quarta-feira, 10 de novembro de 2010

AS LETRINHAS MIÚDAS



Se a sua relação com o Plano de Saúde está como a do torcedor com o time de futebol do coração rebaixado para a segundona ou ainda é difícil como a do político corrupto que se elegeu nas eleições passadas e tenta incutir ao TSE que o seu passado negro não conta para a Lei da Ficha Limpa porque é uma abstração do tempo,  a coisa tá pra lá de feia.
Mas pode ser pior ainda. Sim, sempre haverá alguém em pior condição que a sua. Mas não se deixe levar por esse lenitivo. O infortúnio alheio só mostra que você faz parte de uma desgraça maior, e isso é desesperador. Mas nesses casos, infelizmente, o comum é a desgraça alheia gerar resignação.
Para que isso não aconteça lhe contarei um caso surreal, difícil de acreditar e espero que a empatia o faça correr atrás do prejuízo.
Quando dona Maria completou 60 anos precisou negociar com o Plano de Saúde que pagava há vinte anos a mudança de faixa etária. Cumprira ao longo desse tempo fielmente com seu dever de associada: pagava regiamente as mensalidades embora os tempos já fossem republicanos. Além disso, gabava-se com as amigas nas tardes de tricô que quase nunca, ou nunca, não se lembrava exatamente, precisara usá-lo. Com isso acreditava ter acumulado vantagens, como as milhas da Aviação, para a hora que fosse indispensável qualquer negociação.
Com um sorriso foi ao Plano em busca da negociação. A moça, apertada num paletozinho padrão, apertou-se mais com o que teria que dizer à senhora ao consultar sua situação. Pensou na mãe, pensou na avó (não na bisavó, que esta tinha partido muito provavelmente antes da constituição do Plano). Quase foi às lágrimas. Num misto de esmorecimento e alívio de consciência empurrou dona Maria para o gerente.
— Deixa comigo que esses casos eu tiro de letra — disse ele com absoluta tranquilidade.
Ou o homem tinha nervos de gelo ou a experiência (ah! a experiência) tinha temperado seus nervos com aço na lida com tais melindres.
Pois de cara não é que foi solícito com dona Maria, ofereceu água, cafezinho, um lugar para sentar (não se sabe se o choque da notícia que ele tinha para dar ia levá-la ao chão — isso cá com os nossos botões que a experiência o habilitara a dar só os passos necessários para não perder tempo. E ali tempo é dinheiro).
Simulou uma consulta. Demorou um tempo enrolando dona Maria. Tempo exato em que ela vasculhou o ambiente com os cansados olhos míopes, comprovando pela beleza da decoração e dos móveis a pujança da empresa. “São favas contadas”, pensou  aliviada.
Abandonou suas digressões para ouvir o gerente que agora falava:
— Dona Maria não há qualquer reajuste na mensalidade por mudança de faixa etária no seu caso...
— Eu sabia — sorriu ela, interrompendo o gerente (bem sabido que não sorriu por último, para que o ditado não fosse desmoralizado).
— Deixe eu concluir, por favor. Não há reajuste por um simples motivo: o seu plano foi extinto aos sessenta anos.
— Mas como? Assim sem nenhum aviso, sem nenhuma carta? — a coitadinha não sabia o que dizer.
— Estava no contrato, dona Maria.
— No contrato?!
— Sim, ali nas letrinhas miúdas. A senhora não leu?
A sua resposta foi quase uma confissão de culpa:
— Eu tenho as vistas fracas.
Ele por sua vez foi lacônico:
— Devia ter aproveitado os benefícios do Plano para ir ao oculista.


  

jjLeandro

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

É A TAL GLOBALIZAÇÃO

Imagem: http://www.forumptd.com/lofiversion/index.php?t43946.html






Andando na rua, aproximei-me de um desses carrinhos que vendem a espiga de milho assado a um real. Sou fanático por milho, assado, cozido, transformado em pamonha, curau ou bolinhos fritos. Teve milho, encaro até uma polenta. Os vendedores de milho são mais comuns na época da chuva. Escasseiam quando ela vai embora. E como a chuva voltou, eles aos poucos reaparecem nas esquinas da cidade. Pois bem, fiz-me diante de um deles num dia desses.
Estava alegre o vendedor, pôde enfim sair do ócio e curtir o dinheiro miúdo que a economia informal põe em seu bolso todo dia. ‘Tudo é trabalho, né, doutor?’, alegou. Concordei, mesmo vendo que a resignação é o traço que a vida mais realçava em sua fala diante de tão pouco ganho e de tantos concorrentes. ‘Em seu lugar eu já teria soçobrado’, elogiei-o enquanto atacava o milho a dentadas. Ele torceu a boca numa munganga, enfiou os dedos pelos cabelos crespos e não teve cerimônia quando disse:  
— Não sei o que é isso que o senhor disse, não. Mas pode ter certeza que a gente é igual erva daninha: desaparece no estio e volta na chuva.
Achei lapidar a sua comparação. A sabedoria popular plenamente demonstrada. Sorri. Ele afastou-se um pouco para atender mais um que chegava. Quando voltou, eu já tinha devorado o milho. Meti a mão no bolso, puxei a carteira e perguntei o preço. Apenas precaução pelos mais de três meses sem ver milho assado na rua. Mas ele surpreendeu-me:
— Um e cinquenta, doutor.
Tive que tornar a moeda à bolsa e entregar-lhe uma nota de dois reais. Junto com ela, a observação:
— Encareceu o milho, hein?
A explicação que ele me deu, surpreendeu-me.
— Pois é, o senhor sabe, a quebra da safra de trigo na Rússia e em outros países europeus empurrou pra cima o preço do milho na Bolsa de Chicago e favoreceu nossas exportações.
— Em suma: a lei da oferta e da procura é a culpada... — atalhei.
— Ainda bem que o senhor entende que a culpa pelo reajuste não é minha.
— Claro...
E ele encerrou o diálogo, depositando uma moedinha de cinquenta centavos em minha mão:
— É a tal globalização, doutor!

jjLeandro

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

MISCIGENAÇÃO

Desde que
           me trouxeste
a esta terra
não houve
            retorno.
Misturamos
na dor e
           no amor
nossas cores,
nossas vidas
e destinos.
Tivemos filhos
             paridos por desejo
que tu olhas
e te enxergas
             e eu também
olho e me vejo.


jLeandro

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

VENTO E CHUVA TÍMIDA

Araguaina, tão sequiosa por água, experimentou há pouco uma chuva tímida que molhou o asfalto das ruas, escorreu um pouco de enxurrada pelas sarjetas e arrancou da memória as reminiscências de como é o cheiro da primeira chuva.
Todo mundo sentiu o cheirinho de terra seca quando molha.
Delícia!
Mas parou. O céu continua nublado, um pingo aqui, outro ali. E a gente olhando para cima pedindo: vem de vez, chuva. Vem!
São Pedro de vez em quando responde zangado com seus trovões, recriminando nossa pressa.


jjLeandro
Chuva
Ventania
Chuva

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

VEJA O SOL - OLHE AGORA PARA O CÉU!

Um  belo fenômeno emoldura o Sol há algum tempo. Uma corona envolve-o neste momento, às 11h40min, no céu de Araguaina.
Não sei se algum efeito atmosférico  o deixa assim só aqui em Araguaina ou no mundo todo.
Mostrei a minha funcionária domésica e ela se assustou: "Ai meu Deus é o fim do mundo e eu ainda nem casei!".


Foto: jjLeandro

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CORAGEM

Tenho dentro de mim
O maior dos abismos
E enquanto cismo
Que o medo de funduras
Não passa de conjeturas,
O infinito
Do meu pensamento age
E garante que a coragem
Que tenho é inata,
Coisa que habita em mim
Desde antes de eu ser assim.


jjLeandro