terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

UM FRANCO NOS TRÓPICOS


*
*
Publico agora a primeira de uma série de crônicas que atribuo a um francês(fictício) Pierre Dessault, que nas décadas de 60 e 70 do século passado esteve aqui pelo Brasil e depois, de volta à França, publicou um livreto com suas impressões da nossa região meridional. Pretendo coligir os contos num livro e publicá-los, se o dinheiro der, bem claro fique!

Sem mais delongas, vamos lá!




O AGENTE CUBANO



Passei por situações vexatórias no Brasil. Momentos que prefiro não lembrar, mas menciono ainda nesta crônica como advertência a outros turistas. Numa bela manhã de abril vivi um acontecimento insólito. Ainda excitado pela luminosidade dos trópicos em contraste com o cinzento inverno europeu, propus-me um passeio pelas ruas do Rio. Chegara num vôo noturno de Buenos Aires, e tudo o que vira até então foram as luzes do Rio multiplicadas pelo espelho do mar na orla; cedo o sol cumprimentou-me com o sedutor convite de um passeio, invadindo sem cerimônia o quarto desarrumado pelo cansaço da viagem. Aquiesci ao convite, ganhando a rua. O trânsito fluía célere como em toda metrópole. Atravessara a avenida e andava distraído, pisando sobre as ondas desenhadas pelas pedras portuguesas do calçadão de Copacabana. Seguia a esmo, tendo somente a cautela de fazer evoluir sobre o mapa que levava à mão — conforme evoluíam meus passos — uma linha com um lápis. Precaução de turista para não se perder. Lembro-me de, na ocasião, imitar deliberadamente Teseu e pensar por conseguinte em Ariadne.
Ao final de uma rua, com um jornal sobraçado que havia comprado pouco antes em uma banca — com o qual pretendia exercitar meu modesto português no hotel — e o mapa assinalando o labirinto de ruas, cheguei numa grande praça com muitas árvores. O movimento de gente desde uma quadra antes era grande e frenético. Acho que a falta de fleuma atraiu-me mais ainda a atenção, não pela rápida movimentação mas porque as pessoas gritavam e corriam em direção à praça. Apressei o passo e a evolução da linha no mapa.
Na praça tudo o que havia era balbúrdia e muita gente. Sobre o monumento de um homem a cavalo vários jovens gritavam um discurso e as palavras vindas de longe até mim, trazidas pelo vento, chegavam quase incompreensíveis. Meu fraco português e a gritaria infernal ao meu lado eram um empecilho ao entendimento. Eram todos jovens. Protestavam contra o governo, pude perceber ao cabo de vários minutos. Exigiam com palavras de ordem e muita ira, como se isso fosse bastante para intimidar os militares no poder, a libertação de vários jovens detidos numa manifestação no dia anterior. Sacudiam jornais — o mesmo que eu comprara — com a denúncia das atrocidades cometidas contra eles. Eram estudantes universitários e não conheciam limites para sua coragem. Mas isso não bastava. Não demorou para a polícia chegar. A balbúrdia transformou-se em enfrentamento aberto. O corre-corre envolveu-me. Surpreso, corri para fora do tumulto. Pouco adiantou: um soldado pulou sobre minhas costas e imobilizou-me com uma chave de braço. No desespero, praguejei em francês. Foi a gota d’água. O soldado arrastou-me até um superior com um sorriso triunfante nos lábios. Eu nada entendia.
— Chefe, peguei um cubano. Há agentes estrangeiros infiltrados na manifestação.

O sargento botou sobre mim um indefectível olhar de asno carregado de gravidade, sorriu para o subalterno, esqueceu os estudantes — que os outros policiais se ocupassem com eles —, e disparou:
— Soldado, hoje é o nosso dia. A nossa promoção está garantida. Vamos com o homem para o DOPS.

Em poucos minutos estava no DOPS, cercado de homens mal-encarados que gesticulavam e pareciam não estar de comum acordo. O ambiente recendia a fumaça de cigarro e os móveis pesados harmonizavam-se com os semblantes carregados dos agentes. Esperavam um superior para endossar o grande achado: o agente cubano.
Por algumas horas esperei quieto. Até as palavras sumiram de minha boca. Temia falar e comprometer-me ainda mais. Debruçados sobre a escrivaninha, enquanto aguardavam o chefe, os quatro agentes estudavam o que consideravam provas comprometedoras de minha ação de espia: o mapa, cuja linha assinalava o trajeto do hotel à praça, e o jornal com as notícias do ato público dos estudantes no dia anterior.

— Meu chapa, a encrenca é grossa — disse-me um, adiantando desdenhosamente o lábio inferior.
— É muito burro, esse gringo — zombou outro.

Permaneci calado até a chegada de um oficial do Exército.
Ele firmou um olhar azul e duro sobre mim, girou depois a cabeça para os agentes que permaneciam silenciosos desde a sua entrada, e falou:
— É este o cubano?

Eles assentiram triunfais.

— Seu nome e documentos — exigiu o oficial.
— Pierre Dessault, senhor. Meus documentos estão com eles.

Os agentes entregaram ao oficial meu passaporte e a carteira. Ele revirou a carteira, encontrou algumas notas de dinheiro brasileiro e várias de franco. Abriu o passaporte e virou-se furibundo para os seus subalternos:
— Imbecis, esse homem é francês e não cubano! Vocês querem criar um incidente diplomático? Por acaso não sabem diferenciar a língua espanhola da francesa? Sumam daqui agora mesmo.

Não tiveram tempo sequer de apresentar-lhe as provas do meu suposto crime. Mas ele pegou de sobre a mesa o mapa — correu o dedo sobre a linha a lápis — e o jornal para devolver-me, apresentando desculpas em corretíssimo francês:
— Eu gosto muito da lenda do Minotauro.

Nenhum comentário: