sexta-feira, 27 de abril de 2012

O NOVO CÓDIGO FLORESTAL








segunda-feira, 16 de abril de 2012

O SAUDOSISTA

Foto: http://avidanoanode2012.blogspot.com.br/2011/10/worldrevolution-ii-os-indignados-do.html



O velho mandachuva, órfão da Ditadura, parceiro de tantos outros biônicos da política já extintos, enfrentava protestos que se avolumavam dia após dia, exigindo a sua saída do cargo por corrupção. A pressão nas ruas punha-o em palpos de aranha, para usar expressão vigente em seu tempo mastodôntico. A onda de protestos não era coisa a que estivesse acostumado. Vinha embalada pelos ares democráticos, coisa recente, que julgava tão ruins quanto os atmosféricos à sua frágil saúde, fazendo-o perder o controle dos nervos pela absoluta falta de adaptação à nova realidade. Mas também pudera: forjara a carreira subindo à custa dos favores recebidos dos mandatários superiores pela execução de tarefas escusas capazes hoje de corar até defunto. Em suma, sentia-se acuado pelos abundantes protestos.
Um dia ouvia de um assessor:
— Está na imprensa um artigo falando mal do senhor.
Sem tempo para descanso, no outro dia a ladainha continuava:
— O palácio está cercado por manifestantes.
Outro lhe segredava ao ouvido:
— Há um abaixo-assinado na internet exigindo sua renúncia.
Para aplacar a ira popular, quis até ensaiar o suicídio diante do grande espelho do salão nobre do palácio, apontando um revólver para a cabeça, choramingando com palavras gastas pelo tempo: “saio da vida para entrar para a história”. Um assessor desarmou-o rapidamente, não tomando a arma de sua mão, mas denunciando o plágio:
— O senhor tem que ser original, convincente. Isso já foi dito antes.
Completamente apavorado pediu socorro, afinal assessor era bem remunerado, tinha parentes às pencas no governo e ele mesmo fechava os olhos para as comissões que recebiam com a finalidade de que nos apuros lhe iluminassem o fim do túnel:
— O que fazer, Charles Waterfall? Diga-me, estou quase me afogando.
Sim, era tal o anacronismo em sua administração que o principal assessor era ainda um americano, dos que a Ditadura trouxe para transferência de know-how na espionagem.
A resposta veio na lata, ardilosa.
— O senhor tem que se apropriar da bandeira deles.
Recobrou imediato a energia.
— Vá lá fora e tome uma dos manifestantes.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Não foi? Eu ouvi bem! Você falou em português.
— Eu quis dizer que o senhor tem que se solidarizar com eles, bater duro na corrupção. Deixar claro que também está triste e enlutado por causa de tanta patifaria de que o senhor não tinha conhecimento. Que também quer a moralização da coisa pública. Que jamais perdoará a traição dos escalões inferiores tramando às suas costas.
— E não vou me prejudicar com isso? — disse azedando a cara.
O assessor convenceu-o que tudo não passava de agá. Não é assim que se diz? Conversa para boi dormir, para inglês ver. Os exemplos são abundantes. E ele saiu aliviado para ter com o pessoal da comunicação do palácio. Providenciaria imediatamente uma faixa para colocar entre as duas palmeiras imperiais à frente do paço.
No dia seguinte ela estava lá, confessional, em negras letras garrafais com a assinatura do velho político abaixo: ‘LUTO PELA CORRUPÇÃO’.

 jjLeandro

domingo, 15 de abril de 2012

MOSSORÓ TEM CACHOEIRA, TÁ NA MÍDIA

– Mossoró tem Cachoeira — o filho comentou com o pai tão logo chegou em casa.
O velho, intrigado, olhou de esguelha. Mas nada disse.
Dizem que o melhor lugar para aprender é na escola, por isso ele furtou-se a qualquer protesto. O velho era potiguar, descera para Goiás havia mais de três décadas fugindo da aridez nordestina. Vinha agora o filho, de volta da aula, falar que Mossoró tinha Cachoeira. Papo furado.
— Num é papo furado não, pai. Tem agora grande Cachoeira capaz de inundar o Brasil inteiro. Apesar de estar lá, o Centro Oeste foi a primeira região a sofrer sua influência.
Novo olhar silencioso do velho. Entretanto sua cabeça estava a mais de mil. “Esse menino mente”, pensou. “Mas Primeiro de Abril já passou, impossível que seja mentira. Quem sabe uma professora mal informada. Sei que lá tem muito é sal”.
— Nada disso, pai — o moleque parecia adivinhar seus pensamentos. — Lá não tem só sal não. Mossoró tem Cachoeira, tá na imprensa a grande notícia.
O velho enfim rompeu o silêncio, se o moleque adivinhava seus pensamentos, melhor ele mesmo expressá-los, pareceria menos ridículo.
— Filho, não me espanta isso tudo — declarou resignado. — Vejo mesmo que o mundo tá perdido. Não se sabe mais aonde o homem vai parar com esse negócio de mudar a natureza. Bem que o velho Conselheiro um dia disse ‘o sertão vai virar mar’. Conseguia prever tudo, que santo homem! — e pensou que o filho tinha também um pouco das faculdades premonitórias do beato, não estava lendo seus pensamentos? —, só não sabemos o que pode acontecer com tanto desequilíbrio ambiental. Se o mundo corre risco, o Centro Oeste já tá inundando, ao menos o Nordeste pode estar salvo da seca. Vou já pra Mossoró conhecer tal Cachoeira. Onde é lá que fica mesmo, filho?
— Pai, quando chegar lá procura o Carlinhos. Ele vai ser seu guia no banho de Cachoeira.  
O velho voltou-se com uma interrogação no semblante.
E o moleque completou o itinerário em tom de troça:
— É no Presídio Federal.
“Deve ser bairro novo da cidade” inferiu o velho dirigindo-se ao quarto para arrumar as malas. Estava contente com o crescimento de Mossoró nas três últimas décadas.

jjLeandro

segunda-feira, 19 de março de 2012

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O revolucionário estádio da Copa

A possibilidade e o temor — não injustificados — de atrasos no cronograma de reformas e construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014 têm ofuscado uma observação de fundamental importância e que deveria estar na ordem do dia no país: a capacidade criativa de engenheiros e arquitetos brasileiros. Deveria ser mais observada que os orçamentos dessas obras que se inflacionam da noite para o dia, levantando suspeitas de superfaturamento que em pouco tempo — se confirmadas — podem requerer não tapetes mas gramados para esconder irregularidades. Neste jogo de gato e rato em que se enredam a imprensa, os políticos e os cartolas do futebol, os torcedores em meio ao fogo cruzado com o coração na mão, perde-se a oportunidade de comprovar quão revolucionários e criativos somos. E isso, claro, iria ratificar que Oscar Niemeyer, aplaudido no mundo todo, não foi só um feliz acidente de percurso da engenharia nacional, pouco provável de voltar a acontecer.



Bom que se diga que o frisson da Copa gerou uma onda criativa até em arquitetos de cidades que sequer serão sobrevoadas pelos aviões com delegações nacionais ou turistas. Nem por isso esses profissionais sentem-se excluídos neste mundo que já foi Aldeia Global e hoje é uma Grande Rede. Um amigo meu que o diga. Arquiteto inquieto, há muito preparava um projeto revolucionário de estádio que ‘não faria feio diante dos rebuscados, caros e ineficientes elefantes brancos de sedes e subsedes da Copa’, como se referia ao abordar o assunto. E eu cá com os meus botões, como é usual dizer aqui no interior, pensava que ele era bem capaz de um disparate iluminado. Seu histórico profissional conspirava a favor de minhas suspeitas. Fora ele que projetara o shopping da cidade — ideia excêntrica abandonada em boa hora — que previa, e aí está o mais fantástico!, uma escada rolante ambulante para acessar o mezanino deslocando-a para qualquer ponto de sua frente de mais de cem metros. Fiquemos só com esse exemplo porque outros tais são também de tirar o fôlego.



Ostrich, como o chamarei — isso é codinome pois não sou de fazer publicidade grátis —, pôs mãos à obra e me cientificou que trabalhava de forma revolucionária. Até nas folgas entre as sucessivas horas de trabalho em seu escritório, arejando a mente com goles de cerveja, não desviava a atenção de seu projeto. Sonhava: ‘Ah se eu tivesse a oportunidade de vê-lo aprovado como um dos estádios da Copa’. Voltava imediato ao escritório elevando seus sonhos em espirais da fumaça do cigarro.



Belo dia chegou ao bar onde eu estava com um grande sorriso no rosto. Era daqueles que autenticam certeza. O que será?, intriguei-me antes que se expressasse com palavras. Era o projeto de Estádio Revolução, como o batizou. Abriu o papel sobre o feltro verde da mesa de bilhar, para onde me arrastou após arrancar uma grande pasta de dentro do carro.



— É ele, veja! — exultou, quase me exigindo aplausos.



Rasgou ele mesmo elogios ao projeto. Era um arquiteto que odiava tudo que era estático.



— Veja — continuou, apontando o desenho com o dedo marcado pelo sarro do cigarro —, as arquibancadas são móveis. Deslocam-se de um lado a outro do campo. Não é genial?



Engrolei um comentário que ele atribuiu a minha estupefação diante de sua obra-prima.



Manteve por alguns segundos um silencioso suspense, para potencializar o efeito sobre mim da verdadeira revolução por fim revelada com a mesma vibração de um jogador após dar xeque-mate em decisão de título mundial de xadrez.



— O gramado tem inclinação de 45 graus de um gol a outro. Essa é a grande revolução de meu projeto, não a simples e repetitiva modificação das linhas de concreto e aço. Está, pois, no novo conceito de utilização do gramado a grande revolução.



De fato não era para menos, fiquei boquiaberto. Mas não dispensei um comentário que qualquer outro arquiteto tomaria como demolidor de seus devaneios.



— Ostrich, como os times vão jogar? Um vai estar em desvantagem.



O seu sorriso iluminado era a negativa de uma rendição.



— E eu não pensei nisso, então? Pra que temos dois tempos no futebol? Pra que as coisas se equilibrem. No segundo tempo, a vantagem troca de lado, ora.


jjLeandro

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

GRADAÇÕES DO SOL NASCENTE

O Sol ainda não nasceu. Borra o horizonte com as cores lilás e rosa. (Foto- jjLeandro)

O Sol já se insinua na linha do horizonte. As cores agora são amarelo e laranja. (Foto - jjLeandro)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

jjLeandro lança livro na FLIT premiado pela Fundação Cultural


AMIGOS, RECEBI E-MAIL DA ACALANTO DANDO CONTA DA DIVULGAÇÃO DE RELEASE SOBRE O LANÇAMENTO DE MEU LIVRO NA FLIT - REPASSO A TODOS:


O jornalista e escritor jjLeandro lança o livro Memórias de Petelico na Feira Literária Internacional do Tocantins, dia 3 de agosto, às 19h15, em Palmas. O evento acontece no Café Literário, durante o 7º Salão do Livro.
Memórias de Petelico, quarto livro do autor residente em Araguaina, foi vencedor do concurso Bolsa de Publicações Maximiano da Mata Teixeira, da Fundação Cultural do Tocantins, na categoria romance em 2009. A premiação previa a publicação do livro cuja edição terá parte doada a escolas públicas estaduais e outra ao autor.
Segundo jjLeandro, o lançamento durante o 7º Salão do Livro põe a obra em contato com leitores de todo o Estado possibilitando ocasião única de divulgação do livro. “O Salão amplia o alcance da obra, sendo portanto rara oportunidade para lançamento de livros. Qualquer autor desejaria um evento desse para  lançamento de sua obra”, diz.

A obra

Memórias de Petelico é um romance narrado por uma criança que vê a sua cidade natal (Carolina – MA) perder importância econômica na década de 1960 com o advento da Belém-Brasília e o surgimento de outros centros populacionais no antigo norte goiano, hoje Tocantins. O próprio autor e sua família migraram, como fizeram milhares de pessoas, para Araguaina.
Para dar corpo à obra, jjLeandro utiliza o encadeamento de crônicas em capítulos tendo todas elas como fio condutor da narrativa a progressiva perda de importância de sua Carolina frente às cidades que se formavam na região.

O autor

jjLeandro é autor de outros três livros: Quase Ave, poesia, 2002; Babaçulândia, ensaio histórico, 2008; e A Morte no Bordado, romance, 2009. Já recebeu outras duas premiações com seus livros: do Instituto Goiano do Livro como poeta inédito no Concurso Cora Coralina em 2002 e da Bolsa de Publicações Maximiano da Mata Teixeira em 2009 com A Morte no Bordado.
Nascido em Carolina-MA, jjLeandro reside em Araguaina desde 1990. É membro da Acalanto – Academia de Letras de Araguaina e Norte Tocantinense desde 2003.



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Ascom/Acalanto (Academia de Letras de Araguaina e Norte Tocantinense) 20/07/2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

MEUS LIVROS À VENDA NA FLIT


AMIGOS,
meus livros estarão à venda no estande da LEART (Distribuidora da Editora Kelps) na Feira Literária Internacional do Tocantins - FLIT, de 25 de julho a 3 de agosto. Dê uma passada lá e adquira o livro de que mais gostar.
São quatro títulos à disposição:
1 - A MORTE NO BORDADO - Romance;
2 - QUASE AVE - Poesia;
3 - BABAÇULÂNDIA - Ensaio Histórico;
4 - MEMÓRIAS DE PETELICO - Romance Infanto-juvenil.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

MEU TIO DE SÃO PAULO













O alvoroço tomou conta da casa de meu avô no verão de 1966.
Havia dois dias que chegavam telegramas informando o retorno de São Paulo de meu tio. Com a força das águas de um dique que se rompe, foi impossível manter a notícia nos limites do casarão secular. Minha mãe e os outros irmãos souberam da novidade e se alegraram com a iminente visita de um dos caçulas da família. Ele representava a concessionária de veículos Chevrolet de meu avô junto à fábrica em São Paulo e só aparecia em casa uma vez por ano. Saíra adolescente do interior do Maranhão para polir-se no luxo da capital paulista. Adquirira por lá hábitos que causavam estranheza no sertão, entre eles fumar com cigarrilha, usar blazer por cima da camisa e não dispensar chapéus elegantes.
Além de desfilar com lindas mulheres em São Paulo — as fotos com elas chegavam amiúde nas cartas noticiando suas turnês pelos pontos turísticos e balneários paulistas, agravando as crises de asma do patriarca, mas enchendo a mãe de orgulho —, amava os carrões.
Quase sufocado pelas crises asmáticas, o pai ainda conseguia dizer:
— Esse menino tá perdendo o rumo.
A mãe, por sua vez, defendia:
—Ele tá é se instruindo entre gente polida.
E sem fim chegavam cartas, fotos, pôsteres, postais. Ele e elas na serra, na praia, no campo; sempre em belos carrões e na companhia de lindas mulheres. Li atrás num dos retratos a epígrafe com pretensão de dedicatória: “Um bom dia começa com o sorriso de uma bela mulher”. Meu avô achou pernóstico, minha avó sorriu contente.  Mas ele tinha bom gosto, não se podia negar: não havia nas fotos uma só delas que fosse feia. A beleza era irmã siamesa da elegância. Elas desfilavam ricos vestidos e sublimes casacos, bolsas alinhadas e sofisticados penteados. As pulseiras brilhavam nos braços e as gargantilhas tocavam sem pudor os colos salientes.  Como para a morte, mal comparando, para a elegância não havia hora. E nos retratos ninguém jamais estava contrariado: os sorrisos alardeavam a felicidade interior. 
Meu avô corria transtornado os grandes salões do casarão, as crises de asma querendo esganá-lo, com minha avó atrás pisando seus calos sem trégua pronta para o rebate. Ele gesticulava e quase gritava para o mundo inteiro ouvir:
—Esse menino é perdulário.
Ela, pedindo silêncio para a vizinhança não ouvir, explicava o comportamento do filho sob a condescendente ótica materna:
—Ele sabe é viver.

Os últimos telegramas marcaram a data de sua chegada para daí uma semana. Como era característica sua, prometia trazer uma grande surpresa.
Nas rodas das conversas familiares explodiram especulações e apostas.
— Vem casado.
— Não, traz uma bela arma. Ele ama armas.
—Sim, mas ama também as mulheres.
—Mas no final do ano passado trouxe uma deslumbrante, esqueceu?
E a inveja reacendeu a memória:
—Que loira, que altura.
Risos sob o caramanchão.
—Alguém lembra o apelido que deram pra ela aqui?
Um tio:
— Varapau!
Novos risos. Minha avó abanando as mãos num pedido de discrição.
Uma tia:
—A mulherada daqui ficou foi despeitada. Também, coitadas, todas baixinhas.
Outra tia, eram oito na família:
—Ele não dava bola pras naniquinhas daqui, por isso desfeitearam a moça.
Em meu canto, copo de refrigerante à mão, invejava a sorte do tio, imaginando pelas conversas dos outros tios sua fornicação com lindas mulheres num luxuoso harém. A ingenuidade insinuava que trocas vantajosas são possíveis e podem custar barato. Assanhei-me: “Eu troco esse copo de refrigerante pelo harém, quer, tio?”
Os tios voltaram a especular.
—Se não vai trazer uma linda mulher, o que pode ser?
—Uma máquina fotográfica?
Desdém.
—Ele já trouxe algo mais magnífico: a radiola portátil.
—Pois então uma caneta-tinteiro de ouro para o velho.
Um cutucão reparador de memória.
— Ih, esqueceu tudo, hein? Isso aí tem dois anos que ele trouxe.
O silêncio no caramanchão anunciava o fim da fertilidade das ideias e a capitulação dos tios. Insinuei-me no vácuo da conversa com uma aposta que despertou o riso geral por eu ser criança em vez da censura recorrente entre os adultos.
—Ele vai trazer um carrão.
—Tá louco, menino?
—Nem estrada boa tem pra cá.
Defendi minha aposta.
—E como chegam os carros do vovô?
—Mas isso é outra história. Os carros do seu avô são pra vender — explicou um tio.
Ante tão veemente oposição, rendi-me afinal. Voltei ao meu copo de refrigerante e a uma nova oferta mental ao tio de São Paulo: “Aceita pelo carrão, tio?”

Na véspera da chegada dele ninguém entendeu mais nada. E tudo porque ele telegrafou dizendo que estava em Miracema. O que ele fazia lá à beira do rio Tocantins? O comum era chegar num dos voos que iam para Belém com escala em Carolina ostentando a pompa da família entre outros ilustres da cidade.
Meu avô uma vez mais às voltas com a asma:
— Desatinado que é deve estar vindo de barco.
Ele explicava no telegrama que fretara um motor em Miracema para embarcar a surpresa, pois era grande.
Quando o carteiro foi entregar o telegrama, as apostas recrudesceram com força ainda na sua presença. Havia uma pista: a surpresa era grande, coisa de monta. O estafeta não resistiu ao alvoroço e também deu seu palpite.
—Um elefante.
Meu avô, à porta de casa, tardou na resposta pois lutava contra o estrangulamento asmático. Mas foi ácido ao recuperar o fôlego:
—Lhe cabe nessa conversa?
Humilde, o homem encolheu os ombros, mas não ficou calado.
—Me pague o telegrama que eu tô caindo fora.
Com a vontade de esganá-lo ardendo no rosto, meu avô pagou-o. E ele, zás, deu no pé.

Não havia outra solução. No dia marcado para a chegada, a família foi toda ao porto esperá-lo. Inqueito sob a soalheira, meu avô jogava seixos do alto barranco dentro do rio com a ponta da bengala. “Clop, clop”, era o som do mergulho dos seixos dentro d’água. Os círculos sucessivos cresciam na lâmina lisa e azul até tudo voltar à plácida liquidez.
Alinhados no barranco, o porto era pobre e com péssima infraestrutura, não tinha sequer um galpão para embarque e desembarque, os irmãos e irmãs com as famílias alinhadas atrás de si pareciam promover uma concentração cívica. Mas não eram objetos de mofa. As grandes famílias tinham seus dias de concentração cívica nas recepções no porto ou no aeroporto. Quando isso acontecia amiúde com uma família, causava até uma pontinha de inveja nas outras. A assiduidade festiva era sinal de status, poder.
Um curioso barqueiro, esquivando-se entre o burburinho do porto, cabelos batidos pelo banho recente no rio para mitigar o calor, aproximou-se de meu avô.
— Major — muitos o conheciam assim na cidade —, esperando alguém?
Meu avô incomodado. Era monossilábico quando se sentia desconfortável.
—Meu filho.
—Aquele de São Paulo? — tornou o outro com cara de quem conhecia a resposta.
—Sim.
—Vem de barco de Miracema?
—Sim.
A pequenez da cidade corroía como ácido a intimidade até expor a vida alheia.
—O carteiro me disse que ele alugou barco em Miracema. Parece que vem trazendo uma coisa grande.
—É.
—Não será um circo? O carteiro disse que tem até um elefante.
—Essa gente comenta demais por aqui — foi a resposta de meu avô, afastando-se do homem para encerrar o diálogo.
Foi refugiar-se na algazarra da vintena de netos pequenos atrás dos pais. Ali foi acolhido com sorrisos e abraços que quase tiravam a sisudez de seu paletó negro. Num raro momento de descontração, tirou o chapéu escuro de feltro e colocou-o na cabeça de uma das netas menores. O enxame de outros netos que queriam repetir a brincadeira fê-lo recolher o chapéu apressadamente e voltar a proteger do sol forte a própria cabeça.
A inquietação voltava na família à aproximação do cais de cimento de qualquer barco descendo o rio. Dedos apontavam o horizonte líquido, pescoços se espichavam por trás de cabeças para melhor visualização da cena, passos eram contidos para não precipitar corpos ladeira abaixo até a água a qualquer sinal de ameaça que ‘dessa vez é ele.’
Mas ele chegou após horas de espera. O seu barco surgiu como um pontinho distante, um grão de areia num oceano de água. Uma vez mais o comentário geral: “Agora é ele”. E era. O motor veio crescendo para o cais, gordo, disforme. A aproximação delineou suas formas. Não era só um motor. Trazia algo atravessado sobre a cobertura. Um carro! Um carrão para bem casar a imagem à palavra. Recebi vários cumprimentos dos tios que se lembraram do meu prognóstico: “Ele vai trazer um carrão!” Quem dentro do carro? Ele, meu tio. O carrão era um Impala conversível 1963. Sentado ao volante ainda servia-se de uísque escocês quando o motor atracou. Não havia trazido mulher dessa vez. Era isso que os olhos ávidos de meu avô procuravam após convencer-se que aquilo não era só um sonho ruim.  Menos mal. Mas meu tio foi pródigo na distribuição de uísque para a tripulação. De Miracema a Carolina, constatamos depois, consumiram seis litros do mais puro escocês. Os litros vazios acumulavam-se sobre o banco de couro vermelho e o soalho do carro.
O trajeto do porto ao casarão na praça, meu tio sorridente ao volante do imponente Impala conversível acenando para os amigos, meu avô no banco traseiro acusando constrangimento nos pigarros asmáticos, um cordão dos outros carros da família atrás, talvez tenha sido o primeiro desfile em carro aberto que aconteceu na cidade. Em questão de minutos o Impala tornou-se objeto dos comentários em Carolina.
Para desassossego de meu avô, a partir do dia seguinte, a todo instante um mensageiro lhe dava notícia de onde estavam o filho e o Impala conversível: “No barranco do rio com as putas”, “No Lajes tomando banho com as amigas”, “No Itapecuru com os amigos”.
Era esse o meu tio de São Paulo que sempre surpreendia a família em suas visitas anuais.


jjLeandro


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 Foto: Impala 1963 -  

terça-feira, 12 de julho de 2011

DELFINS E SEREIAS


DELFINS E SEREIAS

Sou do mundo das águas.
Em Carolina,
Do útero ao túmulo elas
Transportam os homens.
E os transmutam ao contato
Mágico do Tocantins
Em seres que nascem humanos
E se tornam iguais a mim.
E que só se afogam
No leito nupcial das sereias,
Porque ao seu canto
Rendemo-nos todos,
Tão propriamente chamados delfins.


jjLeandro

Foto: Rio Tocantins - jjLeandro (2008)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MEU CONTO EM 'O BULE'

Meu conto MEU QUARTO DE HOTEL está na edição desta sexta-feira de O BULE (http://www.o-bule.com/)

Visitem.

domingo, 12 de junho de 2011

SOL NASCENTE

Foto: Caseara - To (jjLeandro)
O Sol nascendo em Caseara - TO. A partir do dia 15 de junho estarei lá novamente. Em julho, as praias do rio Araguaia bombam por lá. É só aguardar um pouquinho.

terça-feira, 7 de junho de 2011

POEMA DE NARCISO CEGO

Quando se quebrou 

O espelho do olho, 



De permitir ver 

No espelho de vidro, 


Ainda assim


Não foi o fim


Para mim Narciso.


Olhei pelo espelho da palavra


Refletindo imagens tão perfeitas


Quanto o espelho do olho me mostrava.


jjLeandro

domingo, 5 de junho de 2011

O ÉDEN URUGUAIO

A cidadezinha uruguaia perdida nos confins dos Pampas, embora insulada, orgulhava-se de ser exemplo mundial, apontada em todos os índices pesquisados por organizações internacionais como expoente cisplatino e americano de desenvolvimento humano.
Incensada, coube ao rotundo alcaide receber o mundo curioso com tal sucesso. Entre delegações e organismos internacionais que visitaram Edenburgo, ele agora explanava com o dedo gordo e liso numa lousa na sede do município, para uma delegação latinoamericana, por que sua pequena cidade justificava o nome, sendo a primeira em tudo: o maior PIB per capita, o maior IDH, a cidade mais habitável e verde das Américas. Com tantas aprovações, orgulhava-se até mesmo de exibir um único menos entre tantos mais: a menos corrupta das Américas.
Pois bem, quando falou-se do último item, a delegação latinoamericana passou a ouvir tudo com o habitual ceticismo — a maioria brasileira entre os delegados era a mais arredia —, desejando descobrir um senão que invalidasse o discurso do velho gordo que em seu paletó negro parecia um antigo general da independência cisplatina sufocado na armadura ao expor a seus comandados a tática de batalha.
E ele dizia num discurso político sincero que as pesquisas internacionais chancelavam: ‘somos a joia das Américas, senhores; nossa população estabilizou-se há décadas; dinheiro sobra nos cofres da cidade (houve uma inquietação na delegação, como se molestada por pó de mico; mas eram os delegados procurando a direção do cofre); nem mais hospitais e escolas construímos, só pintamos e modernizamos os já existentes, pois a demanda é a mesma há trinta anos. A nossa grande preocupação, senhores, é saber o que fazer com o ativo acumulado nos cofres municipais (novo frisson na sala). Estamos estudando dividi-lo igualmente entre a população, pois dinheiro precisa circular para gerar mais riqueza, assim entendem os papas da economia.’
O gordo alcaide empolgara-se diante de uma assistência que lhe invejava os recursos disponíveis e desprezava-lhe a honradez. Os delegados xeretavam disfarçadamente o tapete para ver se debaixo dele não havia lixo acumulado — nada; os cinzeiros de areia ao pé das poltronas para descobri-los transbordando de pitocos de cigarros — eram apenas alegoria; poeira nos móveis — impolutos; paredes com pintura descascando — ainda recendiam ao frescor da tinta. Poltronas e cadeiras desconjuntadas — eram fortes e vistosas. Desanimavam com o que viam para onde deslocassem as vistas. Imaginavam com um calafrio na espinha: a honradez e a transparência repugnam como cadáver decompondo. Sufocavam-se com a aura pacata que impregnava o ar, desejavam rapidamente encerrar a visitar e voltar quando ouviram um charivari vindo da rua. Ao ser humano qualquer coisa que insinua familiaridade produz imediatamente confiança e conforto. E assim se sentiram os delegados: transportados às facilidades da terra natal. Estavam assim enlevados quando irrompeu sala adentro, em completo transe, que muito deixou a delegação alegre porque quebrava a insossa fala do alcaide, um homem escandalizado, que pensaram buscar salvação de mãos assassinas. Era o secretário de obras públicas e desenvolvimento social de Edenburgo. Não fugia de um homicida, era de algo pior: vinha comunicar ao alcaide que na rua principal da cidade, a bem tratada e florida calle Independência, a população estuporava-se diante de uma desgraça: um buraco no asfalto!
O alcaide, explanando as excelências da pequena Edenburgo diante dos ilustres visitantes, foi ao outro mundo e voltou. Parecia agora um general vencido, a sudorese que lhe manchava o paletó era como marcas do gládio inimigo.  Só ele e o secretário tinham as faces congestionadas, imóveis pela gravidade da notícia; a delegação inteira abria um sorriso de contentamento maior que o sol estival. E os delegados precipitaram-se num tropel escada abaixo para a rua. O alcaide e o secretário secundaram-nos. Na rua a comoção popular era grande. Era justo avaliar: caíra ali no centro da rua um meteoro. Mas não, era algo ainda mais terrível para os padrões da dignidade  edenburgueana: um buraco no asfalto! Os homens e mulheres da delegação frustraram-se diante do que viram: um único, um único e minúsculo buraco no asfalto. Para mensurar com exatidão a polêmica: era meio arredondado e não tinha raio maior que dez centímetros.
Diante do buraco, o alcaide rápido recuperou o sangue-frio e o controle da situação. Com um discurso vibrante para munícipes que confiavam em seu comando, foi contundente: ‘amigos de Edenburgo, é chegada a hora de uma providência saneadora, vamos remover este velho asfalto e colocar um novo em seu lugar em toda a extensão da calle.’
Foi aplaudido demoradamente.
Após o discurso, um delegado brasileiro puxou-o pela manga do paletó para aconselhá-lo com os princípios de excelência da nossa administração pública:
— Alcaide, por que não faz como nós no Brasil? Lá somos mais rápidos e eficientes, com menos transtornos para a população.
O alcaide, sem nunca ter saído de Edenburgo, interessou-se:
— Mesmo? E como fazem?
— Operação Tapa-buraco na rua, na sua calle, e Arromba-cofre no tesouro municipal.
— ????
E ele escancarou-se porque pensava falar a um igual:
—Isso mesmo, alcaide. Tapamos o buraco, dizemos que asfaltamos a rua toda e compramos propriedades com o restante da verba desviada.
Diante do cenho franzido de indignação do alcaide, ele se defendeu:
— O senhor sabe, temos pouco tempo, são apenas quatro anos de mandato.


jjLeandro

sexta-feira, 3 de junho de 2011

MEUS LIVROS À VENDA NA ESTANTE VIRTUAL





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Amigos, meus livros estão à venda na 
Estante Virtual a preços bem acessíveis. 
Quem desejar adquirir, aí está o linque: http://www.estantevirtual.com.br/jjleandro


Abraços a todos


jjLeandro

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ORELHA DE BELÉM









Meu tio paterno caçula chegou de Belém. Meu pai recebeu-o como a um filho pródigo, os olhos verdes brilhantes revelavam o carinho que tinha pelo irmão mais moço deixado sob seus cuidados anos antes pelo meu avô Joãozinho numa viagem do agreste pernambucano a Carolina em visita ao mais velho dos filhos. Para os sobrinhos, recebíamos um herói. E tudo porque nos dias anteriores a sua chegada ouvíamos pelos cantos da casa fiapos de conversas segredadas entre meus pais, revelando lances cinematográficos da vida atribulada dele na capital paraense onde era radiotelegrafista de uma empresa aérea.
Os telegramas dando conta de sua volta mudaram o clima em casa. Meus pais tornaram-se pressurosos, embora nada dissessem aos filhos além da frase que lhes abria um sorriso forçado: ‘seu tio vai chegar’. A solicitação de maiores detalhes transformava ligeiro o difícil sorriso em careta apreensiva que antecipava a negativa: ‘Só isso basta’.
Especialmente para mim, pelos cochichos e pela tensão que meus pais tentavam disfarçar, o retorno dele não obedecia a plano algum pré-estabelecido. Inseria-se no rol das emergências. E por quê? Não era assunto que interessasse a crianças diziam-nos constantemente.
No dia em que chegou a casa amanheceu em polvorosa, minha mãe no comando das empregadas ultimava os preparativos do que parecia ser a recepção a um soldado que voltava são e salvo da guerra. A tensa expectativa dos últimos dias cedia lugar à felicidade incontida. Flores enfeitavam a casa desde a mesinha de centro na sala à grande e pesada mesa da cozinha. Os quartos foram arejados e fumigados com alfazema. Para mim, que seguia os passos de minha mãe e das empregadas no preparo da casa, iam receber o bispo.
Na hora de ir ao aeroporto do Ticoncá, pegamos um táxi na praça. O voo de Belém era para o final da manhã, mas a ansiedade foi aguilhão que nos tocou cedo para lá. E ninguém reclamou a espera de duas horas. Fiquei o tempo todo com um olho na pista e o outro nos velhos caças da FAB, sobreviventes da guerra mundial repassados pelos americanos ao Brasil após o conflito, que constantemente faziam escala na cidade em suas andanças de Belém ao Rio de Janeiro. Achava-os soberbos espetando o céu com o nariz petulante. As proezas da guerra autorizavam, sem deixar margem a questionamentos, a imponência que ainda exibiam os velhos aviões.
Por fim o barulho da aproximação do avião de Belém agitou o saguão do aeroporto e fez-me esquecer os velhos caças. O tio chegava. Minha mãe obrigou-nos a uma postura quase marcial para recepcioná-lo que chamava atenção das outras pessoas. Algumas queriam rir, outras admiravam nossa obediência. Ele passaria a tropa em revista. Eram cinco sobrinhos crescidinhos e outros dois de colo. Uma altiva guarda de honra esperava-o perfilada.
Ele desceu do avião e foi reconhecido ainda à distância na pista entre os outros passageiros. Meu pai apontou-o. A guarda de honra dissolveu-se em tumulto. Corremos a seu encontro desrespeitando as regras do militarismo familiar. Ele não teve braços para tantos abraços simultâneos. Rendeu-se imóvel preso entre os sobrinhos. Ávidas mãos procuravam seus dedos para segurar, disputando-os com alças de malas e sacolas. Fomos até meus pais como uma gigantesca e desajeitada aranha cujo corpo era meu tio e os sobrinhos as patas.
Em casa, a tietagem continuou e meu tio mantinha-nos permanentemente excitados a sua volta como um enxame de abelhas. A intervalos regulares, com gestos automáticos enquanto conversava com os adultos, retirava de um bolso lateral da calça, de um bolso traseiro, ou do bolso do blusão de aviador que ainda vestia sobre a camisa Volta ao Mundo de cor berrante, balas, pirulitos e chocolates. A nossa agitação quase tornava impossível a conversa familiar. Enquanto não vinha nova rodada de guloseimas, entretínhamo-nos com as outras novidades da capital. Um sobrinho puxava curioso a pulseira sanfonada de aço do relógio em seu pulso, outro brincava com o isqueiro de metal, imitando-o no ritual de abrir a tampa e correr o polegar sobre a pedra para acender o cigarro. Fechar o velho Zippo provocava um ‘clic’ da tampa que nos alegrava. Eu não parava de esgaravatar os seus bolsos a procura de mais balas e chocolates. Procurando no bolso interno do blusão de couro, saí em cima da razão de sua volta precipitada a Carolina: a foto de uma orelha decepada. Não era dele com certeza, pois as suas duas estavam certinhas em seus lugares.
Meus pais, óbvio, sabiam o que aquilo representava. Tomaram-na de minha mão e puseram-me de castigo. Os outros irmãos, livres de punição, foram mandados para a sala com as empregadas.

Só muito tempo depois eu conheci a história da foto.
Nas muitas andanças pelo centro comercial de Belém atrás de prostitutas, jovens como meu tio brigavam comumente. Aos vinte e dois anos ele se meteu numa briga com outros frequentadores de bordéis. No tumulto da briga, os colegas abandonaram-no à própria sorte cercado pelo grupo rival. Valer-se dos resistentes dentes que quebravam rapaduras no agreste pernambucano foi a maneira que encontrou de livrar-se de tremenda sova ou coisa pior. Resoluto, procurou a orelha mais próxima no bolo de cabeças que tinha sobre si, abocanhando-a por inteiro. A forte mordida tensionou os músculos do queixo a ponto de doerem. O gosto ferruginoso que lhe encheu a boca e o grito lancinante do oponente desfizeram o tumulto num instante. O rapaz perdera a orelha. Os colegas afastaram-se dele horrorizados. Após um segundo de hesitação, recolheram o ferido e abandonaram o ringue.
Meu tio correu desesperado. Perturbado, fugiu cerca de dois quilômetros por galerias pluviais e bueiros sem se dar conta de que a orelha continuava na boca. Ao parar estafado, a respiração ofegante, lembrou-se dela. Cuspiu-a na mão com grande nojo, mas como chegara até ali com ela, enrolou-a no lenço, guardando-a no bolso da jaqueta como um sinistro troféu. Tinha em casa uma Leica alemã, com ela fez uma chapa fotográfica da orelha. Depois jogou-a no vaso sanitário. Por medo de ser descoberto, só revelou a fotografia na véspera da viagem a Carolina.
Chegou com ela no meio dos pertences como souvenir. Ou como sinal de alerta a lembrá-lo dos lugares que poderia frequentar com isenção de riscos.
Foi assim entre pirulitos, balas e chocolates que encontrei a orelha de Belém. 


jjLeandro

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O DELÍRIO DAS CINCO DA TARDE

A morena misteriosa passava diante de mim, à frente da casa de minha avó, todos os dias. Inicialmente, tive dúvida se não ficava diante do relógio esperando as cinco da tarde para sair à rua. Nunca soube ao certo, mas passei a imaginar que era inteligente o suficiente para fugir do sol escaldante do início e meio da tarde em suas incursões exibicionistas na rua das mangueiras.
Ela invadiu minha vida, depois os meus sonhos. A tal ponto que alguns meses depois não sabia se a vira na rua ou sonhara; outras vezes sonhava jurando tê-la visto na rua. E como eram habituais os sonhos e as aparições reais, sentia uma sensação de atordoamento dominar-me quando sonhava com ela à noite e à tarde ela se apresentava na rua com a mesma roupa. Inúmeras vezes assim coincidiram realidade e sonho. Além disso, ficava a sensação de os dias sucederem atropeladamente aos pares ou então a confusa impressão de sonhar um sonho duas vezes na mesma noite.
Certo é que a morena me enlouquecia, eu entrava em parafuso a cada aparição sua. Como não dava vazão ao sentimento novo que experimentava — o amor, sim, eu me apaixonara platonicamente por ela —, vivia um verdadeiro inferno de práticas onanistas.
Lembro como foi duro, terrível mesmo, consumir-me na expectativa da aparição dela naquela quarta-feira de agosto. Desejava ardentemente uma vez mais a coincidência de realidade e sonho. De antemão um esclarecimento para melhor dimensionar o absurdo de meus propósitos: o neófito no amor, tampouco o adolescente apaixonado deveriam acreditar no que eu esperava acontecer, porque a experiência de vida aos dezessete anos é suficiente para assegurar que aquilo era delírio. Mas vamos lá, a soalheira dos trópicos às vezes deforma mentes sadias, quiça ela tivesse sido afetada. No fundo, acho que minhas magras esperanças se resumiam a isto.
Ao levantar na quarta-feira de uma noite estrebuchada entre sonhos lascivos, amarguei a humilhação de sentir o calção úmido, manchado. Agora mais essa! Já não tinha mais vontade própria, a morena era senhora de mim, sim, movimentava a seu bel-prazer meus cordões de marionete. A polução noturna era prova cabal do domínio que exercia sobre mim. Quase caí em desespero. Que ninguém levasse ao pé da letra as sandices que imaginei, verdadeiras explosões de raiva impotente que me doeram a cabeça: ‘amputem-me as mãos —  como aos ladrões nos países muçulmanos — já que não preciso mais delas’.
A ducha matinal recompôs-me a paz, ganhando função extra além de lavar-me do ranço dos suores noturnos.
No café da manhã fui espartano, a morena como se apresentara no sonho parecia desfilar sua beleza na borda da xícara, inibindo meu apetite. Deitava o corpão no guardanapo de mesa, lançava-me beijos sentada no pires de pernas cruzadas.
Ixe!, minha avó, também à mesa, comentou o óbvio:
— Levantou, mas continua dormindo.
Meu avô defendeu-me, intervalando as palavras com pigarros asmáticos:
— Deixa o menino, nessa idade a cabeça anda nas nuvens.
Passei a manhã esperando as cinco da tarde. Procurei entreter-me além do comum, para que o tempo viajasse de trem-bala.
Como estudava à noite, quando não havia prova obrigando-me a me debruçar sobre os livros na mesa da sala grande ao lado do caramanchão de buganvílias, corria de uma ponta a outra do balcão da loja de tecidos de meus avós. Ali sim o tempo espichava que nem os elásticos que vendia para as mulheres; um dia valia dois.
Driblei-os, pois, alegando prova à noite.
—Fica aí na sala — disse minha avó, levantando-me da mesa na companhia do marido.
Um suspiro de contentamento deu-me a certeza que conseguiria encurtar o tempo; as cinco da tarde chegariam velozes naquele dia.
Decide esperar a hora de forma melodiosa, que tal música?
Ainda não apresentei a morena anatomicamente, ficar repetindo ‘morena morena’ faz cada um, a seu talante, criar um ícone que traduz suas mais íntimas taras e perversões. Felizmente representado individualmente na mente de cada um, ufa! O que seria do mundo se todos saíssem por aí escrevendo como um verdadeiro Marques de Sade? Excogitei essa possibilidade, que todos se sujeitassem ao que também me escravizava. Bem, enquanto Sergio Endrigo me levava a crer que sua Roberta era a minha morena, desejei o déjà vu uma vez mais. Há sonhos que são desejos realizáveis; há sonhos que são deambulações extravagantes da mente, lícito dizer: delírios. A música incitava-me a acreditar no último tipo.
Mas a morena? Bela, sem dúvida. Nunca a descrevi senão a partir do ponto que mais me atraía: as coxas. Grossas, dois pilares roliços, tesos. A cintura de vespa realçava as ancas nervosas de adolescente. A barriga, tão exuberante quanto o resto do corpo, parecia ofuscada pelos seios que, petulantes, saltavam à frente. O cabelo negro, liso, aparado à altura das orelhas, deixava à mostra a nuca alabastrina. Boca, nariz e olhos, sedutoramente desenhados, tinham o poder paralisante de Medusa sobre quem a olhasse de frente.
O toc-toc da agulha do toca-discos arranhando o vinil ao fim da última faixa do LP me fez saber que o tempo voava. A música me lançara aos braços uma plêiade de mulheres de um excitante harém imaginário. Os eunucos que me trouxeram Teresa, Roberta, Manuela, Emmanuelle, Lara e Aline eram ninguém menos que Endrigo, Iglesias, Conniff e Christophe. Ah, seriam elas como a minha morena? Assim se passou a manhã e eu enfrentei o almoço sem tirar as cinco da tarde da cabeça.
A aproximação da hora do desfile da morena deixou-me ainda mais excitado e apreensivo. Ela se apresentaria como no sonho? Deixaria que a beleza radiante de seu corpo me cegasse a ponto de eu alcançar o orgasmo involuntário? Eram dúvidas que me consumiam.
Quinze minutos para as cinco da tarde o telefone tocou. Não era possível um estraga-prazeres na hora H. Corri, atendi. Fone no ouvido, olhos colados na veneziana da janela vigiando a rua por um retalho de fresta. Convite para sair à noite. Não queria papo, veríamos depois, tchau!
Novamente à porta, a esquina da praça — por onde ela apareceria — debaixo da minha mira. Viria, como tantas vezes, o sonho antecipar a realidade? Por um momento envaideci-me ao suspeitar ter poder sobre a subconsciência dela, manipulando suas decisões. Era a única maneira de justificar tanta coincidência. À lembrança, tentei contato uma vez mais. Ainda daria tempo de transformar meu delírio em realidade?
O sol escondeu-se atrás da massa escura das mangueiras da praça, lançando longas sombras no meio da rua. As mães já haviam chamado as crianças para o banho antes do jantar. Não havia mais qualquer delas na rua. As sombras das mangueiras no meio da rua formavam um tapete escuro para o seu desfile radiante.
Ela vem já! Ela vem já!, exultava consultando o relógio.
E ela veio.
Inacreditável!
As coincidências anteriores não passaram de meras coincidências. Ela não apareceu esplendidamente nua como no meu sonho.

jjLeandro

terça-feira, 3 de maio de 2011

MEU PAI FAZIA O DIA NASCER

Imagem: Montagem de jjLeandro

Quando o dia amanhecia para mim, sobre a mesa da cozinha — onde eu tomava café antes da escola — já estava, ainda presa ao gancho, a carne que minha mãe ia preparar para o almoço. Meu pai a trazia do mercado num ritual diário que a escassez do produto em Carolina, e não o vício, ditava. O hábito de vê-la ali foi construindo uma história ao longo de alguns anos, hoje memória, cheia de episódios de contornos irreais, fantásticos, mas satisfatórios e verdadeiros para mim.
Havia diariamente em casa três coisas infalíveis: o sol rubro no fundo do quintal, como os nossos olhos ao acordar cedo, platinando-se com o avanço das horas; eu, testemunha e cúmplice da sua preguiça matinal; e a carne também rubra, exânime, com córregos sanguinolentos escorrendo pela mesa cujas margens moscas ávidas e destemidas rapidamente povoavam, bebendo-os. Engraçado, até os insetos imitam os humanos: migram aos magotes para onde é mais fácil o alimento. Mas eu não deixava nada de graça e travava uma guerra diária contra elas, usando a mão como arma. Piparotes lançavam muitas delas bem distante. Revoavam sobre a carne para logo voltarem teimosas ou inconscientes do perigo. Nova mortandade. A satisfação estampava-me um sorriso no rosto como nos generais que pressentem a vitória quando os seus movimentos de tropas se assemelham a fulminantes jogadas de xadrez que resultam em xeque-mate. Regozijava especialmente quando a arma era uma liga fina de câmara de ar de pneu de carro. O estrago era maior. Sabia que minhas vítimas viravam uma pasta ao serem lançadas distantes de mim. Era o bastante para acreditar na continuidade das conquistas humanas: eu trazia latente o inato sadismo da raça.
Ao sair para a escola o tampo da mesa, campo da batalha desigual, estava repleto de soldados alados mortos. Suas asas eram uma vantagem que não conseguiam usufruir na luta pela sobrevivência contra mim. Restava à empregada, ao limpar a mesa enquanto eu me afastava, olhar-me com carantonha assustadora, que as minhas habilidades telepáticas traduziam assim: ai, que moleque nojento!
Eu não ligava mesmo a mínima para o que ela dizia, muito menos para o que nem chegava a expressar em palavras.
Tinha a mente ocupada por outros pensamentos.
A cor rubra, para mim, associava duas coisas matinais: o sol e a carne no gancho escorrendo sangue. Sabia que o meu pai a trazia todo dia. Levantava cedo, pegava o gancho de metal escuro com quatro quinas feito por um ferreiro da cidade — uma pequena e rústica âncora — e invadia a escuridão da rua. Era com ganchos que os homens iam ao mercado nem bem os galos anunciavam que os quartos das reses abatidas já estavam pendurados nos varais dos açougues. Meu pai recebia no rosto o ar fresco da madrugada, cumprimentava um ou outro vizinho que também seguia para a beira do rio, e partia para fazer o dia nascer. Era nisso mesmo que eu pensava ao ver a carne no gancho sobre a mesa do café todos os dias. Tinha a impressão que era um naco da rubra carne do sol, arrancado pelo esforço de gancheá-lo para fazê-lo nascer. Um fórceps como ainda usava o velho Zeca, médico que morava no casarão do outro lado da praça. Eu tinha muito medo que ele viesse puxar minhas orelhas com o fórceps. Já bastava me ter puxado pela cabeça no parto, e a intervenção ter resultado em uma clavícula quebrada. Por isso fugia dele quando via sua reluzente careca denunciá-lo na rua.  

Meu pai fazia sim o dia nascer. Não havia dúvida que a sanguinolenta carne sobre a mesa fora extirpada do sol. Não era outra coisa senão lamento pela perda diária de um quinhão seu aquele olho vermelho sobre o muro do quintal. Nunca perguntei a meu pai como conseguia a proeza. Preferia o segredo, assim acalentava a sua aura de herói. Não há dúvida que uma pitada de mistério sobre eventos da vida de um herói é ingrediente essencial da sua composição. Contentava-me com as sucessivas provas que ele depositava desinteressadamente e em silêncio sobre a mesa. E até gostava de encontrar a carne atraindo moscas. Podia dar vazão às forças acumuladas nas horas inativas do sono.
Assim ia mais tranquilo para a escola.

Como maneira de vingar-se de mim porque deixava sujeira sobre a mesa Quitéria, a empregada, sentia prazer em me contrariar. Mas isso não empanava a alegria do general que todo dia acumulava vitórias contra os lendários guerreiros alados. Entretanto, uma vez chateou-me muito. Foi quando disse a ela, numa das raras tréguas das guerras muscídeas, que na escola meus colegas sabiam que meu pai fazia o dia nascer. Eles gostavam muito de ouvir eu contar como meu pai fazia o parto do dia.
Ela deu uma poderosa gargalhada que fez uma nuvem de moscas levantar voo da mesa. Até eu surpreendi-me com o forte estrondo brotado de seu corpo frágil. Mas me contrariei mesmo foi quando ela disse, curvando o corpo sobre mim, que sustentava com a mão apoiada sobre a quina da mesa:
— Teu pai num fez nascer nem vocês, foi tudo obra e arte do doutor Zeca, que dirá pôr o sol pra alumiar o dia. Moleque tu tá é variando.



 jjLeandro