em casa, a tietagem continuou e meu tio mantinha-nos permanentemente excitados a sua volta como um enxame de abelhas. A intervalos regulares, com gestos automáticos enquanto conversava com os adultos, retirava de um bolso lateral da calça, de um bolso traseiro, ou do bolso do blusão de aviador que ainda vestia sobre a camisa Volta ao Mundo de cor berrante, balas, pirulitos e chocolates. A nossa agitação quase tornava impossível a conversa familiar. Enquanto não vinha nova rodada de guloseimas, entretínhamo-nos com as outras novidades da capital. Um sobrinho puxava curioso a pulseira sanfonada de aço do relógio em seu pulso, outro brincava com o isqueiro de metal, imitando-o no ritual de abrir a tampa e correr o polegar sobre a pedra para acender o cigarro. Fechar o velho Zippo provocava um ‘clic’ da tampa que nos alegrava. Eu não parava de esgaravatar os seus bolsos a procura de mais balas e chocolates. Procurando no bolso interno do blusão de couro, saí em cima da razão de sua volta precipitada a Carolina: a foto de uma orelha decepada. Não era dele com certeza, pois as suas duas estavam certinhas em seus lugares.
Meus pais, óbvio, sabiam o que aquilo representava. Tomaram-na de minha mão e puseram-me de castigo. Os outros irmãos, livres de punição, foram mandados para a sala com as empregadas.

Só muito tempo depois eu conheci a história da foto.
Nas muitas andanças pelo centro comercial de Belém atrás de prostitutas, jovens como meu tio brigavam comumente. Aos vinte e dois anos ele se meteu numa briga com outros frequentadores de bordéis. No tumulto da briga, os colegas abandonaram-no à própria sorte cercado pelo grupo rival. Valer-se dos resistentes dentes que quebravam rapaduras no agreste pernambucano foi a maneira que encontrou de livrar-se de tremenda sova ou coisa pior. Resoluto, procurou a orelha mais próxima no bolo de cabeças que tinha sobre si, abocanhando-a por inteiro. A forte mordida tensionou os músculos do queixo a ponto de doerem. O gosto ferruginoso que lhe encheu a boca e o grito lancinante do oponente desfizeram o tumulto num instante. O rapaz perdera a orelha. Os colegas afastaram-se dele horrorizados. Após um segundo de hesitação, recolheram o ferido e abandonaram o ringue.
Meu tio correu desesperado. Perturbado, fugiu cerca de dois quilômetros por galerias pluviais e bueiros sem se dar conta de que a orelha continuava na boca. Ao parar estafado, a respiração ofegante, lembrou-se dela. Cuspiu-a na mão com grande nojo, mas como chegara até ali com ela, enrolou-a no lenço, guardando-a no bolso da jaqueta como um sinistro troféu. Tinha em casa uma Leica alemã, com ela fez uma chapa fotográfica da orelha. Depois jogou-a no vaso sanitário. Por medo de ser descoberto, só revelou a fotografia na véspera da viagem a Carolina.
Chegou com ela no meio dos pertences como souvenir. Ou como sinal de alerta a lembrá-lo dos lugares que poderia frequentar com isenção de riscos.
Foi assim entre pirulitos, balas e chocolates que encontrei a orelha de Belém. 


jjLeandro

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O DELÍRIO DAS CINCO DA TARDE

A morena misteriosa passava diante de mim, à frente da casa de minha avó, todos os dias. Inicialmente, tive dúvida se não ficava diante do relógio esperando as cinco da tarde para sair à rua. Nunca soube ao certo, mas passei a imaginar que era inteligente o suficiente para fugir do sol escaldante do início e meio da tarde em suas incursões exibicionistas na rua das mangueiras.
Ela invadiu minha vida, depois os meus sonhos. A tal ponto que alguns meses depois não sabia se a vira na rua ou sonhara; outras vezes sonhava jurando tê-la visto na rua. E como eram habituais os sonhos e as aparições reais, sentia uma sensação de atordoamento dominar-me quando sonhava com ela à noite e à tarde ela se apresentava na rua com a mesma roupa. Inúmeras vezes assim coincidiram realidade e sonho. Além disso, ficava a sensação de os dias sucederem atropeladamente aos pares ou então a confusa impressão de sonhar um sonho duas vezes na mesma noite.
Certo é que a morena me enlouquecia, eu entrava em parafuso a cada aparição sua. Como não dava vazão ao sentimento novo que experimentava — o amor, sim, eu me apaixonara platonicamente por ela —, vivia um verdadeiro inferno de práticas onanistas.
Lembro como foi duro, terrível mesmo, consumir-me na expectativa da aparição dela naquela quarta-feira de agosto. Desejava ardentemente uma vez mais a coincidência de realidade e sonho. De antemão um esclarecimento para melhor dimensionar o absurdo de meus propósitos: o neófito no amor, tampouco o adolescente apaixonado deveriam acreditar no que eu esperava acontecer, porque a experiência de vida aos dezessete anos é suficiente para assegurar que aquilo era delírio. Mas vamos lá, a soalheira dos trópicos às vezes deforma mentes sadias, quiça ela tivesse sido afetada. No fundo, acho que minhas magras esperanças se resumiam a isto.
Ao levantar na quarta-feira de uma noite estrebuchada entre sonhos lascivos, amarguei a humilhação de sentir o calção úmido, manchado. Agora mais essa! Já não tinha mais vontade própria, a morena era senhora de mim, sim, movimentava a seu bel-prazer meus cordões de marionete. A polução noturna era prova cabal do domínio que exercia sobre mim. Quase caí em desespero. Que ninguém levasse ao pé da letra as sandices que imaginei, verdadeiras explosões de raiva impotente que me doeram a cabeça: ‘amputem-me as mãos —  como aos ladrões nos países muçulmanos — já que não preciso mais delas’.
A ducha matinal recompôs-me a paz, ganhando função extra além de lavar-me do ranço dos suores noturnos.
No café da manhã fui espartano, a morena como se apresentara no sonho parecia desfilar sua beleza na borda da xícara, inibindo meu apetite. Deitava o corpão no guardanapo de mesa, lançava-me beijos sentada no pires de pernas cruzadas.
Ixe!, minha avó, também à mesa, comentou o óbvio:
— Levantou, mas continua dormindo.
Meu avô defendeu-me, intervalando as palavras com pigarros asmáticos:
— Deixa o menino, nessa idade a cabeça anda nas nuvens.
Passei a manhã esperando as cinco da tarde. Procurei entreter-me além do comum, para que o tempo viajasse de trem-bala.
Como estudava à noite, quando não havia prova obrigando-me a me debruçar sobre os livros na mesa da sala grande ao lado do caramanchão de buganvílias, corria de uma ponta a outra do balcão da loja de tecidos de meus avós. Ali sim o tempo espichava que nem os elásticos que vendia para as mulheres; um dia valia dois.
Driblei-os, pois, alegando prova à noite.
—Fica aí na sala — disse minha avó, levantando-me da mesa na companhia do marido.
Um suspiro de contentamento deu-me a certeza que conseguiria encurtar o tempo; as cinco da tarde chegariam velozes naquele dia.
Decide esperar a hora de forma melodiosa, que tal música?
Ainda não apresentei a morena anatomicamente, ficar repetindo ‘morena morena’ faz cada um, a seu talante, criar um ícone que traduz suas mais íntimas taras e perversões. Felizmente representado individualmente na mente de cada um, ufa! O que seria do mundo se todos saíssem por aí escrevendo como um verdadeiro Marques de Sade? Excogitei essa possibilidade, que todos se sujeitassem ao que também me escravizava. Bem, enquanto Sergio Endrigo me levava a crer que sua Roberta era a minha morena, desejei o déjà vu uma vez mais. Há sonhos que são desejos realizáveis; há sonhos que são deambulações extravagantes da mente, lícito dizer: delírios. A música incitava-me a acreditar no último tipo.
Mas a morena? Bela, sem dúvida. Nunca a descrevi senão a partir do ponto que mais me atraía: as coxas. Grossas, dois pilares roliços, tesos. A cintura de vespa realçava as ancas nervosas de adolescente. A barriga, tão exuberante quanto o resto do corpo, parecia ofuscada pelos seios que, petulantes, saltavam à frente. O cabelo negro, liso, aparado à altura das orelhas, deixava à mostra a nuca alabastrina. Boca, nariz e olhos, sedutoramente desenhados, tinham o poder paralisante de Medusa sobre quem a olhasse de frente.
O toc-toc da agulha do toca-discos arranhando o vinil ao fim da última faixa do LP me fez saber que o tempo voava. A música me lançara aos braços uma plêiade de mulheres de um excitante harém imaginário. Os eunucos que me trouxeram Teresa, Roberta, Manuela, Emmanuelle, Lara e Aline eram ninguém menos que Endrigo, Iglesias, Conniff e Christophe. Ah, seriam elas como a minha morena? Assim se passou a manhã e eu enfrentei o almoço sem tirar as cinco da tarde da cabeça.
A aproximação da hora do desfile da morena deixou-me ainda mais excitado e apreensivo. Ela se apresentaria como no sonho? Deixaria que a beleza radiante de seu corpo me cegasse a ponto de eu alcançar o orgasmo involuntário? Eram dúvidas que me consumiam.
Quinze minutos para as cinco da tarde o telefone tocou. Não era possível um estraga-prazeres na hora H. Corri, atendi. Fone no ouvido, olhos colados na veneziana da janela vigiando a rua por um retalho de fresta. Convite para sair à noite. Não queria papo, veríamos depois, tchau!
Novamente à porta, a esquina da praça — por onde ela apareceria — debaixo da minha mira. Viria, como tantas vezes, o sonho antecipar a realidade? Por um momento envaideci-me ao suspeitar ter poder sobre a subconsciência dela, manipulando suas decisões. Era a única maneira de justificar tanta coincidência. À lembrança, tentei contato uma vez mais. Ainda daria tempo de transformar meu delírio em realidade?
O sol escondeu-se atrás da massa escura das mangueiras da praça, lançando longas sombras no meio da rua. As mães já haviam chamado as crianças para o banho antes do jantar. Não havia mais qualquer delas na rua. As sombras das mangueiras no meio da rua formavam um tapete escuro para o seu desfile radiante.
Ela vem já! Ela vem já!, exultava consultando o relógio.
E ela veio.
Inacreditável!
As coincidências anteriores não passaram de meras coincidências. Ela não apareceu esplendidamente nua como no meu sonho.

jjLeandro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O TROTE - FIM

Carolina - O porto (Foto - jjLeandro)







O banho no rio foi o nosso grande erro. Mas Cristal não teve culpa no que aconteceu depois, nem Sheila, como eu e Udinei, em extremo desespero, chegamos a cogitar. Fomos os quatro nus, apenas uns molambos ao ombro — para enxugar-nos depois. Crisóstomo, a cara lerda acusando ardis que o álcool não nos permitia decifrar, recusou-se; preferia as águas mornas do sexo, foi a justificativa que deu. Quase no breu, valendo-nos da fraca luz de uma lamparina, descemos o barranco pela lateral da casa. A embriaguez aumentava os riscos de queda e também a algazarra na descida. Cristal explicou-me que entre os ribeirinhos era costume o banho a qualquer hora, para mitigar o calor, pois as casas não tinham água encanada. Nos cabarés, era uma maneira de aliviar o excesso de álcool e de assear o corpo. Por lá ficamos quase uma hora. Agarrado aos sarãs na água rasa do barranco, conservei a cabeça o tempo todo acima da superfície líquida para evitar a friagem. Para mim, conhecer os segredos de uma mulher era aventura bastante para um único dia. Arriscar com o rio seria abuso imperdoável. Ao contrário, Cristal, Udinei e Sheila mostravam grande intimidade com o rio: nadavam, mergulhavam, riam e faziam chacota de meu temor. No escuro, suas vozes pareciam ecos de fantasmas fanfarrões querendo-me assustar. Pouco via à volta além do círculo assinalado pela luz tímida da lamparina sobre uma pedra. Longe, na outra margem sobre o barranco, as luzes de Filadélfia eram um rosário de pequenas contas faiscantes que nos vigiavam.

Já passava da meia-noite quando voltamos revigorados do rio. Era hora de pagar as meninas, acertar as bebidas, pôr roupa e ir embora. Fui vestir-me no quarto onde me diverti com Cristal, mas meu uniforme não estava lá. Quando saía do quarto, Udinei quase trombou comigo, também excitado.
— O meu uniforme sumiu — disse.
— O meu também.
Cristal e Sheila reviraram os quartos, uma tarefa simples e rápida na mobília exígua: nada.
— E agora? — choramingou Udinei.
Antes de responder, olhei para as meninas encostadas à janela, visivelmente constrangidas.
— Foram vocês? Cadê nossos uniformes?
— A gente tava no rio com vocês, esqueceram?
Arrancamos Crisóstomo da cama. Tínhamos certeza que resolveria o enigma. Mas ele negou veementemente que soubesse algo, que tivesse ouvido qualquer barulho, que alguém tivesse invadido a casa enquanto nos divertíamos no rio. Entre aquela gente era comum as portas só serem fechadas na hora de dormir. Ainda se deliciou com o nosso aperto:
— Como puderam ser assim tão patetas? Perderam para os moleques da rua, bem merecido. Não há dúvida que eles entraram e levaram os uniformes.
Ele falava, falava e falava. Aos poucos aliou a autoridade que a maior experiência lhe conferia ao nosso desespero para dobrar-nos mais e mais. Por fim concordamos que fôramos idiotas.
— E como vamos sair dessa enrascada? Como vamos embora? — pedimos ajuda.
A fulaninha que fornicara com ele a noite toda também queria ver-nos fodidos, sabíamos, mas se mantinha com fingida seriedade diante de nossa aflição. Rindo o quanto podia — e só ele ria —, Crisóstomo apontou uma saída, desesperando-nos mais ainda:
— Arruma lá dois vestidos para eles.
— O que disse? Prefiro ir pelado pra casa. — reagi, recebendo o irrestrito apoio do Udinei, de pouca serventia.
Crisóstomo divertia-se:
— Pois que seja, há mesmo pouca gente na rua agora. Eu já estou indo.
Belo companheiro era ele. Dava impressão de querer mesmo ver-nos em apuros. Caminhou para a porta. Suplicamos das meninas qualquer peça rota. Uma calça imprestável de algum cliente que ousara uma noitada sem dinheiro e a deixara penhorada. Uma calça para cada um era o bastante. Mas não havia uma sequer. A salvação veio com Cristal. Revirando um velho baú de seu pai, encontrou surrados gongós da lida garimpeira. Quase não acreditei ao tê-los nas mãos. Ficaram rodando em nossas cinturas, mas estávamos novamente vestidos.
Não desejei sequer camisa, queria afastar-me dali o mais depressa possível.
Verdade que a emergência da volta estava resolvida. Mas como explicar em casa o sumiço do uniforme? Tive sorte de encontrar meus avós em sono solto. Na manhã seguinte, sábado, acreditaram de bom grado que a prova fora difícil e o professor estenderá o horário. Mas a aflição não me abandonou um segundo sequer até o final da tarde de domingo.
Depois de voltar da missa do final do dia, encontrei sobre a mesa grande da sala um pacote com meu nome.
— Vó, quem deixou? — perguntei intrigado.
— Um menino.
Abri o volume e meu coração saltou aos pulos: estava salvo — o meu uniforme! Havia um bilhete junto, de ninguém menos que o Crisóstomo: “gostou do trote? O Samuel e o Rocha Filho me ajudaram muito.”
O sacana valeu-se de dois outros colegas para pregar-nos a peça.



jjLeandro





segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TROTE - parte VI

                                                         Barcos em Carolina - MA (Foto jjLeandro)





Não foi uma história fácil para Cristal contar. Percebi que reacendia fogos mortos ou reavivava os que ardiam brandamente em seu íntimo. Uma narrativa cheia de lacunas, pausas e suspiros que demonstravam sofrimento conforme avançava e o desejo de que tudo acontecesse diferente se isso fosse possível. Sempre esperamos que uma história contada incansáveis vezes uma hora tome um atalho que nos livre dos momentos difíceis, das agruras, das perdas, levando-nos aonde deseja o coração. Era esse o ingênuo propósito de Cristal, uma criança num corpo castigado de mulher. Quando um interlocutor se dispunha a ouvi-la, tinha a história no ponto — prova de constante exercício, nem que fosse após o cliente embebedar-se o suficiente para ser impossível a recusa. Não era o meu caso, embora a bebida colaborasse para fazer crescerem os espaços em branco na sua história. Cristal fora homenagem da mãe ao quartzo que tornara possível o seu encontro com Raimundo. Recordo que me disse: meu pai era garimpeiro, dos muitos analfabetos que queimavam o dinheiro ganho com o cristal nos cabarés de Carolina. E também o duro juízo que fazia da própria mãe: não sei como pôde se apaixonar por ele e engravidar; coisa de puta besta.
Caminhou até a janela aberta, procurou, olhando para baixo, o caudal invisível do rio. E nele buscou e encontrou, com a propriedade de quem conhecia bem as inclinações e as distâncias por ali, as luzes de sinalização das cabines dos pentas*. Havia um atracado no cais distante — as luzes bruxuleando como lamparinas —, embarcou nele seus pensamentos e buscou a fuga no nevoeiro feérico do rio. Abraçando-a por trás, impedi que me deixasse. Sacudi-a com forte abraço restaurador e o esforço dela para se libertar de mim lançou em meu rosto o cheiro forte de nicotina e álcool que impregnava seu hálito.
Para apaziguá-la, murmurei:
— Engravidaria de mim?
Ela respirou fundo o ar que vinha do rio carregado da umidade noturna. Balançou a cabeça, para afastar vozes desconhecidas que a tentavam. Acho que estou ficando bêbada, disse enquanto passava as mãos no rosto e nos cabelos. Está não, objetei. Você ouviu bem o que eu disse: engravidaria de mim? Você acabou de dizer que sua mãe foi burra ao engravidar do garimpeiro.
— Mas com você é diferente, qualquer mulher desejaria engravidar de você.
— Uma ova que qualquer mulher desejaria engravidar de um moleque como eu. Você está sendo rigorosa demais com sua mãe, isso sim. Não vê que também toparia uma gravidez maluca como fez sua mãe? Mas não a culpe. Ela apenas curtiu o amor que lhe foi possível.
— Mas precisava ser com um homem que batia nela, que vivia bêbado, que vinha a Carolina gastar o que ganhou no garimpo e dormir com outras putas? E para mim, sua filha, nem carinho nem conforto?
— Eu já lhe disse: talvez não tenha sido o amor desejado por ela; mas foi o amor possível.
Ela estava surpresa, estava claro que sua agitação e a voz quase sem pausa acusavam o seu desconforto diante de minha interlocução e meus esclarecimentos. Bem possível que em todas as oportunidades de expressar-se ocorrera um monólogo com um bêbado prostrado. Não ouvia um sim ou um não, podia falar, falar e falar ininterruptamente. E quando a história chegava ao fim, se não chorasse, o ronco do cliente ocuparia o silêncio opressor. Foi para fugir de uma situação que a obrigaria a reflexões, que a poderia levar a atalhos não desejados mas reais, uma vez mais negando-lhe o tão almejado final feliz, que fez o convite com um sorriso forçado.
— Vamos banhar no rio?
— A essa hora?
— Muita gente faz isso aqui — disse com uma desconcertante travessura na voz.
— Vamos procurar o Udinei e a... a...
— ... A Sheila para irem com a gente — completou.

 * Como eram chamados metonimicamente os barcos a motor em Carolina. A marca do motor utilizada nos barcos era a Volvo Penta.


jjLeandro

sábado, 16 de abril de 2011

O TROTE - parte V

Castelo - Rio Tocantins (Foto - jjLeandro)





Continuação....

                                           O TROTE          V


Relaxei daí em diante. Senti-me o dono do mundo. Tinha cerveja à vontade, uma mulher nua na cama — a beleza não importava —, no momento não importava sequer o amor a quem descobria o prazer carnal. Pegando por empréstimo a rasa filosofia do Udinei — sorri por dentro ao imaginar como ele se virava com a outra —, julgava fechado o círculo com a parte que faltava para o domínio da arte de amar. Um pensamento narcisista resumiu o meu estado de satisfação: impossível que me segurassem doravante. A cerveja tornara-me mais audaz e Cristal mais concessiva. Mas bastou que ela novamente colocasse o seu primoroso empirismo em ação para eu ser obrigado a rever, com extrema brevidade, meus princípios filosóficos a quem a euforia tão apressadamente consagrara solidez. Seus variados dotes na cama provaram-me que o sexo tem uma encruzilhada no meio que nos leva a caminhos de diferentes prazeres.   
O corpo lasso na cama, o pensamento voando longe, foi ocasião oportuna para Cristal aconchegar-se a meu lado, também extenuada. Não sem antes me ter servido mais bebida e distribuir-me pelo corpo uma quantidade enorme de beijos. Seguiu-se uma pausa, mas antes que o silêncio se expandisse sobre nossos corpos saciados como mortalha, ela atreveu-se quebrá-lo com a história de sua vida. Como não pedi que parasse, por conta própria pausou. Parecia pausa adestrada por acontecimentos passados. Num suspiro, que era um desabafo, revelou que os clientes não toleravam sentimentalidades.
— E o que dizem? — perguntei entre goles de bebida.
— Mandam eu parar imediatamente. Há deles que até me batem.
Fiz uma careta, misto de espanto e riso pela quantidade de cerveja ingerida.
— Quer um cigarro? — ofereceu-me enquanto acendia um Charm para queimar ilusões.
Peguei um dos longos cigarros, acendi-o no que ela já fumava, e enquanto executava a tarefa senti seu hálito próximo de meu rosto numa intimidade que não existira ao transarmos. Exalava-o aos trancos, nervosamente. Pilhéria uma mulher cheia de tretas sobressaltar-se diante de um adolescente. Sem entender o torvelinho de sentimentos que a agitava, num gesto imponderado, afaguei seus cabelos compridos. O meu gesto arrancou-lhe outro suspiro, longo agora — marcando o relaxamento de todos os seus músculos. Seus olhos fecharam-se por uma fração de tempo, para mim um átimo, mas que para ela pode ter representado uma eternidade.

Imaginei seu sofrimento naquela vida. Imaginei o último carinho que recebera se a sua profissão permitisse isso. Naturalmente experimentava por ela uma aproximação empática. Vivíamos situações semelhantes de descoberta e de ausência. Apertei-a contra meu corpo, o corpo dela tremeu como se agitavam os das colegas de aula tocados no escuro da boate Itapuã. Deixou-se conduzir como eu bem entendesse. Dera-me a primeira noite de sexo, eu estaria dando-lhe a primeira noite de amor? Era essa expectativa que tornava o seu fôlego asmático e transia seu corpo com frêmitos da sezão? A súbita afeição por ela impediu-me de continuar tratando-a como uma puta. Esses questionamentos sumiam no escuro do quarto junto com a espiral da fumaça de meu cigarro. Escondia, como qualquer mulher, sonhos inconfessos? Sua condição era obstáculo a uma revelação? Quis descobri-los sondando seus olhos. A penumbra era sua aliada na recusa. Mas não foi preciso maturidade, nem clarão de luzes, as lágrimas que boiavam em seus olhos revelavam tudo. Percebendo que eu flagrara o seu choro silencioso, cujos vestígios ela — mais que depressa — fez desaparecerem na colcha suja da cama, desejou não aparentar carência, mas revelou-a inteira:
— Puta é sempre assim, tem todos os homens e não tem nenhum.
Lancei círculos de fumaça no ar sumidos na escuridão. Enquanto via desaparecerem, desviei o fio da conversa para que não rompesse em prantos. Quis saber o porquê do seu nome, curiosidade que me roía desde a hora em que nos apresentamos. Era a primeira Cristal que conhecia.
— Cristal?
— Sim.
—Foi escolha de minha mãe. Era a dona desse cabaré quando a febre dos garimpos dominava a região e os homens vinham buscar dinheiro no banco daqui. Foi o tempo em que ela mais sorriu e também mais chorou.
— E por quê?

jjLeandro


sexta-feira, 15 de abril de 2011

O TROTE - parte IV

                                                        Casarão na Praça Cândido Mendes - Carolina - MA







As duas vieram determinadas para cima de nós. Udinei, um pouco adiante de mim na sala, mais próximo do início do corredor, foi logo abraçado pela puta da frente. Talvez tivesse ela os nossos mesmos dezessete anos. A que deu dois passos a mais e me beijou no rosto não tinha mais que vinte e cinco anos, mas passaria ali fácil, fácil, consoante a regra, por uma mulher de mais de trinta.

Sentaram-se descaradamente em nossos colos. A minha agitou a vasta cabeleira lisa, jogando a cabeça para trás, enquanto dizia:
— Cristal, e você?
— Júnior.
— É a primeira vez?
Que indiscrição, pensei. Por isso resolvi-me pela desfaçatez, pregando-lhe uma nada convincente mentira saída após pigarros e vacilos na voz:
— Aqui sim, a primeira vez.

Udinei, ao lado, era só quem falava. Na realidade cochichava no ouvido da sua puta, que escutava com atenção. Presumi estar sendo mais ovidiano que Ovídio na Arte de Amar, procurando castidade no amor libertino. Enlevada em seu colo, ela bebia as palavras que o baixinho dizia. Que poltrão, será que teria sucesso na cama? Tagarelar sem parar era estratégia para não permitir brecha a um convite para a ação. Ali não havia mulher para derrubar na lábia, não estávamos na boate Itapuã com as colegas de aula, conversa ali era pura perda de tempo. Para mudar drasticamente o rumo da arenga interminável, com risco de pedir namoro à donzela conventual, quase aos berros, propus: cerveja para todos! Udinei saiu do transe verborrágico com uma objeção fruto de seu medo de alterar o quadro: e aqui tem isso? Tinha sim, a noite fora bem planejada por Crisóstomo. Viveríamos ali o céu e o inferno numa noite só. Ah, velhaco! Cristal foi lá dentro, sumindo no corredor escuro para retornar pouco depois com copos e cerveja gelada. Inicialmente sorvi grandes goles, levando Cristal a suplicar que lhe desse mais atenção: calma, menino, lá dentro tem mais. Abortou com um beijo o sorriso que ameaçou aflorar em meus lábios quando virei o rosto para olhá-la. E ela decidiu trabalhar sem mais demora, pondo fim a minha lerdeza. Agarrou minha mão, arrastando-me para um dos quartos enquanto dizia baixinho com despudorado profissionalismo: com puta num carece pedir licença. Em boa hora ela desfizera o nó que me mantinha paralisado: não saber iniciar a ação. Em consequência, a excitação que já era grande deu um salto que quase extrapolou meu corpo. Eu flutuava, sim, flutuava; meus passos não mais repercutiam no soalho gasto e frágil. Perdera os cuidados com o precipício sob nossos pés. Andava sobre nuvens. Com o ânimo em polvorosa, desculpem-me os que me leem agora, não observei o novo ambiente, portanto não posso descrevê-lo. Só posso dizer que o quarto era uma extensão da miséria da sala. Perfeitamente claro, pois, que a miséria ali era metástase que não se contentava com um único cômodo da casa.

Em pouco tempo perderam-se na distância os gritos e gemidos da fulaninha do Crisóstomo. As conferências do Udinei não eram mais que algaravia varrida para os confins do cérebro pelo desejo que me agitava o sangue, tornando-se imediatamente, até a extinção, suave rumor incompreensível. Livre de interferências externas, corpo relaxado pelo toque de mãos habilidosas que jogaram no chão o uniforme do colégio e o roçar lascivo de outro corpo, consegui a sintonia de todos os sentidos para o sublime exercício da primeira vez. Em meus braços, o amor transpareceu cristalino; cristalizou-se livre dos véus que a angústia da espera só aumentava. Cessada a grande agitação na velha cama que nos deixou escorrendo suor pelas pernas e braços, Cristal, nua, levantou-se e finalmente abriu a janela. Uma súbita lufada de brisa fresca vinda do rio arrepiou meu corpo também em pelo. Acolhi com um sorriso de prazer a primeira sensação corporal após o inaugural orgasmo em comum. Representou um batismo. O batismo que me tornava homem. E foi com voz de homem, espreguiçando-me na cama, olhos fixos na noite benfazeja que invadia o quarto pela moldura da janela, um turbilhão de sensações na cabeça, que quis comemorar tudo aquilo com mais cerveja.  


jjLeandro



quinta-feira, 14 de abril de 2011

O TROTE - parte III

— É aqui — disse Crisóstomo estacando de repente.
— Aqui? — eu e Udinei não contivemos a surpresa.
Ele ria, sabíamos que ele ria no breu da noite. A sua voz, quando saiu, denunciou-o. 
— Queriam o quê? Um palacete? Isso só lá no centro da cidade. E as mulheres que moram lá não são putas.
A casa era quase uma ruína. De costas para o rio, segurava-se milagrosamente no barranco.
Cedemos e entramos com ele. A sala da frente parecia no último grau de miséria. Tamboretes com couro rasgado eram a mobília. E sobre um deles a luz fraca da lamparina fazia pouco caso de iluminar cenário tão pobre. O soalho de madeira, estragado pelo tempo, rangia aos nossos passos. Imaginei logo o tamanho da queda barranco abaixo até o rio. Sobreviveria à queda? Ao menos que não seja antes de uma boa trepada, supliquei aos céus. Como bom cristão procuraria fazer a minha parte: busquei a impossível flutuação com passos suaves que mal tocassem o chão. O teto alto, invisível na penumbra, com certeza escondia telhas escuras e teias de aranha centenárias no madeiramento roliço. Já tivera fausto aquela casa, já fora morada de opulentos fazendeiros um século antes, cujos descendentes nas primeiras décadas do século XX tornaram-se os ricos comerciantes do rio, monopolistas da comunicação fluvial com Belém do Pará. Inquestionável que a riqueza é como as pessoas, migra de lugar e muitas vezes foge de quem a possui.
Sem qualquer aviso de nossa presença, de um corredor que levava aos demais cômodos da casa, apareceu uma mulher. Enquanto a pouca luz escondia suas feições, permitindo ver apenas a massa de sua silhueta, parecia apetecível. Ao chegar risonha e beijar Crisóstomo na boca, a luz da lamparina revelou sua feiúra.
— São eles? — perguntou agarrada em seu pescoço.
— Sim, não disse que os traria?
Incomodei-me ao ser despido pelos olhos dela. Senti-me uma besta em exposição. Cochichou algo ao ouvido de Crisóstomo, olharam para nós — plantados ao meio da sala —, riram e senti-me ainda mais ridículo.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, antecipando-se a Crisóstomo que sentara em um dos tamboretes com ela ao colo. — As meninas tão chegando já, já.
Sabia que o cochicho dela tinha sido sobre a nossa primeira vez com mulheres num cabaré. Senti-me desconfortável como se num passe de mágica alguém tivesse retirado a minha virilidade.
— E onde elas estão? — Udinei abandonou o mutismo.
— Nos fundos, arrumando-se. A noite hoje é especial — e deu uma sonora gargalhada.
Num piscar de olhos Crisóstomo sumiu de nossa frente, metendo-se com a mulher em um dos cômodos. Em seguida começaram os escandalosos gritos e gemidos da fulaninha. Olhei para Udinei em busca de socorro, ele — mais que depressa — jogou o comando das ações em meu colo. Decidi então não me esquivar à responsabilidade.
— Elas estão demorando — disse eu, tamborilando os dedos na coxa.
— E se forem tão feias quanto a do Crisóstomo? Valerão a pena?
— Não seja covarde, vai desistir?
Os gemidos da fulaninha do Crisóstomo eram verruma abrindo buracos em nossa coragem. Mas não capitulei.
— Bonita ou feia, vou pra cama.
— Também eu.





jjLeandro 


Casarão abandonado - Carolina - MA (Foto: jjLeandro)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O TROTE - parte II

A continuação...


II

À noite, descemos a ladeira do rio em vez de ir ao colégio. Não houve como evitar os uniformes; deixamos os livros em casa, alegando dia de prova. Crisóstomo, com rigores de professor que cobra entendimento dos alunos nas matérias, ia explicando o que deveríamos fazer no cabaré; a intervalos nos interrogava para ver o nível de assimilação das lições. O resultado de tanto sermão foi aumentar o nosso nervosismo. Porra, pensei, será que uma trepada é tão trabalhosa assim? Esconjuro! A sua última recomendação e os lances seguintes daquela noite por muito tempo zoaram-me na cabeça. Depois de escolado nos cabarés da cidade, ria daquela primeira peleja e da sua derradeira recomendação — na verdade uma piada, os fatos comprovariam — antes de pisar na soleira do puteiro: “Que o único vexame dado aqui seja elas verem que somos colegiais fugidos da escola”. 


Atravessamos a pequena ponte de madeira sem corrimão sobre a grota que escoava a cloaca da cidade no rio Tocantins. Uma quadra antes mergulhamos na escuridão das ruas miseráveis da beira-rio. O Tocantins, invisível, corria à direita, largo, cálido, pulsante como  corpo de mulher. Não o dominara ainda, não sabia nadar. Era cerimonioso com ele como tinha sido até o momento com as mulheres. Partia agora para conquistá-las, depois seria a vez dele. Mentalmente, sentindo no costado a volúpia de seu hálito úmido me atrair, que a noite fazia subir o barranco misturado à acidez dos peixes, conjeturei: primeiro as mulheres, me aguarde; depois domino você. Ouvi Crisóstomo me chamar na escuridão: “Ê, poeta, tá aí parado esperando o quê? Vais desistir agora?” 
Acelerei o passo, acompanhando os colegas que já subiam a rua depois da ponte. 
— Tá longe? — Udinei perguntou.
— Chegando — respondeu Crisóstomo.


Na rua sem iluminação, as pessoas que cruzavam conosco eram borrões escuros, silenciosos. Passavam como sombras, inexpressivas. Vez ou outra um grito escandaloso de uma puta vazava as paredes das velhas casas de taipa, chegando à rua. Instintivamente eu virava o rosto a procura de localizá-la e o meu olhar batia contra a parede da imensidão da noite. Mas ela era vazada por pontos alaranjados das lamparinas a querosene sobre janelas abertas — referência de onde a luxúria se abrigava. E por ali parecia um céu estrelado. Sorri nervoso e a friagem pegajosa da noite aproveitou a fragilidade do momento para tocar os meus ossos. Não conseguia imaginar tanta puta em Carolina — invisíveis à luz do dia nas ruas da cidade; ou seriam os meus olhos incapazes de joeirá-las de entre as outras mulheres? 





jjLeandro




Amanhã tem mais.....




A velha ponte - Carolina - MA (foto - jjLeandro)

terça-feira, 12 de abril de 2011

O TROTE - parte I

Vou postar a partir de hoje o conto O TROTE, em capítulos. Cada dia um capítulo. O conto está começado e o seu desenvolvimento acontecerá aqui, dia a dia.



                                         Carolina - MA (cidade sul maranhense) - foto: jjLeandro

I

Saí do banco radiante. Enfim chegara a ordem de pagamento da minha mesada. Podia agora realizar o sonho acalentado desde que estudava em Carolina: ir a um cabaré. Tudo já estava planejado com Crisóstomo e Udinei, faltava tão somente o dinheiro. Crisóstomo, que já conhecia as putas da beira do rio, fora lá umas duas vezes — confessara em excitantes papos sobre o assunto —, riu quando eu, num dos muitos encontros de planejamento, querendo antecipar a visita mesmo sem dinheiro, insisti:
— Você é conhecido por lá, elas não aceitam que a gente pague depois?
Após demorada risada, ele pulverizou meus resquícios de esperança:
— Mesmo que elas confiassem, achas que seria teu avalista? Tu comerias a puta e depois eu é que me foderia pagando.
— Pô, você é ou não é meu amigo?
—Tanto sou que te levarei lá junto com o Udinei. Mas devem aprender uma coisa: puta nenhuma trepa no crediário.
Sorri ao relembrar minha ingenuidade na conversa. Mas só sorri porque agora tinha dinheiro, aliás, dinheiro suficiente para várias idas à beira do rio. Do banco fui direito ao trabalho dele, o escritório da empresa aérea que voava do Rio de Janeiro para Belém, com escala em Carolina. Da porta, sob as árvores da rua, fiz sinal, chamando-o. Pediu com um gesto de mão, por trás do vidro do guichê, que esperasse um momento — estava ao telefone —, provavelmente falando com o aeroporto do Ticoncá. Eu não queria tratar do assunto lá dentro, duas mulheres trabalhavam com ele. E as duas conheciam minha avó com quem eu morava na cidade.
Desligou o aparelho, arrumou algo mais no guichê e saiu à rua.
— O que foi? — perguntou.
Entusiasmado, mostrei-lhe o tufo de dinheiro.
— Para as putas do rio.
—Estás louco, guarda isso! — e pôs a mão sobre a minha, forçando-a em direção a meu bolso. — Tens aí dinheiro suficiente para muitas idas ao cabaré. Chega-se lá com pouco dinheiro, umas notinhas amassadas no bolso, sovinas, caso contrário na volta se está mais pelado que frango que vai à panela.
Tranquilizou-se ao ver que eu guardava o dinheiro.
— E o Udinei, tá pronto? — quis saber.
Sacudi a cabeça afirmativamente.
— Ele vendeu a bicicleta para arranjar o dinheiro...
A gargalhada de Crisóstomo me interrompeu.
— Porra, são dois otários, isso que vocês são — e completou ao ver minha cara perplexa: — Bem feito, ele agora vai a pé toda noite para o colégio.
Eu procurei justificativa para o ato desesperado do amigo:
— Você diz isso porque já esteve por lá. Nós vamos pela primeira vez.
Comovido com minha virgindade, Crisóstomo mudou de assunto. Despachou-me para acertar tudo com Udinei na casa dele. Vai lá, reforçou. Se tudo estiver certo com ele, quero dizer, se ele estiver com dinheiro, é para hoje à noite.
Esfreguei as mãos de contentamento e saí como um foguete. Entrei na casa do baixinho metido a filósofo na disparada, com a mesma pressa de quem foge de um cão raivoso. Na grande sala da frente quase atropelei a velha mãe dele. Ela abandonou o bordado que fazia para seguir meu trajeto com cara de quem já perdera as esperanças de entender adolescentes que dançavam sem tocar nas garotas. Não havia dúvida que era a mesma cara de quando surpreendia e reprovava os nossos papos sobre as noitadas com as meninas na boate Itapuã. Amante de boleros e valsas, não entendia os movimentos lúbricos da dance music. Não lhe dei a importância das outras vezes em que por trás da minha atenção sempre existia o inconfessável objetivo de chegar aos seus cuscuzes com café. Deixa pra outra vez, há coisa melhor a fazer agora, e tentei vencer o delicioso gosto dos cuscuzes que o cérebro me cobrava a satisfação insistentemente com outro prazer que ainda só podia imaginar.
  Udinei estava no quarto estudando matemática.
— Baixinho, sabe pra que é isso? — disse eu da porta, agitando na mão um leque de notas de dinheiro.
Ele se levantou num estalo da cadeira, abandonando na mesa sob a janela alta, que recebia a claridade da rua, os livros e cadernos. Veio em minha direção com o dedo em riste. Deixa eu ver se adivinho, disse antes de me dar um abraço de contentamento quando confirmei:
— Para as putas do rio.
Ele socou o ar com o punho e deu um grande grito: Hip hurra!
Sua mãe chegou correndo no quarto a fim de saber o motivo da gritaria. Nada, mãe, disse, pondo-a para fora do quarto e fechando a porta.


jjLeandro  

sábado, 9 de abril de 2011

ORQUÍDEAS








Fotos: jjLeandro
Estive hoje com um amigo, Murilo Brandão Vilela, alagoano de boa cepa, em Tocantinópolis. Além da boa prosa do médico e escritor, há que se destacar a recepção sempre gentil dele e da esposa Conceição. Maravilharam-me ainda as orquídeas do casal. Natureza integrada à vida, o aspecto da sua residência é o de uma chácara, tal a quantidade circundante de flora e fauna.


Plantas por toda parte, e árvores frutíferas e umbrosas. Os pássaros são livres, diga-se, atraídos pela acolhedora sombra e farto alimento das frutíferas. Um paraíso. Ouvir o som canoro dos pássaros é mais aprazível que os muitos decibéis do barulho de motores de veículos. Alguém discorda?


jjLeandro

domingo, 25 de julho de 2010

PRAIA NO RIO DO COCO - TOCANTINS

Julho é mês de muita praia no Tocantins, que tem grandes rios privilegiados pela beleza de suas areias na época de estio.
Quando se fala em belas praias, areia e muito sol, pensa-se logo em Araguaia e Tocantins.
Mas o rio do Coco, no município de Caseara, afluente do Araguaia, não fica nada devendo aos dois maiores protagonistas no Estado. É um grande rio, em alguns trechos tem mais de 600 metros de largura. E quando a água baixa, exibe a beleza de suas areias finas, seduzindo os turistas à curtição na temporada das praias que vai de junho a setembro.
Estive lá semana passada e posto algumas fotos da Praia do Sol. Mas o Coco tem infinitas delas , semeadas em suas margens e conjunto de ilhas.


jjLeandro

Detalhe das barracas na praia


 

A Praia do Sol - Rio do Coco
 
Canoa usada na travessia para outras praias do Coco

O sol se pondo por trás da mataria
Nessa época, o rio é raso

A travessia de praia a praia pode ser feita com água até a cintura

A praia à espera dos turistas. Um ambiente virgem

As areias do rio do Coco e as pegadas dos turistas

quarta-feira, 9 de junho de 2010

CHEGOU A ANTOLOGIA - MOEDAS PARA O BARQUEIRO

Foto: Moedas para o Barqueiro
Amigos, já estão em minhas mãos os livros da antologia Moedas para o Barqueiro - Contos Fantásticos Sobre a Morte, da qual participo com João Piloura.

O livro, de 304 páginas, 64 autores e 67 contos, aborda em todos eles um tema que nos inquieta  no dia a dia: a morte.

Aquele que desejar adquirir pode entrar em contato comigo pelo endereço eletrônico jjleandro60@hotmail.com para eu providenciar a remessa. O preço unitário é R$ 25,00, apenas para cobrir os custos de publicação. Para quem mora em Araguaina, faço a entrega em domicílio. Para os leitores de fora, há o custo do Correio, uma tarifa fixa de R$ 5,60.


jjLeandro

sexta-feira, 4 de junho de 2010

PÔR-DO-SOL


Em Caseara (TO), o pôr-do-sol apresenta variáveis o ano todo que o habilita a ser um dos mais belos do Brasil. Nesta foto, o sol se põe mas lança ainda nos fiapos de nuvens a sua cor da agonia. (Foto: jjLeandro)



jjLeandro

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A MORTE DA REVOLUÇÃO


Quando a Revolução chegou, lembro-me bem, morríamos como moscas borrifadas por inseticida sob a Ditadura. E ela foi apoiada com força como um remédio milagroso surgido para pôr termo à cólera que meus pais diziam ter sido o maior flagelo do país na época de minha infância. Com a Revolução, o povo deixou de temer a morte; Como a morte era certa de qualquer maneira, por que não na luta? E então a mortandade foi ainda maior com o recrudescimento das hostilidades. Mas então estávamos incrivelmente felizes. Lembro-me do rastilho vibrante que correu a cidade de boca em boca, gerando ainda mais determinação na luta: os mortos não têm mais aquela cara de dor torturante, não têm mais o semblante desolado dos que não veem salvação. Era assim que diziam as pessoas alvoroçadas em todas as esquinas, no porto, no feio e pobre casario dos arrabaldes, nos salões luminosos dos hotéis de luxo. Lutavam e cantavam felizes. Fora porque a vida ganhava sentido, o futuro voltava a depender exclusivamente de nossa ação. A Revolução gestara tão poderoso milagre que mudara até a face da morte, pois os que morriam tinham-na descansada, um leve sorriso distendendo seus músculos.

Foi um tempo de apertos que pensávamos superado definitivamente, pois após a guerra as cidades reconstruídas ganharam vitalidade, as indústrias e o campo voltaram a produzir, as casas voltaram a encher-se de vida e música. As crianças substituíram o matraquear das armas automáticas pela alacridade de suas algazarras domingueiras. As pessoas unidas desejavam lembrar o passado apenas o suficiente para não esquecer a memória dos heróis.

Por algum tempo houve consenso e de mãos dadas buscamos a felicidade. Ou porque nada é eterno, ou a perfeição humana é apenas uma quimera, a desventura voltou a rondar o país como ave de mau agouro. Os anos foram dilapidando os fortes alicerces revolucionários como a velhice desfigura as pessoas. Tão lentamente que a maioria do povo não se apercebeu das mudanças. E continuou mourejando de sol a sol como sempre fez. Quando a palavra Ditadura foi ressuscitada, após quinze anos proscrita, nem eu quis aceitar. Aquele homem levado pela milícia, arrastando os sapatos na imperfeição do calçamento de pedra, era apenas um contrarrevolucionário. Assim também entenderam as pessoas que viraram os rostos na rua a procura dos gritos e da algazarra que denunciavam a cena. Nunca esqueci aquilo. Não só por evocar o passado, mas pelo fato de se tornar corriqueiro daí em diante. Tanto mal me fez que em casa passei a desconfiar de mim mesmo e sei que muitas outras pessoas agiram igualmente. Outras ainda fizeram pior: delataram vizinhos e amigos por insignificâncias. Olhava-me no espelho do banheiro à procura do menor sinal que denunciasse ideias hostis ao governo. O que via era apenas o meu rosto murchando, sulcando-se apressadamente de rugas, ganhando contornos que se pareciam com os de meu pai sob a Ditadura na década de 1950.

Fremi de medo. Recuávamos no tempo? E se recuávamos, por que meu rosto não rejuvenescia?

Entendi que emergia da alma nacional uma insatisfação contra algo que não era novo, já experimentado e recusado. Nas ruas, a milícia continuava o seu trabalho de arrastar homens para as masmorras ou jogá-los dentro de carros numa viagem sem itinerário. As ausências nos lares não tinham explicação. O choro dos filhos, das mulheres, das mães era um termômetro do retrocesso.

O nosso Messias, o grande líder, passou a ser desrespeitado na rua. Não que ele andasse por aí, a cara à mostra mesmo com guarda-costas, sendo desacatado, xingado, coberto de impropérios e tomates podres pelos descontentes. Nada disso. No primeiro protesto ele recebeu furtivamente bigodes nos out-doors que celebravam as conquistas e o aniversário da Revolução, à semelhança do Ditador que ele depusera, e o mesmo epíteto em grafite negro: Ditador! Vi isso na ida ao trabalho bem cedo no grande parque colonial. Diante do out-door pregado ao gradil, o povo aglomerava-se. Conferia incrédulo se aquilo era mesmo o velho ou o novo ditador tamanho a semelhança; se aquilo era real ou sonho. Duvidava, como eu mesmo duvidei naquele momento, se a Revolução acontecera ou se tudo não passara de um delírio da soalheira tropical. Mas num piscar de olhos, como se de olhos bem abertos estivesse a vigiar todos os nossos movimentos, a polícia chegou batendo em todo mundo e acabando o charivari. A solução inesperada para fazer sumir imediatamente dali a imagem vilipendiada do Messias não foi outra senão destruí-la. Ainda que de longe, quando o out-door foi ao chão, o povo aplaudiu calorosamente como se depusesse o novo Ditador.

Foi por essa época que tirei definitivamente a venda dos olhos. E tudo pareceu tão diferente. Com tristeza pude ver que a cara do povo não guardava mais qualquer traço dos dias revolucionários. Era uma cara abatida, sombria, olhos fundos de fome e miséria; rugas profundas marcavam os rostos cansados como se o látego do Ditador os ferisse diariamente por qualquer contestação. Até o país cheirava a morte e abandono. Os prédios, entregues à desídia da Revolução, caíam aos pedaços. As cornijas de portas e janelas despregavam-se em blocos. As pinturas antigas se pareciam com as da época do primeiro Ditador. Os carros eram os mesmos de meio século atrás, mais velhos pelo uso e a falta de manutenção. Andar naquelas ruas, entrar naqueles carros, era recuar no tempo. Como pudera por tanto tempo não ver o que me alarmava os olhos agora? Como pudera andar pelas ruas, conversar no trabalho e nos parques da cidade aos domingos alheio à realidade?

Será que alguma vez quisera romper os liames do pesadelo, tocar a pessoa ao lado para ouvir a sua opinião? Será que o tétrico diálogo foi mais ou menos assim após minha admoestação:

— Não vê que tudo isso é um sonho de morto?

— E somos mortos? — perguntei.

— Sim, morremos no combate ao desembarque americano da Baía, não percebeu ainda?

— Não pode ser, comemorei aniversários da vitória na Praça da Revolução.

— Estivemos lá sim, ou melhor, os nossos fantasmas.

— E não podemos fazer nada? — aniquilei-me.

Desolado, o outro sacudiu a cabeça negativamente.

Ainda insatisfeito, voltei ao assunto, querendo maiores detalhes:

— E o Ditador, que ninguém vê há tempos. O povo só o vê em retratos pela cidade, tão novo como nos tempos revolucionários, que logo são cobertos de porcarias e palavras de ordem. Será que só nós, o povo, envelhecemos?

— Igual a nós, também ele já morreu.

— Morreu?

— Sim, está morto. E faz tempo. E levou consigo a Revolução.

— E como se resolve isso? — excitei-me.

Ele percebeu meu estado e me repreendeu.

— Calma, os mortos não se podem excitar. Temos que ser pacientes e esperar. A eternidade é a medida de nossa paciência. Somos para o todo e sempre testemunhas dos acontecimentos. Só isso!

Após ver que me acalmara, ele voltou ao assunto:

— O caso do Ditador é mais simples do que parece. Quando o povo perceber que ele não mais aparece em locais públicos, que o Palácio é inacessível, que só os porta-vozes falam por ele, porque ele morreu, vai providenciar rápido o seu enterro e o seu esquecimento.



 
jjLeandro