domingo, 13 de março de 2011
Numa oficina africana - poema
.
Vejo minha infância em retalhos,
costurada por mãos hábeis,
reassumindo vida.
Um carrinho de mão,
um balaio,
sonhos e desejos
de um passado morto.
Camisas no varal
embaladas por um vento ativo.
Em qual delas servirá
o meu corpo redivivo?
jjLeandro
LINQUE DA FOTO QUE ORIGINOU O POEMA
sábado, 19 de fevereiro de 2011
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O POEMA
Sigo o poema
Para ver aonde me leva
Como o homem
Se entrega à própria sorte.
Por caminhos
E descaminhos
Hora sou fraco, hora sou forte.
Com agonia ou com prazer,
Já que o poema
É vida ou morte.
jjLeandro
domingo, 12 de dezembro de 2010
ARAGUAINA SOFRE MAIOR ALAGAMENTO DOS ÚLTIMOS 20 ANOS
Em pouco mais de uma hora e meia de chuva torrencial, Araguaina conheceu uma das maiores enchentes dos últimos 20 anos. A chuva começou após as 13h do domingo, 12, e causou alagamentos sobretudo nas ruas e avenidas marginais aos córregos que cortam a cidade. O problema é antigo e nos últimos três anos tem se agravado com inundações cada vez maiores.
No centro, a Marginal Neblina foi totalmente tomada pela água, interrompendo o trânsito de veículos e pedestres. Casas às margens do córrego foram inundadas. Em alguns pontos, o nível da água atingiu mais de um metro de altura.
Mesmo depois que a chuva passou, alguns pontos permaneceram alagados com perspectiva de o nível da água baixar somente durante a noite. O Corpo de Bombeiros foi bastente acionado para socorro aos flagelados. O Samu - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – teve suas atividades parcialmente prejudicadas pela inundação que tomou conta do prédio.
Aqui no blog já denunciei outras enchentes em 2008 e 2009. Nada, absolutamente nada foi feito pelo poder público desde então. Nenhum gestor sequer pensou em discutir o assunto. Para todos os que já passaram pela Prefeitura, ante a inexistência de qualquer proposta para sanar as enchentes, o problema não existe.
Linques no blog de outras enchentes:
Linques no blog de outras enchentes:
http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/2008/10/caos-em-araguana.html
http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/2008/04/mundaru-de-gua-em-araguana.html
http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/2008/04/mundaru-de-gua-em-araguana.html
Fotos - jjLeandro -
Rua Paranaíba
Moradores deixam casas alagadasÁgua invade o SAMU
Cachoeira na Marginal NeblinaA pracinha sumiu debaixo d'água
Cruzamento da Marginal Neblina com Av. José de Brito
Ponto alagado na Marginal Neblina
Rua ou rio?
Alagamento com mão dupla
Marginal Neblina intransitável
Carro enguiça em alagamento
Moradores tiveram residências alagadas próximo ao córrego Neblina
Bombeiros prestam socorro
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sábado, 11 de dezembro de 2010
PEDIDO DE CASAMENTO
Foto: Azaleias - jjLeandro
Meu pai era homem de urgências.
No trabalho e no amor
Aviava seus atos
Como um condenado
Em último pedido.
Na família representou sua ópera-bufa
No pedido de casamento.
Chegou apressado numa tarde mormacenta de dezembro,
Suado num paletó que lhe retinha os movimentos
Mas não suas palavras.
Entrou na casa de meu avô como um vendaval.
Sua vítima fatal à entrada foi o jardim.
Tropeçou em vasos com camélias,
Pisou em margaridas e crisântemos,
Jogou do peitoril ao chão gerânios e azaleias.
Mãos à cabeça cheia de bobes,
Minha avó protestou:
—Vândalo, você destruiu minhas flores!
Ele, mais que ligeiro,
Cingiu a cintura da namorada como quem
Colhe uma rosa pela haste,
Dizendo cinematograficamente:
— Não, senhora, restou esta que vou levar!
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Quando um telefonema estraga o dia
Corri, malhei como um jovem. Um jovem de 50 anos. Voltei para casa, banhei, avaliei o físico diante do espelho do quarto: nada mal. Enchi os pulmões de ar e contraí a musculatura. Senti a vida inchando por dentro e os músculos, duros como pedra, reterem o fluido vital.
Animei-me para mais um dia de trabalho. Antes de sair à rua, conferi as anotações para o frugal almoço que deixava todo dia para a minha funcionária doméstica sobre a bancada da cozinha: folhas variadas, cenoura e beterraba cruas raladas, um bife magro grelhado e caldo de feijão. Sem dúvida estava fazendo a coisa certa. Pensei nos anos por virem e lembrei-me do poetinha: “que seja infinito enquanto dure”.
Já havia entrado no carro quando o telefone tocou. Voltei.
—Alô?! Queria falar com o titular da conta.
—Ele falando...
—Senhor José, já pensou que pode morrer hoje?
—Mas que conversa é essa? Isso é trote?
—Nada disso, é a sua operadora de telefonia fixa oferecendo-lhe um plano que inclui seguro por morte e auxílio funeral. Não se esqueça que todo vivo é mortal.
Indignei-me.
— A senhora ia ter certeza disso se estivesse agora diante de mim.
Ela voltou à carga com a voz imperturbável das profissionais de telemarketing:
— Pense que na hora extrema sua família iria sorrir por não deixá-la desamparada: são R$ 22 mil de seguro.
— É pouco, não valho só isso.
Argumentou com a dinâmica da economia de mercado, querendo amarrar-me ao contrato:
— Sempre há reajustes, não se esqueça.
—Não quero, estou muito bem.
Ela não se entregava.
—Qual a sua faixa etária?
—Tenho 50 anos.
—Hummm. Senhor José, lamento informar-lhe que já está com os dois pés na faixa dos que têm grande risco de sofrer infarto ou AVC.
— O Samu é aqui perto, me socorre.
—Sabe que na teoria tudo é bonito. Na prática, essas ambulâncias vivem quebradas.
Voltei a perder as estribeiras ante a insistência dela.
—Moça, você me irrita. A minha pressão vai subir.
—Calma, senhor José. Não vá morrer antes de fecharmos o nosso contrato, por favor.
Bati o telefone na cara dela e saí dirigindo com toda cautela. Por via das dúvidas marquei médico para avaliar o coração e a cabeça.
Um telefonema conseguiu mesmo estragar o meu dia.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
OS CELULARES DE DIOLINDA
Hoje encontrei o Crisóstomo, amigo meu. Aposentado, vira-e-mexe encontramo-nos nos Correios ou à porta de alguma agência bancária. Eu buscando livros no reembolso postal ou fazendo transferências bancárias para livrarias me mandarem mais livros. Ele correndo atrás da aposentadoria de engenheiro da extinta RFFSA.
Sempre uma boa conversa surge desses encontros fortuitos. São muitos minutos sentados num banco da pracinha diante da agência bancária, debaixo de uma umbrosa mungubeira enquanto o movimento da rua flui célere diante de nós. Com tempo disponível, está sempre atualizado com as notícias. Interessante que ao comentá-las busca sempre um vínculo com o seu cotidiano.
Soltou-me a última no encontro de hoje:
— O Brasil já tem mais celulares que gente, pode?
Encolhi os ombros antes de comentar.
— Pode sim, a economia está melhorando.
Pareceu não me dar ouvidos e continuou:
— São 194 milhões de celulares para um milhão a menos de população.
— Isso tudo, Crisóstomo? — questionei.
— Sim! Tem gente com mais de um aparelho, como lá em casa.
—Você tem dois?
Ele fez um gesto irritado com a mão, um claro protesto contra o amigo que o desconsiderava ao demonstrar não o conhecer bem.
— Eu não. A minha empregada.
— Ela tem dois?
—Sim. E o tempo inteiro está na cozinha com eles grudados nas orelhas.
—E dá conta do trabalho?
— Pior que sim — e justificou explicando que o que difere o ser humano das demais espécies de primatas é o fato de sucessivas experiências gerarem evolução. — Prende-os pressionando os ombros contra a cabeça. Fica assim um tempão, lavando louça, fazendo comida e conversando ora com uma, ora com outra amiga.
— E você nunca disse nada?
—Até já tentei, mas não surtiu efeito.
—E tentou o quê?
Ele demorou alguns segundos, mas desembuchou.
Na verdade reclamou mais atenção dela ao trabalho, num diálogo que tentou apimentar com ironia. O final foi mais ou menos assim:
— Diolinda, você tá aí com dois celulares grudados nas orelhas como se fossem brincos. Diga-me: nunca pensou em comprar um terceiro?
E ela, voltando-se para ele com o pescoço sumido entre os ombros e o rosto ausente de malícia:
—Pensar até que já pensei, seu Crisóstomo. Mas para que vou querer três se só tenho duas orelhas?
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