segunda-feira, 13 de abril de 2009

DOMINGO EM FAMÍLIA


Foto: http://www.carroantigo.com/imagens/HUMOR/01_B.JPG


Era a primeira vez que o candidato a genro visitava a casa da namorada. A mãe dela, Clotilde, marcara com uma semana de antecedência um churrasco para recepcionar o rapaz no domingo. Nada poderia dar errado. Era mulher metódica, que trazia anotada na agenda até a corriqueira missa do domingo. Mas, com os diabos!, era pleno mês de maio e as chuvas ainda se faziam abundantes, sem alívio. Pela madrugada do domingo o toc-toc insistente da água sobre a caixa do condicionador de ar do quarto acordou Clotilde. Cutucou o marido com o cotovelo nas costelas, ele acordou de um sono profundo no qual se embaralhavam mulheres e dinheiro, abriu os olhos e não enxergou nada na escuridão, um sobressalto foi a sua reação:
— O que houve, onde estou?
Clotilde trouxe-o ao mundo real com sua voz de espinhos:
— Será que essa chuva vai atrapalhar o nosso churrasco?
Amâncio recolheu-se à concha do lençol com uma imprecação:
— Vá perguntar a São Pedro, ora bolas!
— Estarei com ele mais tarde na igreja; e ele haverá de me explicar esse boicote.
Mas não houve igreja nem explicação. Quando o dia amanheceu, a chuva ainda estava lá, resistente, sem sinal de ceder. O jeito foi fazer a filha correr ao telefone, ligar para o Bento e dizer numa voz de seda — não usual em Perpétua:
— Benzinho, o churrasco gorou...é a água, sabia? Não tem onde pôr a churrasqueira. O carvão molhou, e com esse tempo não pode ser dentro de casa. A fumaça ia emporcalhar tudo. O pai pintou a casa tem duas semanas.
— E como vai ser? — ele pediu esclarecimentos.
Um sorriso anêmico do outro lado da linha.
— Vai ser frango assado com salada, você gosta, não?
— Tá bem, a picanha fica para outro dia — e desligou.

Eram já dez horas e a chuva, sabe como é, deixa a gente com as fibras do corpo encolhidas. O resultado é a preguiça. Para Clotilde o domingo seria mesmo imperfeito. Se perdera até a missa por causa da chuva, nada mais interessava. Nem mesmo fazer a corte ao candidato a marido para a filha — que a beleza não trouxera à linha e a aposentadoria do pai ferroviário tentava colocar nos trilhos — tinha mais sentido. Por isso seria de qualquer jeito, qualquer remendo estaria bom. Noutra oportunidade tudo sairia a capricho. Para correr atrás do frango assado para o almoço, Clotilde fez Amâncio molhar os pés e a cabeça.

— Vá lá, homem, pega o carro e busca o frango.
— Que frango, mulher? — defendeu-se Amâncio, também ele filho de Deus, refugando a chuva.
— É para salvar as aparências, afinal o rapaz vem com chuva ou sem chuva. Compre um frango assado com farofa para o almoço lá no açougue. O resto eu improviso aqui mesmo.
O irmão menor de Perpétua correu na frente, abriu o portão e pulou dentro do carro, pingando água:
— Vamos pai, vem logo senão não pega mais frango.

Vencido, Amâncio foi. Um tempo depois voltou com o frango e a farofa.
Ainda faltava algum tempo para o Bento chegar e para o frango não esfriar, Clotilde envolveu-o em papel alumínio e colocou-o em uma pequena caixa de isopor. Rápido arrumou uma salada de legumes fria, arroz, feijão e maionese com vagem e batatinha. Beijou a ponta dos próprios dedos reunidos, lançando-os depois para adiante num gesto de satisfação.

O resto foi fácil: a toalha de linho sobre a mesa, a mesma com que recebia o padre italiano para os bolinhos das tardes de sábado, os pratos de porcelana — presente das amigas do emprego público no seu casamento —, os copos de cristal — os seus pais que deram, ufa!, e como economizaram para comprar — para a bebida, os talheres — eram de aço inox, que os de prata custavam a cara toda e não só os olhos! —, os guardanapos, também de linho, e as confortáveis cadeiras. Ao final da arrumação Clotilde olhou, angulando a cabeça: estava satisfeita. A filha, uma sombra atrás dela, juntava as mãos em prece, dava passinhos adiante e atrás, olhava e olhava, e sem palavras concordava.

Tocou a campainha.
— É o Bentinho — disparou Perpétua para a porta sacudindo as mãos em aflição.
E era mesmo. Perpétua e Amâncio seguraram o rapaz na sala enquanto Clotilde punha tudo à mesa. O irmão caçula, na cozinha com Clotilde, recebia desta as últimas instruções de civilidade à mesa. “Se não se comportar, leva uma coça quando ele sair”, foi a instrução final. Plácido, um nome fora de propósito, em seus doze anos, concordou.

Mas tudo correu normal até quase o fim. Um verdadeiro almoço dominical em família. Clotilde apenas debicou a comida, a todo instante repuxava os músculos da face num sorriso. Amâncio perdia-se em atalhos, ausente, como se manobrasse ainda locomotivas no pátio da estação. Perpétua, vez ou outra, levava o garfo à boca. Nervosa em agradar Bentinho, suas mãos não davam folga ao guardanapo, amassava-o, amassava-o e amassava-o. Plácido parecia um centroavante de futebol estacionado na grande área: esperava a sua vez. Quem mais tirou proveito do almoço foi mesmo Bento. Devorou ao menos metade do frango com muita maionese e farofa. Clotilde muito passeou seus olhos gordos sobre o candidato a genro.
Ao final do almoço, Bento quebrou o silêncio.

Amâncio estacionara sua locomotiva e quase já abandonava o posto, Clotilde segurou-o discretamente pelo braço para ouvirem Bento:
— Olha, dona Clotilde — e ela fez-se toda ouvidos e sorrisos —, o almoço estava uma delícia. É preciso ser cozinheira de mão cheia para assim, de última hora, improvisar um frango assado tão delicioso. Da farofa, um petisco, não vou nem falar. Depois, por favor, dê-me a receita do frango, quero levar para a minha mãe.
Foi quando Plácido disparou na área para marcar o seu gol:
— Ih, você vai ter que pedir ao açougueiro, o pai comprou o frango no açougue lá da praça.


jjLeandro

3 comentários:

Nilcéia Antonioli disse...

Oi Leandro, vim conhecer teu blog que aliás está muito legal!!! Sucesso na vida e na arte!
Tenha uma excelente semana!
Já adicionei os links ao meu blog. Bjs!

Adroaldo Bauer disse...

O nome se moleque devia ser Plácido Romário. Picou na área, tascou nas funduras do véu da noiva, que balançou, por suposto. Bem assim a vida que se leva, que se não se a leva, leva a gente, Leandro.
Grato por teu convite, pela exposição nossa aqui entre teus convidados e por esse agradável e brejeiro, sim, avalio que esse termo é apropriado: brejeiro texto da vida como ela é, foi e continuará sendo, porque moças casadoiras inda as há, embora em menos quantância (se não existe, quer dizer quantidade mais constância, dá licença, meu poeta...)

Lau disse...

JJ, repito o que escrevi no Globoonliners: um golpe do baú utilizando a gastronomia. Hilário!!! Muito bom!!! Parabéns!!!
Bjs